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Diagnósticos de transtorno do jogo aumentaram 61% nos estados com apostas esportivas nos EUA, aponta estudo

Rajashree Seal
Escrito por Rajashree Seal
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Um novo estudo constatou que os diagnósticos de transtorno do jogo aumentaram 61% nos estados dos EUA que legalizaram as apostas esportivas entre 2018 e 2026, enquanto as taxas de diagnóstico caíram 29% nos estados onde as apostas esportivas continuam ilegais.

As conclusões, publicadas pela Epic Research, são baseadas na análise de prontuários eletrônicos de mais de 197 milhões de adultos norte-americanos com 18 anos ou mais que realizaram pelo menos uma consulta médica qualificada entre janeiro de 2018 e março de 2026. Os pesquisadores compararam pacientes residentes em estados que legalizaram as apostas esportivas com aqueles que vivem em estados onde a atividade não foi legalizada, além de analisar as tendências de diagnóstico por faixa etária e sexo.

Entre os adultos que vivem em estados com apostas esportivas legalizadas, a taxa trimestral de diagnósticos de transtorno do jogo passou de 3,0 por 100 mil pacientes no primeiro trimestre de 2018 para 4,8 por 100 mil no primeiro trimestre de 2026. Já nos estados que não legalizaram as apostas esportivas, a taxa caiu de 3,1 para 2,2 por 100 mil pacientes no mesmo período.

O transtorno do jogo é reconhecido como uma condição de saúde comportamental na qual a pessoa continua apostando apesar dos prejuízos financeiros, emocionais ou sociais. Em 2013, a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) reclassificou o transtorno como um vício comportamental, ao lado dos transtornos relacionados ao uso de substâncias.

O estudo abrange o período posterior à decisão da Suprema Corte dos EUA no caso Murphy v. NCAA, em maio de 2018, que derrubou a Lei Federal de Proteção aos Esportes Profissionais e Amadores (PASPA) e permitiu que cada estado decidisse sobre a legalização das apostas esportivas. No início de 2026, as apostas esportivas já eram legais em 39 estados e no Distrito de Columbia. Os pesquisadores observaram que pesquisas nacionais e dados de buscas na internet indicam um interesse crescente da população em procurar ajuda para problemas relacionados ao vício em jogos desde 2018, mas destacaram que ainda existem poucas estimativas em escala populacional sobre diagnósticos de transtorno do jogo na assistência clínica dos EUA.

Análise de mais de 197 milhões de registros de pacientes

Os pesquisadores analisaram registros de adultos com 18 anos ou mais que tiveram pelo menos uma consulta médica qualificada durante o período estudado. Os pacientes foram agrupados de acordo com o fato de residirem em estados que haviam legalizado as apostas esportivas ou em estados que não haviam adotado a medida. Os resultados também foram segmentados por faixa etária e sexo.

O estudo constatou que as trajetórias dos diagnósticos divergiram de forma significativa de acordo com o status de legalização em cada estado.

No primeiro trimestre de 2018, quando apenas Nevada havia legalizado as apostas esportivas, as taxas de diagnóstico eram praticamente idênticas entre os grupos: 3,0 por 100 mil pacientes nos estados que já tinham ou posteriormente viriam a legalizar as apostas esportivas e 3,1 por 100 mil nos estados que não legalizaram a atividade.

Já no primeiro trimestre de 2026, a taxa de diagnóstico nos estados com apostas esportivas legalizadas havia subido para 4,8 por 100 mil pacientes, enquanto nos estados sem legalização caiu para 2,2 por 100 mil.

A Epic Research afirmou que o aumento parece ter ocorrido de forma relativamente simultânea entre os estados que legalizaram as apostas esportivas, em vez de acompanhar o ano específico de legalização de cada jurisdição.

“Uma possível explicação é o crescimento paralelo dos mercados de previsão online, como Polymarket e Kalshi, que não são regulados como jogos de azar em nível estadual e podem ser acessados independentemente do local onde o usuário reside”, afirmaram os pesquisadores.

Eles acrescentaram: “Como a legalização ocorreu de forma gradual e o transtorno do jogo continua amplamente subdiagnosticado na prática clínica, essas tendências não podem ser atribuídas a um único evento regulatório e provavelmente subestimam a prevalência real na população.”

Os pesquisadores também observaram que a diferença de direção entre estados com e sem legalização está alinhada com levantamentos nacionais anteriores e com as tendências observadas em buscas online.

“Ainda assim, esse contraste acompanha as evidências de pesquisas nacionais e das tendências de busca que mostram um aumento na procura por ajuda relacionada ao jogo problemático concentrado nos estados que legalizaram as apostas esportivas”, afirma o estudo.

O levantamento também destacou que os pesquisadores não identificaram uma causa específica para a queda nas taxas de diagnóstico nos estados sem legalização. Segundo o relatório, mudanças na prestação de serviços de saúde, a expansão da telemedicina durante a pandemia de COVID-19, maior conscientização entre profissionais de saúde e alterações nos critérios de codificação diagnóstica podem ter contribuído para parte das diferenças observadas entre os estados.

Adultos entre 30 e 49 anos registraram as maiores taxas de diagnóstico

As taxas de diagnóstico variaram conforme a faixa etária e o sexo. Adultos entre 30 e 49 anos apresentaram a maior taxa trimestral geral de diagnósticos durante todo o período analisado, passando de 4,1 por 100 mil pacientes no primeiro trimestre de 2018 para 5,8 por 100 mil no primeiro trimestre de 2026. O segundo maior índice foi registrado entre adultos de 50 a 64 anos, cuja taxa subiu de 4,1 para 4,9 por 100 mil pacientes no mesmo intervalo.

O maior crescimento proporcional ocorreu entre adultos de 18 a 29 anos, cuja taxa de diagnóstico mais do que dobrou durante o período estudado.

Entre os homens dessa faixa etária, a taxa passou de 3,2 por 100 mil pacientes no primeiro trimestre de 2018 para 7,7 por 100 mil no primeiro trimestre de 2026. Entre as mulheres, o índice aumentou de 0,5 para 1,0 por 100 mil. Já entre adultos com 65 anos ou mais, as taxas permaneceram mais baixas ao longo de todo o estudo, embora também tenham apresentado crescimento.

O estudo constatou que as taxas de diagnóstico aumentaram tanto entre homens quanto entre mulheres, mas permaneceram consistentemente mais elevadas entre os homens em todas as faixas etárias. A maior diferença entre os sexos foi observada entre adultos com menos de 50 anos.

Segundo os pesquisadores, essas conclusões estão alinhadas com estudos anteriores baseados em pesquisas que mostram que homens e adultos jovens ou de meia-idade são os grupos com maior propensão a participar de apostas esportivas e a apresentar comportamentos associados ao jogo problemático.

Grande base de dados clínicos

A análise utilizou o Cosmos, banco de dados desenvolvido em colaboração com os sistemas de saúde da Epic, que reúne mais de 304 milhões de registros de pacientes provenientes de aproximadamente 2.000 hospitais e mais de 47 mil clínicas distribuídas pelos 50 estados dos EUA, além do Canadá, Líbano e Arábia Saudita.

A Epic Research informou que o estudo foi conduzido de forma independente por duas equipes distintas, cada uma composta por um profissional clínico e um cientista de pesquisa, e que ambas chegaram a conclusões semelhantes.

Os pesquisadores também ressaltaram que o transtorno do jogo continua amplamente subdiagnosticado nos serviços de saúde, o que significa que os resultados provavelmente representam apenas parte da real dimensão dos danos relacionados ao jogo na população em geral.

Especialistas comentam os resultados

Em entrevista à NBC News, diversos especialistas afirmaram que o estudo se soma ao crescente conjunto de evidências que investigam a relação entre a expansão das apostas esportivas e os danos associados ao jogo, embora tenham alertado que os casos diagnosticados provavelmente representam apenas uma pequena parcela das pessoas afetadas.

Mark van der Maas, professor de serviço social da Rutgers University que pesquisa a relação entre jogo e suicídio e não participou do estudo da Epic Research, afirmou que os resultados são consistentes com o que costuma ser observado após a ampliação das oportunidades de jogo.

“Quando você aumenta o acesso, aumenta os problemas”, disse van der Maas.

Ele observou que as faixas etárias com maior crescimento nos diagnósticos também são aquelas mais propensas a utilizar plataformas de apostas online. 

“Assim que você introduz uma nova modalidade de jogo ou amplia drasticamente a disponibilidade do jogo, inevitavelmente aumentará o número de pessoas que sofrerão danos relacionados a essa atividade”, afirmou.

Harry Levant, diretor de políticas para jogos do Public Health Advocacy Institute, disse que os resultados destacam os riscos associados às plataformas de jogos online.

“Esta é uma evidência extremamente importante, que demonstra não apenas o impacto da legalização, mas também a natureza inerentemente perigosa do jogo online, que é fundamentalmente diferente de tudo o que vimos anteriormente”, afirmou Levant.

“Você está expondo pessoas mais jovens e vulneráveis a um produto altamente viciante.”

Resposta da indústria

A American Gaming Association afirmou que o estudo reflete uma maior conscientização e diagnóstico do transtorno do jogo, e não necessariamente um aumento nas taxas de dependência.

“Embora o jogo problemático seja uma condição séria para aqueles que são afetados, este estudo não indica um aumento na taxa de dependência”, declarou a associação.

“O aumento da triagem e da conscientização sobre os recursos disponíveis frequentemente leva a mais diagnósticos, enquanto décadas de pesquisas não identificaram crescimento nas taxas de jogo problemático à medida que o jogo legal foi expandido.”

Um porta-voz da entidade acrescentou que a indústria investe cerca de US$ 500 milhões por ano em educação, pesquisa e apoio a pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo.

Casos diagnosticados podem representar apenas uma fração dos danos

Especialistas também afirmaram que o número de casos diagnosticados capturado pelo estudo provavelmente representa apenas uma pequena parcela das pessoas afetadas por danos relacionados ao jogo.

Embora vários estados tenham conduzido estudos recentes sobre a prevalência do jogo problemático, o último estudo nacional financiado pelo governo federal dos Estados Unidos foi realizado em 1999.

O acesso ao tratamento também varia significativamente entre os estados, assim como o financiamento público para programas de prevenção, educação e tratamento relacionados ao jogo, grande parte dele sustentado pela arrecadação tributária proveniente da atividade.

Profissionais de saúde não realizam rotineiramente triagens para transtorno do jogo e, mesmo quando os casos são identificados, eles nem sempre são registrados utilizando o código diagnóstico específico da condição.

Especialistas também destacaram que muitas pessoas afetadas pelos danos relacionados ao jogo não reconhecem os próprios sintomas nem procuram ajuda por meio dos serviços formais de saúde. Em vez disso, algumas recorrem a grupos de apoio entre pares, como o Gamblers Anonymous, ou a fóruns de suporte online.

Rachel Volberg, pesquisadora especializada em jogos que anteriormente identificou aumentos nos prejuízos financeiros, emocionais e relacionais entre apostadores de Massachusetts após a legalização das apostas esportivas em 2022, afirmou que as taxas de tratamento continuam baixas.

“Normalmente, apenas entre 3% e 10% das pessoas que poderiam ser diagnosticadas com transtorno do jogo efetivamente procuram serviços de tratamento para esse problema”, afirmou Volberg.

Steven Heim, supervisor ambulatorial da New Hope Integrated Behavioral Health Care, em Nova Jersey, estado que legalizou as apostas esportivas em 2018, afirmou que a organização observou um aumento na procura por ajuda.

“Definitivamente vimos um aumento nos encaminhamentos e diagnósticos relacionados”, disse Heim.

Transtorno do jogo e dependência

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, os sintomas do transtorno do jogo incluem preocupação constante com apostas, necessidade de apostar quantias cada vez maiores, tentativas repetidas e malsucedidas de parar de jogar, mentir para familiares ou outras pessoas sobre a atividade de jogo e depender financeiramente de terceiros devido às perdas acumuladas.

Levant, que já falou publicamente sobre sua recuperação da dependência em jogos, afirmou que o transtorno frequentemente permanece oculto até que danos significativos já tenham ocorrido.

“É uma dependência silenciosa para muitas pessoas. Não existem manifestações visíveis”, disse.

“Quando o diagnóstico finalmente acontece, o nível de dor, sofrimento e impacto sobre a pessoa e seus entes queridos já é enorme.”

Dr. Anthony Comerford, diretor-executivo da New Hope Integrated Behavioral Health Care, afirmou que o transtorno do jogo compartilha diversas características com a dependência de substâncias.

“Ele afeta o cérebro da mesma forma que a heroína ou qualquer outra droga psicoativa”, afirmou Comerford.

“Funciona pelos mesmos mecanismos. Os mesmos impulsos e desejos entram em ação.”

Preocupações mais amplas

A NBC News também destacou que outros estudos recentes relacionaram a expansão das apostas esportivas online legalizadas ao aumento de falências, endividamento e inadimplência em cartões de crédito, além da redução das pontuações de crédito e das economias pessoais.

A reportagem observou que as diferenças entre estados com e sem legalização podem diminuir ao longo do tempo devido ao crescimento dos mercados de previsão online, que permitem que usuários façam apostas em eventos esportivos independentemente da legalidade das apostas esportivas online no local onde vivem.

As plataformas de mercados de previsão não são reguladas pelos estados como empresas de jogos de azar e geralmente exigem idade mínima de 18 anos, em vez dos 21 anos exigidos em muitas operações de apostas. Essas plataformas se apresentam como ambientes de negociação financeira, e não como operadores de jogos, afirmando oferecer ferramentas de negociação responsável.

Matthew Platkin, ex-procurador-geral de Nova Jersey e antigo responsável pela supervisão da fiscalização do setor, afirmou que os efeitos de longo prazo da expansão do jogo podem levar tempo para se tornar evidentes.

“Levará alguns anos para reconhecermos esses danos, porque eles não aparecem imediatamente”, afirmou Platkin.

“Os comportamentos problemáticos relacionados ao jogo levam tempo para surgir e eu apostaria qualquer coisa que, daqui a três anos, veremos um aumento significativo.”

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