A Copa do Mundo de 2026 não está movimentando apenas estádios, emissoras de televisão e casas de apostas esportivas. O torneio também impulsionou um segmento ainda pouco conhecido pelo público, mas que tem crescido muito rapidamente nos mercados financeiros: os mercados de previsão. Nos primeiros dias da competição, as plataformas registraram um volume combinado de aproximadamente $ 5,4 bilhões em negociações relacionadas ao Mundial, registrando um novo recorde para o setor.
Os mercados de previsão permitem que os usuários negociem contratos vinculados à ocorrência de eventos futuros. Em vez de apostas diretamente em um resultado, os participantes compram e vendem posições que refletem a probabilidade de determinado acontecimento ocorrer. Se a previsão estiver correta, o contrato é liquidado com lucro; caso contrário, perde valor.
A modalidade existe há décadas em ambientes acadêmicos e financeiros, mas ganhou visibilidade global nos últimos anos graças ao crescimento de empresas como Kalshi e Polymarket. O interesse aumentou ainda mais durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, quando essas plataformas atraíram milhões de usuários ao oferecer contratos sobre resultados políticos.
Agora, a Copa do Mundo parece representar um novo marco para o setor.
Mundial supera March Madness e Champions League
Segundo levantamento publicado pela revista Fortune, a Kalshi foi a plataforma que apresentou o maior crescimento durante o torneio. A empresa informou que o volume de negociações associado à Copa do Mundo já alcançou $ 2,9 bilhões, incluindo contratos combinados e operações paralelas. O número é superior ao registrado durante o torneio universitário de basquete March Madness, que movimentou $ 2,51 bilhões na plataforma, e também ultrapassa a temporada atual da Liga dos Campeões da Europa, responsável por cerca de $ 685 milhões em contratos negociados.
A Polymarket apresentou desempenho semelhante. Estimativas indicam que o mercado específico relacionado ao Mundial acumulou aproximadamente $ 2,5 bilhões em movimentações, enquanto o total de contratos ligados ao futebol já supera a marca de $ 5 bilhões.
Outras empresas também passaram a explorar esse nicho. A Robinhood, conhecida por sua plataforma de investimentos, informou que sua operadora parceira executou mais de 500 milhões de contratos ao longo de junho, sendo 400 milhões processados apenas após o início da Copa do Mundo, em 11 de junho. Alguns especialistas apontam que o formato atrai um perfil de usuário diferente daquele encontrado nas casas de apostas tradicionais. Muitos consumidores enxergam os contratos como instrumentos financeiros capazes de refletir a “sabedoria das multidões”, conceito segundo o qual um grande grupo de pessoas tende a produzir previsões mais precisas do que análises individuais.
Zebras milionárias transformam apostadores em vencedores improváveis
Assim como acontece nas apostas esportivas convencionais, os resultados inesperados têm proporcionado ganhos significativos para alguns participantes. Alguns empates considerados improváveis, como o jogo da Espanha e Cabo Verde e o de Portugal contra o Congo, renderam lucros milionários para os usuários que decidiram negociar posições contrárias às seleções favoritas pela maioria.
Em um dos casos mais comentados, um usuário, cuja conta havia sido criada poucos dias antes, depositou aproximadamente US$ 4 milhões em contratos que indicavam que a Espanha não conquistaria a vitória em seu confronto. Ao final do jogo, conseguiu retirar cerca de US$ 9 milhões. Em outro caso, um investidor aplicou um valor em torno de $ 300 mil apostando que Portugal não venceria sua partida. Após o empate, a aposta resultou em um ganho próximo de $ 1 milhão.
Há relatos de apostas ainda maiores. Dados divulgados por veículos internacionais mostram casos em que um investidor chegou a transformar aplicações de $ 6 milhões em retornos superiores a $ 13 milhões aproveitando os resultados inesperados do Mundial. Porém, essas histórias de ganhos extraordinários também despertaram preocupação entre reguladores e autoridades de supervisão financeira.
Reguladores acompanham crescimento com desconfiança
A expansão acelerada dos mercados de previsão está provocando debates em diversos países sobre a natureza dessas operações. Nos Estados Unidos, a discussão tem foco nos contratos negociados nas plataformas como a Kalshi e a Polymarket. A pergunta é: esses contratos devem ser tratados instrumentos financeiros legítimos ou como uma forma de jogo online sem licença específica?
A discussão envolve órgãos estaduais, autoridades federais e a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), responsável pela supervisão de derivativos financeiros no país. Enquanto algumas decisões judiciais favoreceram a expansão do setor, alguns estados americanos continuam contestando a legalidade das operações esportivas oferecidas por determinadas empresas.
A Polymarket também enfrenta questionamentos relacionados à publicidade e à transparência de suas campanhas promocionais. Alguns parlamentares norte-americanos solicitaram recentemente investigações sobre possíveis práticas enganosas utilizadas para atrair novos usuários. Em outras regiões, a reação foi ainda mais restritiva. A Nova Zelândia proibiu plataformas de mercados de previsão com base em sua legislação sobre jogos de azar, enquanto a Argentina determinou o bloqueio nacional da Polymarket em março deste ano.
No Brasil, o cenário permanece indefinido. As autoridades ainda não estabeleceram se essas operações devem ficar sob supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. A falta de enquadramento jurídico específico levou à adoção de medidas para limitar o acesso de usuários brasileiros a algumas plataformas internacionais.
Apesar das incertezas regulatórias, o crescimento do setor parece longe de desacelerar. A Polymarket ultrapassou recentemente $ 1 bilhão em receita anualizada, enquanto a Kalshi negocia uma nova rodada de investimentos que pode elevar sua avaliação de mercado para até $ 40 bilhões.
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