O mercado de apostas no Brasil hoje vive um momento completamente diferente do que víamos antes da regulamentação. Antes da nova regulamentação ter sido implementada, no início de 2025, o foco das empresas estava concentrado principalmente em crescimento acelerado e aquisição de usuários. Agora o setor está mais focado em profissionalização, consolidação e construção de um mercado mais sustentável para operadores e jogadores.
Para Maria Paula Nascimento, analista de inteligência de mercado, a regulamentação trouxe um avanço importante para toda a indústria justamente por ampliar transparência, acesso à informação e mecanismos de proteção ao consumidor, fatores que tendem a fortalecer o mercado brasileiro no longo prazo.
Segundo ela, um dos principais efeitos positivos da regulamentação foi permitir que operadores e autoridades passassem a entender melhor o comportamento do jogador brasileiro. “Hoje temos mais informação, mais clareza e mais capacidade de monitoramento. Isso ajuda tanto na criação de políticas públicas quanto nas estratégias das próprias empresas”, afirma.
Na visão da especialista, o aumento da visibilidade sobre o comportamento dos usuários não significa necessariamente um aumento dos problemas relacionados ao jogo, mas sim um mercado mais estruturado e capaz de identificar padrões, tendências e oportunidades de melhoria. Essa nova fase também trouxe algumas mudanças importantes na relação entre operadores e consumidores. Com os novos processos de verificação, compliance e segurança, o mercado brasileiro começou a se alinhar aos padrões internacionais das principais jurisdições reguladas do mundo.
Embora parte dos jogadores tenha demonstrado resistência inicial às novas etapas de cadastro e validação, Maria Paula destaca que existe uma percepção amplamente positiva sobre a regulamentação entre os próprios apostadores. Ela cita uma pesquisa realizada em 2024 com mais de 500 jogadores brasileiros, na qual 91 por cento dos entrevistados afirmaram ser favoráveis à regulamentação das apostas online no país.
“As pessoas querem segurança. Muitas vezes o jogador só não entende completamente por que algumas etapas são necessárias, mas existe apoio à regulamentação”, explica.
Para ela, a evolução do mercado passa diretamente pela transparência e pela educação do consumidor, permitindo que os usuários compreendam melhor os benefícios de operar em plataformas regulamentadas.
Além da profissionalização operacional, a regulamentação também acelerou outro movimento de extrema importância: a valorização de dados, pesquisa e inteligência de mercado. Maria Paula acredita que muitas empresas internacionais chegaram ao Brasil inicialmente tentando replicar estratégias utilizadas em outros países, sem compreender totalmente as particularidades culturais do consumidor brasileiro. “O brasileiro tem uma relação muito específica com o jogo e com as apostas”, afirma.
Embora o futebol siga como principal motor da indústria nacional, ela destaca que o comportamento do jogador brasileiro é muito mais amplo e diverso. Bingo, loterias, jogos de cartas, cassino ao vivo e até formas mais tradicionais de aposta fazem parte da cultura popular brasileira há décadas. Essa familiaridade histórica com jogos e apostas acaba criando um mercado com características únicas no cenário global.
“O brasileiro gosta da experiência, do entretenimento, da interação social. Isso faz parte da cultura local.”
Segundo Maria Paula, quanto mais operadores internacionais entenderem essas preferências culturais, maiores serão as chances de sucesso no país. Isso inclui desde campanhas de marketing mais localizadas até adaptações nos próprios produtos oferecidos pelas plataformas.
A especialista acredita que o mercado brasileiro ainda está em fase de amadurecimento nesse aspecto, mas vê uma evolução clara no interesse das empresas em investir em pesquisa e compreensão do consumidor: “Não é possível se adaptar a um mercado sem informação sobre ele.”
Outro ponto que tem ficado ainda mais forte e relevante dentro da indústria é a discussão sobre equilíbrio entre personalização e jogo responsável. Em um cenário cada vez mais tecnológico, os operadores buscam experiências mais personalizadas e estratégias de retenção mais eficientes, mas sem colocar de lado as práticas sustentáveis de engajamento.
Para Maria Paula, esse equilíbrio tende a ser construído coletivamente entre empresas, reguladores e demais participantes da indústria.“O diálogo entre os operadores, as autoridades e mercado é extremamente importante para criar esse equilíbrio”, comentou. Ela destaca que muitas ferramentas de proteção ao jogador já existiam antes mesmo da regulamentação em algumas empresas, mas que o ambiente regulado fortaleceu ainda mais essas práticas e ampliou as discussões sobre responsabilidade dentro do setor.
O próximo grande desafio do mercado brasileiro, segundo ela, será encontrar um consenso sustentável em temas como tributação e canalização, permitindo que os operadores consigam manter competitividade enquanto o país fortalece sua arrecadação e amplia a migração dos jogadores para plataformas regulamentadas. Ainda assim, Maria Paula acredita que o Brasil caminha para um cenário de maior estabilidade nos próximos anos: “Se houver equilíbrio, o mercado brasileiro tende a se consolidar cada vez mais.”
Mesmo diante de fatores externos como oscilações econômicas globais e instabilidade internacional, o Brasil continua sendo visto como um dos mercados mais promissores do mundo para o iGaming. Um dos principais fatores são os números impressionantes que o Brasil gera todos os anos. O volume mensal do mercado permanece estável acima de BRL2,525 bilhões ($ 500 milhões) em GGR, indicando uma forte demanda do consumidor brasileiro e uma base de usuários já consolidada mesmo após a implementação das exigências regulatórias.
O perfil do jogador brasileiro também ajuda a explicar por que o país se tornou um dos mercados mais estratégicos para operadores globais. A distribuição etária aparece relativamente equilibrada, com maior concentração entre 18 e 34 anos, mas com participação relevante de faixas acima dos 35 anos, mostrando que o mercado brasileiro não depende exclusivamente de um público jovem e já apresenta sinais de expansão para perfis mais amplos de consumidores.

Na renda anual, os dados indicam uma forte presença da classe média brasileira, principalmente entre os consumidores com renda entre BRL40 mil ($ 7,9 mil) e BRL80 mil ($15,8 mil) anuais. Isso reforça a percepção de que as apostas online estão cada vez mais inseridas como uma forma de entretenimento digital acessível e popular no país.

Outro ponto importante e que influencia no crescimento do mercado e nas estratégias das casas de apostas é a motivação dos usuários. Embora 60 por cento afirmem jogar para ganhar dinheiro, outros fatores ligados à experiência e ao entretenimento também apresentam números significativos. Veja na imagem abaixo.

Com a regulamentação, o crescimento da profissionalização e maior compreensão sobre o comportamento do consumidor local, a tendência é que o país continue atraindo investimentos, fortalecendo operadores licenciados e ampliando sua relevância no cenário global das apostas online.
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