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Copa do Mundo de 2026 impulsiona mercados de previsão a níveis históricos

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada na história, mas não somente pelo título conquistado pela Espanha ou pela despedida de Cristiano Ronaldo dos Mundiais. O torneio também entrou para a história como o maior evento já registrado para os mercados de previsão. Durante pouco mais de um mês de competição, plataformas como Kalshi e Polymarket movimentaram dezenas de bilhões de dólares em contratos relacionados ao torneio, atraindo milhões de novos usuários e tornando esse modelo de negociação um dos mais promissores para o futuro das apostas esportivas.

Embora diferentes empresas e analistas apresentem números distintos para o volume financeiro negociado, todos apontam para a mesma conclusão: nunca houve tanto interesse por mercados de previsão em um único evento esportivo.

Os números variam, mas a tendência é inequívoca

Uma das primeiras dificuldades para analisar o desempenho dos mercados de previsão é que não existe uma metodologia única para medir a atividade das plataformas. Cada empresa considera um conjunto diferente de mercados, contratos e tipos de negociação, o que explica por que os valores divulgados variam significativamente.

O levantamento da TickerTracker, por exemplo, calculou aproximadamente $13,8 bilhões negociados entre 11 de junho e 19 de julho apenas nos mercados individuais da Copa do Mundo disponíveis na Kalshi. O estudo exclui apostas combinadas (parlays) e outros contratos relacionados ao torneio. Já estimativas publicadas posteriormente apontam que o volume total da Kalshi durante a Copa ultrapassou $22 bilhões, enquanto a própria empresa afirmou que a competição gerou aproximadamente $27 bilhões em negociações ao longo do torneio.

À primeira vista, os números parecem contraditórios. Na prática, porém, eles representam recortes diferentes do mesmo evento. Enquanto a TickerTracker analisou apenas mercados específicos de futebol, as estimativas mais amplas incluem contratos adicionais relacionados à Copa, diferentes categorias de negociação e metodologias próprias utilizadas pela plataforma.

Independentemente da métrica utilizada, todas as análises convergem para o mesmo resultado: a Copa de 2026 se tornou o maior evento da história da Kalshi.

Kalshi supera todas as expectativas

Antes mesmo do início do torneio, os analistas já projetavam que a Copa teria potencial para transformar o mercado de previsão esportiva. As expectativas, entretanto, acabaram sendo superadas. Além do volume financeiro recorde, a Kalshi informou que aproximadamente três milhões de novos usuários passaram a utilizar a plataforma durante a competição.

O mercado dedicado ao campeão mundial também chamou atenção. Segundo a empresa, os contratos relacionados ao vencedor da Copa movimentaram cerca de $1,9 bilhão, tornando-se um dos produtos de maior sucesso já lançados pela plataforma.

Os números reforçam uma mudança importante no comportamento dos consumidores. Em vez de utilizarem exclusivamente sportsbooks tradicionais, milhões de usuários passaram a negociar contratos cujo preço varia continuamente conforme novas informações surgem durante o torneio, aproximando a experiência das apostas do funcionamento dos mercados financeiros.

Argentina e Messi lideraram o interesse dos usuários

Os dados compilados pela TickerTracker ajudam a entender como os usuários se comportaram ao longo da competição. A Argentina foi a seleção mais negociada durante toda a Copa, acumulando aproximadamente $1,16 bilhão em contratos. Na sequência apareceram:

  • França: cerca de $900 milhões;
  • Inglaterra: aproximadamente $730 milhões;
  • Espanha: cerca de $726 milhões;
  • México: aproximadamente $680 milhões.

O interesse também se refletiu no mercado individual de atletas. Lionel Messi terminou a competição como o jogador mais negociado da plataforma, com aproximadamente $147 milhões em contratos. Na sequência aparecem:

  • Kylian Mbappé;
  • Erling Haaland;
  • Harry Kane;
  • Lamine Yamal.

A liderança de Messi não surpreende. A Copa de 2026 foi amplamente tratada como sua despedida definitiva dos Mundiais. Aos 39 anos, o argentino conduziu novamente sua seleção até a final, alimentando diariamente novas negociações entre investidores e apostadores que acompanhavam sua última campanha no principal torneio do futebol mundial.

A final também entrou para a história

Nem mesmo a decisão entre Espanha e Argentina escapou dos recordes. Segundo a TickerTracker, aproximadamente $795 milhões foram negociados em mercados relacionados à final. Porém, esse valor exige uma explicação importante. Ao contrário do que ocorre em sportsbooks tradicionais, a Kalshi não ofereceu um mercado específico para o vencedor da partida final. Por isso, a estimativa inclui tanto os contratos diretamente ligados ao confronto quanto a participação das duas seleções no mercado de campeão da Copa.

Considerando apenas os contratos exclusivos da decisão, o volume negociado foi de aproximadamente $336 milhões. Os mercados mais movimentados durante a final foram:

  • Campeão da Copa do Mundo;
  • Placar correto;
  • Número de gols;
  • Resultado no tempo regulamentar;
  • Método da vitória;
  • Total de gols;
  • Ambas as equipes marcam.

Essa diversidade mostra como os mercados de previsão passaram a oferecer muito mais do que previsões sobre o vencedor de uma partida. Os usuários negociaram contratos relacionados a praticamente todos os aspectos relevantes do jogo, ampliando significativamente as possibilidades de participação durante o evento.

Os resultados observados durante a Copa do Mundo de 2026 mostram que os mercados de previsão deixaram de ser um segmento experimental para ocupar uma posição de destaque na indústria global de apostas.

Mais do que estabelecer recordes financeiros, o torneio serviu como uma demonstração de escala. Milhões de usuários participaram das negociações, bilhões de dólares circularam em contratos e plataformas como a Kalshi provaram que conseguem sustentar um nível de atividade comparável ao dos maiores operadores de apostas esportivas dos Estados Unidos.

Polymarket amplia alcance global enquanto novos concorrentes entram no mercado

Se a Kalshi foi um dos principais destaques da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, a Polymarket se tornou a maior plataforma internacional de mercados de previsão durante o torneio. Segundo os dados divulgados após a competição, a empresa movimentou aproximadamente $10,8 bilhões em sua plataforma internacional e outros $3,5 bilhões em sua recém-lançada operação voltada ao mercado norte-americano. Somados, os dois registraram cerca de $14,3 bilhões em volume de negociações relacionadas ao Mundial.

O mercado para definir o campeão da Copa foi, mais uma vez, o principal atrativo. Sozinho, esse contrato acumulou aproximadamente $4,32 bilhões em negociações ao longo da competição, confirmando o enorme interesse dos usuários por previsões de longo prazo, que acompanharam cada mudança nas probabilidades das seleções durante mais de um mês.

Embora a Polymarket opere em um ambiente regulatório diferente do da Kalshi, o desempenho das duas plataformas indica que os mercados de previsão deixaram de ser um nicho e passaram a disputar espaço diretamente com os operadores tradicionais de apostas esportivas.

A Copa acelerou a chegada de novos competidores

O crescimento do setor também abriu espaço para novos participantes. Uma das estreias mais observadas durante o Mundial foi a da Rothera, plataforma apoiada pela Robinhood e pela gestora Susquehanna. Lançada em junho, pouco antes do início da Copa, a empresa movimentou aproximadamente $2 bilhões em seu primeiro mês de operação e conquistou uma participação estimada de 7 por cento do mercado norte-americano de mercados de previsão. O desempenho foi considerado expressivo para uma plataforma recém-lançada e mostrou que existe demanda suficiente para acomodar novos operadores em um segmento que continua em expansão.

Outro movimento relevante ocorreu no mercado institucional. A empresa de trading DRW, controladora da Kalshi, anunciou a criação de uma mesa dedicada exclusivamente aos mercados de previsão, sinalizando que grandes participantes do mercado financeiro passaram a enxergar esse segmento como uma nova classe de ativos.

Segundo uma estimativa da H2 Gambling Capital, os mercados de previsão representaram aproximadamente 27 por cento da atividade comparável às apostas esportivas nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo. O número chama atenção principalmente quando comparado ao início do ano. Em janeiro, a consultoria estimava que essa participação girava em torno de 9 por cento. Em poucos meses, a fatia praticamente triplicou.

Embora a comparação não represente uma divisão direta do mercado de apostas esportivas, já que sportsbooks e mercados de previsão utilizam metodologias diferentes para medir volume financeiro, o levantamento evidencia o rápido crescimento desse novo formato de negociação. Na prática, cada vez mais consumidores passaram a alternar entre plataformas tradicionais de apostas e mercados de previsão durante o torneio. Aplicativos de mercados de previsão ganharam usuários enquanto sportsbooks perderam ritmo

Outro indicador importante veio da empresa de inteligência de mercado Apptopia, especializada em dados sobre aplicativos móveis. Durante a segunda metade de junho, a Kalshi registrou um aumento de 36 por cento em seus usuários ativos diários. O dado foi observado justamente em um momento em que aplicativos tradicionais de apostas, como DraftKings, FanDuel, BetMGM e Caesars Sportsbook, começaram a registrar redução na atividade após o pico inicial da Copa.

A Apptopia também identificou uma mudança no comportamento dos consumidores durante o torneio. Kalshi e Polymarket responderam juntas por aproximadamente 78,5 por cento dos downloads entre os seis principais aplicativos de apostas esportivas e mercados de previsão analisados durante junho. O resultado mostra que uma parcela significativa dos novos usuários optou por experimentar plataformas de mercados de previsão pela primeira vez durante a competição.

Sportsbooks tradicionais também registraram recordes

O crescimento dos mercados de previsão, entretanto, não significou uma retração das casas de apostas tradicionais. Pelo contrário. Os principais sportsbooks norte-americanos também divulgaram resultados históricos impulsionados pela Copa do Mundo. A DraftKings informou que o torneio gerou um aumento de 650 por cento no número total de apostas em comparação com a Copa do Mundo de 2022. A empresa também registrou aquele que classificou como o jogo de futebol mais apostado da história da DraftKings Sportsbook.

A final entre Espanha e Argentina recebeu mais de dois milhões de apostas. Os dados revelam ainda algumas curiosidades sobre o comportamento dos usuários. Apesar de a seleção norte-americana não ter chegado às fases decisivas, os Estados Unidos foram o time mais apostado pelos clientes da DraftKings durante todo o torneio. Entre os jogadores, Lionel Messi liderou com folga o volume de apostas individuais, repetindo o protagonismo observado também nos mercados da Kalshi.

O crescimento não ficou restrito ao sportsbook tradicional. A empresa informou que sua plataforma DraftKings Predictions, voltada aos mercados de previsão, alcançou recordes tanto em volume negociado quanto em número de clientes ativos durante a final da Copa do Mundo. Os resultados mostram que até mesmo os operadores historicamente ligados às apostas esportivas passaram a investir em produtos inspirados no funcionamento dos mercados de previsão. Essa estratégia busca atender um público que deseja negociar probabilidades em tempo real, sem necessariamente utilizar o modelo tradicional de apostas de odds fixas.

A BetMGM também informou que a edição de 2026 foi a maior Copa do Mundo já registrada pela operadora. Embora a empresa não tenha divulgado valores detalhados de volume apostado, afirmou que o torneio estabeleceu novos recordes internos de movimentação e participação dos clientes.

Uma Copa de números históricos

Além das inovações tecnológicas e do crescimento dos mercados de previsão, o próprio torneio estabeleceu novos recordes esportivos e comerciais. Disputada pela primeira vez com 48 seleções, a competição reuniu 104 partidas, sendo a maior edição da história da Copa do Mundo. Segundo estimativas da FIFA, mais de 6,6 milhões de torcedores acompanharam os jogos nos estádios espalhados por Estados Unidos, Canadá e México.

A audiência global também alcançou níveis inéditos. As transmissões televisivas e digitais chegaram a aproximadamente seis bilhões de espectadores, além das redes sociais que ampliaram ainda mais o alcance do torneio por meio de vídeos, transmissões ao vivo, criadores de conteúdo e comunidades digitais.

Do ponto de vista financeiro, a competição também estabeleceu novos patamares. A FIFA estima que a Copa de 2026 tenha gerado cerca de $15 bilhões em receitas, impulsionadas por direitos de transmissão, patrocínios, publicidade, venda de ingressos, licenciamento e hospitalidade.

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