A partir de 1º de julho de 2025, a nova Autoridade Antilavagem de Dinheiro da União Europeia (AMLA, na sigla em inglês) iniciou oficialmente suas atividades em Frankfurt, ao lado do Banco Central Europeu. O marco representa o primeiro passo concreto da UE rumo a uma supervisão unificada no combate à lavagem de dinheiro — com a missão clara de intensificar a perseguição a crimes financeiros em todo o continente.
É um avanço que chega após anos de escândalos bancários — o mais notório deles envolvendo o ABLV Bank, da Letônia, que acabou sendo liquidado não pela União Europeia, mas pelos Estados Unidos. O episódio deixou evidente a principal fragilidade do bloco: uma resposta fragmentada e inconsistente aos crimes financeiros. O tema foi destaque no painel “Crypto, Gaming & AML: Beyond MiCA”, realizado hoje durante a SiGMA Europa Central, na Fiera Roma, que discutiu o impacto dessas novas diretrizes sobre o setor de jogos, criptoativos e tecnologia financeira.
Uma mudança de paradigma
A criação da AMLA representa uma verdadeira mudança de paradigma. Até então, cada país da UE interpretava as regras de combate à lavagem de dinheiro de maneira própria, gerando um mosaico regulatório com diferentes níveis de rigor e controle. Com a nova autoridade, o objetivo é harmonizar as regras e centralizar parte do poder de supervisão, fornecendo diretrizes unificadas a bancos, fintechs e empresas ligadas ao setor cripto.
O papel das criptomoedas e o desafio do MiCA
Grande parte do debate gira em torno do papel das criptomoedas e da implementação da regulamentação de Mercados em Criptoativos (MiCA).
Diversos especialistas do setor concordam que o MiCA não é apenas um marco técnico, mas um passo essencial para a criação de um mercado mais transparente e seguro. A medida traz a tão necessária padronização, promovendo confiança e igualdade de condições entre operadores. No entanto, também exige uma adaptação significativa, especialmente de empresas menores ou de segmentos que operavam sob regras mais flexíveis — como o iGaming, por exemplo.
Estratégia e visão de longo prazo
Muitos especialistas defenderam a importância de enxergar as novas regras não como um fardo, mas como uma oportunidade estratégica.
Giuseppe Marino, presidente da Câmara de Comércio Ítalo-Cipriota, destacou a necessidade de uma mudança de mentalidade: a AMLA não deve ser vista como uma ameaça, mas como um motor de fortalecimento e coerência institucional. Segundo ele, as empresas precisam compreender a conformidade regulatória (compliance) não como um custo, mas como um pilar essencial de crescimento sustentável.
O novo ambiente marca a transição de um sistema fragmentado para um quadro unificado, no qual a supervisão direta se aplicará, num primeiro momento, apenas a determinadas entidades financeiras. Ainda assim, o impacto indireto será sentido em todos os setores ligados a pagamentos e transações digitais — inclusive no segmento de jogos online.
O equilíbrio entre regulamentação e competitividade
Joseph Borg, sócio do escritório WH Partners, alertou que, para muitos operadores internacionais, ingressar no mercado europeu pode se tornar menos atraente, já que os padrões de conformidade da UE costumam ser duas ou três vezes mais rigorosos que os de outras regiões, como os Estados Unidos.
Isso pode desestimular novos investimentos e reduzir a competitividade, afetando o consumidor final com menos opções e menos concorrência entre provedores de serviços.
Borg também observou que, na Europa, o foco muitas vezes recai mais sobre evasão fiscal do que sobre a lavagem de dinheiro propriamente dita — reflexo, segundo ele, das pressões econômicas nacionais, e não necessariamente de uma prioridade genuína pela integridade financeira.
Apesar das críticas, ele enfatiza que não é contra a regulamentação — o que defende é uma regulação direcionada e com propósito claro, baseada em objetivos concretos.
MiCA hoje, MiCA 2 amanhã
Se o MiCA representa um ponto de partida, não é difícil imaginar o surgimento de um “MiCA 2” nos próximos anos — talvez em quatro ou cinco, como prevê Borg.
Enquanto isso, as empresas precisam aprender a operar em um ambiente em constante evolução, no qual a conformidade com as normas da UE se tornou pré-requisito indispensável para fazer negócios.
Sofia Maria Cucciniello, diretora jurídica e de compliance da Blockchain.com, lembrou durante o painel que a Europa está na dianteira regulatória global, mas outras regiões tendem a seguir o mesmo caminho. “Quem se adaptar primeiro”, destacou, “estará mais bem posicionado para o futuro.”
Um movimento global
Fora da União Europeia, países como Emirados Árabes Unidos e Malta já estão implementando modelos semelhantes, confirmando uma tendência global de integração e transparência.
O objetivo, segundo especialistas, não é multiplicar regras, mas tornar o sistema mais eficiente, reduzindo as brechas que permitem a lavagem de dinheiro prosperar. Nesse sentido, a uniformidade deixa de ser apenas uma proteção e passa a ser também uma vantagem competitiva.
Inovação e controle: buscando o equilíbrio
O desafio permanece o mesmo: como proteger investidores sem sufocar a inovação?
A ideia central é que só um modelo baseado em transparência, confiança e adaptabilidade pode permitir que o mercado cresça de forma saudável.
Lara Barbuto, diretora de compliance e MLRO da OpenPayd (Malta), observou que as empresas que conseguirem unir inovação, clareza e confiança serão as responsáveis por moldar o futuro do mercado europeu.
Uma visão de longo prazo
Em última análise, AMLA e MiCA são duas faces da mesma moeda — juntas, constroem uma estrutura mais sólida para um mercado financeiro maduro e sustentável.
A Europa finalmente começa a substituir a postura reativa por uma abordagem proativa, enfrentando desafios complexos que, a longo prazo, podem levar a um ecossistema mais coeso, confiável e competitivo em escala global.
Principais Pontos:
- A AMLA terá sede em Frankfurt, centralizando o combate à lavagem de dinheiro na União Europeia.
- O objetivo é harmonizar regras e supervisionar os Estados-membros de forma integrada.
- O caso do ABLV Bank, na Letônia, expôs as falhas do sistema anterior.
- O MiCA traz padrões unificados para criptoativos e proteção ao investidor.
- As empresas devem encarar o compliance como estratégia, não como obstáculo.
- Mesmo setores não financeiros, como o iGaming, sentirão efeitos indiretos.
- As regras europeias são mais rigorosas do que as de outras regiões.
- Excesso de rigidez pode reduzir a competitividade e afastar novos operadores.
- A meta não é criar mais regras, mas aumentar a eficiência e a transparência.
- O futuro pertence às empresas que conseguirem unir inovação, confiança e conformidade.
“Estamos testemunhando o amadurecimento de toda uma indústria. O MiCA fornece a estrutura, a AMLA garante a consistência — e o mercado traz a criatividade.”
“As empresas que conseguirem unir inovação, transparência e confiança serão as que avançarão.”
— Lara Barbuto
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