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Como as empresas reduzem gradualmente seus critérios de contratação sem perceber

Opinion
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Este artigo é o segundo de uma série de três textos sobre People Strategy, escritos por Christine Virardi, recrutadora de elite e fundadora da HRLadderBox, especializada em iGaming, apostas e FinTech.

Tudo geralmente começa com boas intenções.

Um colaborador de confiança indica alguém que conhece. Um gestor contrata um ex-colega em quem confia. Um líder traz para a empresa alguém com quem já trabalhou para acelerar resultados. Nenhuma dessas decisões parece problemática isoladamente. Em muitos casos, as indicações são valiosas e resultam em ótimas contratações.

Eu recomendo que as empresas utilizem indicações, mas também recomendo que elas sejam controladas. Porque o risco não está em uma única contratação. O problema começa quando isso se torna um padrão dentro das equipes e quando os indicados deixam de passar pelo mesmo nível de avaliação aplicado a todos os outros candidatos.

Quando os critérios de contratação começam a mudar

Há um motivo para isso acontecer. Os sociólogos Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton definiram esse fenômeno décadas atrás. Eles o chamaram de “homofilia”¹, a tendência das pessoas escolherem e se cercarem de indivíduos que já conhecem ou que lhes parecem familiares.

Isso se torna mais visível em períodos de mudança: crescimento acelerado, transições de liderança e expansão de equipes. A demanda por contratações aumenta, e pessoas conhecidas parecem ser uma opção mais segura, conveniente e rápida.

No curto prazo, funciona. As vagas são preenchidas e o negócio segue normalmente. Não há um problema imediato. Mas, à medida que esse comportamento se repete ao longo dos ciclos de contratação e entre diferentes equipes, algo começa a mudar: o modelo deixa de priorizar os melhores talentos disponíveis no mercado e passa a priorizar os melhores talentos disponíveis dentro das redes internas de relacionamento.

Nesse momento, o nível de exigência nas contratações deixa de ser protegido por referências externas de mercado e passa a ser moldado pela familiaridade e pelo acesso interno.

As consequências não surgem da noite para o dia, mas se acumulam com o tempo:

  • Líderes herdam equipes que não construíram de forma intencional
  • A gestão de desempenho se torna mais difícil e menos objetiva
  • Os padrões de talento ficam mais complexos de manter
  • A competitividade externa diminui
  • Profissionais de alta performance começam a perceber o problema

Os seis controles que recomendo para proteger o padrão de contratação

Empresas fortes não evitam indicações. Elas garantem que toda contratação atenda ao mesmo padrão de qualidade. A queda na qualidade das contratações acontece quando a avaliação se torna inconsistente — não por causa das indicações em si, mas pela ausência de mecanismos estruturais que protejam o nível de exigência.

Quando os critérios se enfraquecem, a qualidade do talento se torna difícil de manter e ainda mais difícil de recuperar.

Com base em minhas pesquisas e na observação direta de empresas em fase de crescimento acelerado, estes são os seis controles que recomendo para assegurar que as decisões de contratação permaneçam objetivas e que o padrão seja preservado.

1. Controlar as indicações

As indicações devem fortalecer o funil de recrutamento, não contornar o processo de avaliação.

Controles recomendados:

  • Exigir que candidatos indicados passem por todas as etapas padrão de entrevista
  • Impedir que entrevistas estruturadas ou avaliações técnicas sejam puladas
  • Exigir scorecards documentados
  • Aplicar os mesmos critérios inclusive para indicações feitas por executivos

2. Exigir justificativa formal para a contratação

As decisões devem ser baseadas em evidências.

Controles recomendados:

  • Exigir uma justificativa por escrito antes da aprovação da proposta
  • Documentar os pontos fortes comparativos em relação a outros candidatos
  • Armazenar esses registros nos sistemas de ATS ou HRIS

3. Introduzir entrevistadores independentes para cargos de liderança e funções críticas

A avaliação independente protege a objetividade.

Controles recomendados:

  • Incluir entrevistadores fora da linha direta de reporte
  • Exigir scorecards independentes e por escrito
  • Garantir que esses avaliadores tenham influência real na decisão

Se todos os entrevistadores se reportam ao gestor que está contratando, a decisão perde sua independência estrutural.

4. Monitorar a proporção de contratações por indicação

Contratar predominantemente por indicação se torna arriscado quando isso deixa de ser medido. As empresas precisam manter conexão com o mercado externo de talentos para preservar sua competitividade.

Controles recomendados:

  • Monitorar trimestralmente o percentual de contratações por indicação em cada equipe
  • Monitorar trimestralmente o percentual de contratações vindas de recrutamento externo
  • Acompanhar trimestralmente a concentração de contratações sob determinados líderes

Sinalizar situações em que as indicações se tornam desproporcionalmente dominantes

5. Evitar conflitos na hierarquia de reporte

A gestão de desempenho deve permanecer estruturalmente independente. Relações prévias podem enfraquecer a responsabilização se as estruturas de reporte não forem cuidadosamente analisadas.

Controles recomendados:

  • Exigir revisão das estruturas de reporte pelo RH
  • Ajustar linhas de reporte quando houver conflitos
  • Manter autoridade independente na avaliação de desempenho

6. Fortalecer a governança de contratação pelo RH

Governança só existe quando há poder de aplicação das regras. Se as decisões não podem ser questionadas, a governança simplesmente não existe.

Controles recomendados:

  • Exigir aprovação do RH antes da formalização das ofertas
  • Permitir que o RH bloqueie contratações sem avaliação adequada
  • Estabelecer políticas de governança apoiadas pela liderança executiva

Tornando-se mais forte à medida que a empresa cresce

Esses controles não servem para desacelerar as contratações. Eles existem para garantir que cada nova contratação fortaleça a organização. Indicações podem ser excelentes contratações — e muitas vezes são. Mas a qualidade do recrutamento nunca é protegida apenas pela confiança. Ela é protegida por uma estrutura consistente.

Empresas que protegem seus padrões de contratação se tornam mais fortes conforme crescem. As que não fazem isso geralmente percebem o impacto mais tarde, quando a execução se torna menos consistente, contratar se torna mais difícil e reconstruir a disciplina de recrutamento passa a ser um desafio muito maior.

Perdeu o primeiro artigo da série? Você pode encontrá-lo aqui: Por que os problemas raramente surgem de surpresa


Apêndice

Lazarsfeld, P. F., and Merton, R. K. (1954). Friendship as a Social Process: A Substantive and Methodological Analysis.

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