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Campanha distribui R$ 100 mil para produção de conteúdo contra apostas

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

Enquanto a Copa do Mundo acontece, quando o setor de apostas esportivas concentra boa parte dos investimentos em publicidade, uma organização lançou uma iniciativa que aposta em uma estratégia completamente oposta: remunerar criadores de conteúdo para ampliar a circulação de mensagens críticas ao mercado.

Chamado de Desafio Contra Bets, o concurso promete distribuir BRL100 mil ($ 19,3 mil) em premiações para conteúdos publicados em redes sociais sobre os impactos econômicos, sociais e de saúde pública atribuídos às apostas de quota fixa. A iniciativa é organizada pelo Projeto Brief, ligado à organização da sociedade civil Quid. Os vencedores serão anunciados em 23 de julho.

Apesar de o concurso se apresentar como uma iniciativa voltada ao debate público, o material fornecido aos participantes se concentra em uma única perspectiva sobre o mercado regulado de apostas. O regulamento da ação e o “Kit do Criador” orientam os participantes sobre quais argumentos priorizar, quais estatísticas utilizar e quais abordagens evitar durante a produção dos conteúdos.

Entre as orientações, os organizadores sugerem enfatizar impactos negativos atribuídos às apostas, como endividamento, saúde mental e publicidade esportiva. Ao mesmo tempo, o material não aborda indicadores relacionados aos efeitos econômicos da regulamentação implementada em 2025, como arrecadação tributária, geração de empregos, investimentos privados, combate ao mercado ilegal e financiamento ao esporte.

Setor de apostas gera bilhões em tributos

Desde a entrada em vigor do mercado regulado, em janeiro de 2025, as empresas autorizadas passaram a recolher tributos específicos, taxas de fiscalização e impostos corporativos inexistentes durante o período em que grande parte das operações ocorria no exterior.

Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda em 2026 mostram que a arrecadação proveniente do setor praticamente dobrou nos quatro primeiros meses do ano, alcançando BRL 4,5 bilhões ($ 865,4 milhões), ante BRL 2,2 bilhões ($ 423,1 milhões) registrados no mesmo período de 2025. No primeiro ano completo da regulamentação, a arrecadação federal ligada ao mercado de apostas ficou próxima de BRL 10 bilhões ($ 1,92 bilhão), colocando o segmento entre as maiores fontes de tributação da economia digital brasileira.

Além da arrecadação, a regulamentação estimulou investimentos privados em tecnologia, compliance, meios de pagamento, marketing e infraestrutura. Em um estudo elaborado pela LCA Consultores e Cruz Consulting estima que o mercado regulado já reúne BRL 7,5 bilhões ($ 1,44 bilhão) em investimentos, com potencial para gerar BRL 28 bilhões ($ 5,38 bilhões) em demanda adicional para outros setores da economia por meio de seus efeitos indiretos e induzidos.

O mesmo levantamento projeta que a receita das operadoras legalizadas alcançou aproximadamente BRL 36 bilhões ($ 6,92 bilhões) em 2025, refletindo a formalização de uma atividade que anteriormente operava, em grande parte, sem supervisão nacional.

Mercado criou empregos formais qualificados

Outro aspecto ausente no material da campanha diz respeito ao mercado de trabalho.

Segundo o estudo econômico, o setor regulamentado hoje possui cerca de 15,5 mil empregos diretos e indiretos, com remuneração média próxima de BRL 7 mil ($ 1.346), mais que o dobro da média nacional. A regulamentação também impulsionou o surgimento de novas funções ligadas ao desenvolvimento de software, análise de risco, integridade esportiva, ciência de dados, segurança da informação e compliance.

O kit da campanha também dedica parte de sua narrativa à presença das apostas no futebol brasileiro. Entretanto, não contextualiza que as empresas regulamentadas se tornaram as principais patrocinadoras do esporte nacional. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tiveram operadoras licenciadas como patrocinadoras máster, movimentando aproximadamente BRL 1,1 bilhão ($ 211,5 milhões) por temporada em contratos de patrocínio. Os recursos financiam folhas salariais, categorias de base, infraestrutura e outras despesas operacionais dos clubes.

Regulamentação também fortaleceu mecanismos de proteção

Outra mudança trazida pela regulamentação foi a implementação de mecanismos obrigatórios de proteção ao consumidor e de monitoramento das operações. Atualmente, 85 operadoras autorizadas, que reúnem 187 marcas, enviam diariamente informações ao Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), desenvolvido pelo Serpro para a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Segundo o Serpro, a plataforma processa cerca de 500 milhões de registros por dia, permitindo ao regulador acompanhar apostas, transações financeiras, carteiras digitais e movimentações dos operadores. Além disso, as empresas licenciadas são obrigadas a adotar identificação por CPF, reconhecimento facial, monitoramento de transações suspeitas, políticas de prevenção à lavagem de dinheiro, programas de jogo responsável e mecanismos de autoexclusão para os apostadores.

A atuação do governo também se intensificou contra o mercado ilegal. No primeiro ano do mercado regulado, a Secretaria de Prêmios e Apostas e a Anatel retiraram do ar mais de 15,4 mil páginas e domínios irregulares, além de instaurarem 66 processos de fiscalização envolvendo 93 operadores, dos quais 35 já resultaram em sanções. No mesmo período, 24 instituições financeiras e de pagamento comunicaram 277 operações suspeitas, levando ao encerramento de contas de 255 pessoas físicas e jurídicas ligadas a apostas ilegais. A SPA também notificou 13 instituições de pagamento para interromper serviços a operadores clandestinos, o que resultou no fechamento de contas de 45 empresas que atuavam fora da regulamentação.

Os dados econômicos não anulam as preocupações relacionadas ao jogo problemático, ao endividamento ou à publicidade das apostas, temas que continuam sendo discutidos por especialistas, autoridades e organizações da sociedade civil. Por outro lado, também demonstram que a regulamentação produziu efeitos econômicos e fiscais relevantes, ampliando a arrecadação pública, formalizando empregos, atraindo investimentos e estabelecendo mecanismos de supervisão que inexistiam quando o mercado operava sem regras específicas. Esses aspectos não aparecem entre os argumentos apresentados pelo material distribuído aos participantes do Desafio Contra Bets.

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