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Como a América Latina está reagindo aos mercados de previsão 

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

A percepção pública sobre os Mercados de Previsão (plataformas que permitem apostar em eventos do mundo real) está cada vez mais distante da narrativa defendida por essas empresas. Enquanto uma parte da sociedade tenta posicionar esses produtos como instrumentos financeiros inovadores, outras pesquisas recentes indicam que, para a maioria das pessoas, eles são simplesmente uma nova forma de jogo. 

Essa desconexão entre discurso e realidade ajuda a explicar por que o tema virou um dos mais debatidos no mercado global de apostas e também entre reguladores. 

A maioria dos americanos vê como aposta, não investimento 

A maior parte dos americanos acredita que contratos esportivos em Mercados de Previsão são, sim, uma forma de jogo. Mas esse resultado não veio do nada. 

Um levantamento conduzido pela Ipsos em parceria com o American Institute for Boys and Men, realizado entre 27 de fevereiro e 1º de março de 2026 com 2.363 adultos nos Estados Unidos, reforça esse cenário: cerca de 61% dos entrevistados classificam esses mercados como gambling. Os dados foram divulgados inicialmente pelo site Axios em 17 de março de 2026 e rapidamente repercutidos por diversos veículos do setor, inclusive o SiGMA News

Uma outra pesquisa divulgada pela American Gaming Association (AGA) em setembro de 2025 já apontava que até 85% dos entrevistados consideravam contratos esportivos como apostas tradicionais, além de indicar que cerca de 80% defendem que esses produtos sejam regulados como apostas esportivas. 

Na prática, o público parece ignorar, ou simplesmente não aceitar, a distinção criada pelas plataformas. 

O que são Mercados de Previsão e por que geram tanta confusão 

Mercados de Previsão funcionam como mercados onde usuários compram e vendem contratos baseados em resultados futuros, como eleições, decisões políticas ou partidas esportivas. O preço desses contratos varia conforme a probabilidade percebida do evento acontecer.  

Na teoria, eles são vistos como ferramentas de agregação de informação, capazes de prever resultados com base na chamada “sabedoria das multidões”. Mas, na prática, o comportamento do usuário é muito parecido com o de um apostador: há risco financeiro direto e ganho baseado em acerto de resultado. 

E é exatamente aí que mora o problema. Para os operadores, trata-se de um produto financeiro regulado em nível federal nos Estados Unidos. Para o público (e cada vez mais para reguladores), trata-se de uma aposta com outro nome. 

Esporte no centro da polêmica 

Embora Mercados de Previsão existam há décadas, o crescimento dos últimos anos está diretamente ligado ao esporte. Plataformas como Kalshi e Polymarket passaram a oferecer contratos sobre resultados esportivos, o que acelerou a adoção — e também a controvérsia. 

Em grandes eventos, esses mercados já movimentam volumes bilionários, chegando a ultrapassar milhões de dólares em negociações sobre eventos como o Super Bowl. A Kalshi, por exemplo, registrou US$ 1 bilhão em volume total de negociações no domingo do Super Bowl, o que significou um aumento de mais de 2.700% em relação à edição de 2025, dado divulgado pelo portal AP News. 

Esse crescimento pode incomodar diretamente as casas de apostas tradicionais, que veem os Mercados de Previsão como concorrentes operando em uma zona cinzenta regulatória. Além disso, em alguns casos, os contratos esportivos representam a maior parte da atividade dessas plataformas, dominando o volume de negociações. 

O principal ponto de atrito: regulação 

A grande discussão hoje gira em torno de uma pergunta simples: Mercados de Previsão são apostas ou produtos financeiros? 

Nos Estados Unidos, os sportsbooks precisam seguir as regras de cada estado, incluindo licenciamento, proteção ao consumidor e políticas de jogo responsável. Já os Mercados de Previsão operam sob supervisão federal, ligada ao mercado de commodities, o que, na prática, cria uma brecha regulatória.  

Nos últimos meses, os parlamentares americanos apresentaram diversos projetos de lei para limitar ou enquadrar esses mercados como apostas. Além disso, há também a preocupação com o uso de informação privilegiada, a falta de proteção ao consumidor, o acesso facilitado por menores de idade e o impacto que isso pode causar na integridade esportiva. 

Casos recentes mostram que essas preocupações não são apenas teóricas. Um estudo acadêmico citado pelo Business Insider, publicado em março de 2026, identificou mais de US$ 143 milhões em lucros considerados “anômalos” em negociações dentro da plataforma Polymarket, levantando suspeitas sobre possível uso de informação privilegiada nesses mercados. 

O futuro dos mercados de previsão 

O cenário atual indica que os mercados de previsão dificilmente vão continuar operando da mesma forma por muito tempo. A tendência mais provável não é o banimento total, mas sim uma reclassificação, aproximando esses produtos das regras aplicadas ao jogo online. 

Isso se alinha, inclusive, com a opinião pública, a maioria dos americanos não pede a proibição, mas sim regulação clara e consistente. Para a indústria de iGaming, o tema é especialmente relevante. Mercados de Previsão podem representar tanto uma ameaça quanto uma oportunidade, dependendo de como forem enquadrados. Se forem considerados apostas, entram no ecossistema regulado e competitivo do setor. Se permanecerem como produtos financeiros, continuam operando em uma área híbrida, com vantagens regulatórias, mas sob constante risco jurídico. 

No fim das contas, não importa como as empresas definem seus produtos, o que realmente pesa é como o público os enxerga. E, hoje, para a maioria, isso ainda é jogo. Vejamos os dados da América Latina. 

Os mercados de previsão na América Latina 

Na América Latina, ainda não existe uma pesquisa consolidada, seja regional ou nacional, que meça diretamente a percepção pública sobre os mercados de previsão, como já ocorre nos Estados Unidos. Porém, ao analisar os dados oficiais dos principais mercados latinos, decisões regulatórias e movimentações institucionais em cada país da América do Sul, é possível identificar um padrão bastante consistente sobre como esses mercados estão sendo tratados. 

No Brasil, não há qualquer levantamento público com números sobre percepção da população. O que existe são dados institucionais e de mercado. O país vive um momento de expansão acelerada do iGaming. As autoridades brasileiras não classificaram oficialmente os mercados de previsão nem como apostas nem como ativos financeiros, o que mantém o tema em análise. Segundo o portal iGaming Business, operadores brasileiros pressionaram o governo após a entrada da Kalshi, alegando que os prediction markets criam concorrência desigual com as apostas regulamentadas no país. 

Na Argentina, também não há pesquisa de opinião pública, mas existe uma decisão recente que funciona como evidência institucional. Em março de 2026, o país bloqueou a operação da Polymarket, com a justificativa de que a plataforma operava como jogo não autorizado. Esse tipo de medida é relevante porque substitui a ausência de pesquisa: na prática, o governo argentino já enquadrou os mercados de previsão como atividade de gambling ilegal. Ou seja, ainda que não haja percentual de percepção popular, há uma definição regulatória. 

Na Colômbia, o cenário é bem diferente. O país possui o mercado de apostas mais estruturado da região, com regulação consolidada há 11 anos, desde 2015. Embora não exista qualquer estudo sobre os mercados de previsão especificamente, a regulamentação já define com precisão o que é jogo de azar. Além disso, a Coljuegos, entidade reguladora do país, ordenou em 2025 o bloqueio da plataforma Polymarket, classificando sua operação como jogo não licenciado e determinando o bloqueio por provedores de internet. 

No Chile também não há pesquisas, nem decisões regulatórias específicas, nem volume relevante de discussão pública. O país está concentrado na estruturação do seu próprio mercado de apostas online, o que indica que os mercados de previsão ainda não chegaram ao radar prioritário de autoridades e consumidores. Esse é o caso do UruguaiParaguaiBolíviaEquador Venezuela, não existe qualquer movimentação institucional concreta relacionada aos mercados de previsão. Nesses mercados, o tema simplesmente ainda não entrou na agenda pública ou regulatória. 

A América Latina está em um estágio anterior ao dos Estados Unidos, enquanto os americanos já discutem percepção e classificação, os países latino-americanos ainda estão decidindo se esses mercados devem sequer existir dentro de suas regulamentações. Mesmo sem números oficiais de opinião pública, o comportamento institucional indica que, para a maioria dos governos e operadores, os mercados de previsão estão sendo tratados muito mais como uma extensão das apostas do que como uma nova classe de ativos financeiros. 

O Brasil não está esperando — e você também não deveria. A BiS SiGMA South America, de 06 a 09 de abril de 2026, reúne 18.500 participantes e mais de 250 patrocinadores na capital do iGaming da América Latina. São Paulo vai trazer mais energia do que um samba à beira-mar. Garanta sua presença cedo ou fique para trás.

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