A forte presença de empresas de apostas esportivas nas transmissões da Copa do Mundo de 2026 colocou a CazéTV em uma investigação conduzida pelo governo federal. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, informou nesta quarta-feira (25) que apura possíveis irregularidades na divulgação de anúncios de casas de apostas durante a cobertura do torneio realizada pelo canal no YouTube.
A investigação foi aberta após análises preliminares de vídeos das transmissões, que identificaram ações promocionais de operadores de apostas exibidas ao longo das partidas. O objetivo da Senacon é verificar se essas inserções respeitaram as regras brasileiras de publicidade responsável, que exigem informações claras sobre os riscos associados às apostas e proíbem mensagens que possam estimular comportamentos impulsivos ou transmitir a ideia de ganhos fáceis.
Apesar do foco da investigação estar na CazéTV, as empresas de apostas têm ampla presença nas transmissões da Copa do Mundo em diferentes veículos brasileiros. A CazéTV possui muitos patrocinadores para a cobertura do Mundial, entre eles estão as algumas casas de apostas online como Bet365, Betnacional e KTO. A Globo, por sua vez, reúne 25 marcas parceiras nas transmissões exibidas na TV aberta, SporTV e Globoplay. Entre os patrocinadores estão Superbet, Betano e BetMGM. Já o SBT, que transmite 32 partidas em parceria com a NSports, possui 11 patrocinadores, entre eles está a Esportes da Sorte. Ao todo, sete empresas de apostas estão presentes nas transmissões da Copa do Mundo na mídia brasileira.
Criada a partir de uma parceria entre o influenciador Casimiro Miguel e a empresa LiveMode, a CazéTV detém os direitos de transmissão de todos os jogos da Copa do Mundo de 2026 no Brasil. O canal se tornou nos últimos anos uma das principais plataformas esportivas digitais do país, reunindo milhões de espectadores em partidas da seleção brasileira e de grandes competições internacionais.
Nos últimos dias, usuários das redes sociais, influenciadores e até a deputada Erika Hilton, passaram a questionar a quantidade de anúncios de apostas exibidos durante as transmissões da Copa. As críticas ganharam repercussão especialmente após a exibição de campanhas promocionais durante os intervalos das partidas e comentários ao vivo envolvendo cotações esportivas.
Segundo informações divulgadas pela imprensa nacional, a investigação menciona três episódios específicos. O primeiro ocorreu durante a parada para hidratação da partida entre Inglaterra e Gana, quando foi exibido um comercial da Betnacional narrado pelo locutor Galvão Bueno, acompanhado de uma oferta promocional relacionada ao confronto. Em outro momento, durante Argentina e Áustria, outros comentaristas apresentaram odds para o jogo. Já na partida entre Uruguai e Cabo Verde, foram identificadas inserções publicitárias da plataforma KTO.
Segundo os portais brasileiros, a Senacon afirmou que pretende avaliar se as campanhas seguiram os princípios de transparência exigidos pela legislação vigente. O órgão ressaltou que a publicidade de apostas deve ser responsável, apresentar alertas claros sobre os riscos envolvidos e evitar qualquer incentivo a apostas excessivas ou imediatas. Caso sejam constatadas irregularidades, poderão ser adotadas medidas administrativas previstas no Código de Defesa do Consumidor.
A Lei nº 14.790/2023, que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, é complementada por regras da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Entre as restrições estão a proibição de campanhas que sugiram enriquecimento rápido, minimizem os riscos do jogo ou incentivem apostas impulsivas. Também é obrigatório incluir mensagens relacionadas ao jogo responsável e direcionar a comunicação exclusivamente ao público adulto.
Em junho deste ano, a SPA publicou uma nota técnica reforçando a fiscalização sobre ações publicitárias durante a Copa do Mundo. O documento destacou que o torneio representa um período de maior exposição das marcas de apostas e que o monitoramento seria ampliado durante toda a competição.
O tema também vem sendo discutido no Congresso Nacional. Alguns parlamentares, como Erika Hilton, defendem regras mais rígidas para a publicidade de apostas e até a proibição total delas, enquanto representantes do mercado regulado argumentam que campanhas feitas dentro dos parâmetros legais que já existem ajudam a diferenciar operadores autorizados de plataformas clandestinas.
Segundo o portal Folha de S. Paulo, a CazéTV informou que não foi oficialmente notificada sobre a abertura da investigação, mas afirmou que suas ativações comerciais seguem a legislação em vigor. A análise da Senacon deverá indicar se as inserções exibidas durante os jogos permaneceram dentro dos limites estabelecidos pelas normas brasileiras de publicidade responsável ou se haverá necessidade de aplicação de punições.
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