A Estônia deu um passo ousado. Ao reduzir drasticamente os impostos para operadores de jogos, o país envia ao mundo o recado de que deseja uma fatia maior de uma das indústrias que mais crescem globalmente. No papel, isso parece um desafio direto a Malta, tradicionalmente reconhecida como o principal hub de iGaming da Europa. A reação natural é perguntar se Malta corre o risco de perder terreno. Mas a questão realmente relevante é outra: o sucesso no setor de jogos depende apenas de taxas tributárias ou de algo mais profundo?
Além das taxas: o poder da densidade do ecossistema
Os impostos importam, mas não são tudo. Operadores consideram incentivos fiscais, mas o que realmente os ancora é o ecossistema que cerca suas operações. Malta passou duas décadas construindo exatamente isso. O que começou com um arcabouço regulatório da Autoridade de Jogos de Malta se transformou em uma rede densa de profissionais de compliance, advogados, contadores, especialistas em TI e uma força de trabalho internacional qualificada. Essa densidade é difícil de replicar. É a chamada “stickiness” da indústria, e explica por que Malta continua atraente mesmo diante de tentativas periódicas de outras jurisdições de reduzir impostos para competir.
Ainda assim, confiar apenas nisso seria perigoso. O modelo de iGaming está amadurecendo. Margens estão mais apertadas, regulamentações mais complexas e a competição, mais intensa. Para manter sua liderança, Malta não pode depender apenas das bases construídas nos anos 2000. É preciso renová-las. Isso significa diversificação dentro do próprio setor de jogos: horizontalmente, entrando em videogames, esports e experiências imersivas que estão moldando o entretenimento global; verticalmente, incorporando novas tecnologias que impactam todos os aspectos da indústria, desde design de jogos com IA até sistemas de pagamento e ferramentas de proteção ao jogador. Ao expandir e aprofundar o ecossistema, Malta garante que sua vantagem não apenas perdure, mas cresça.
Diversificação: o caminho para liderança sustentável
Já há sinais nesse sentido. Estúdios de videogame em Malta estão produzindo títulos com alcance internacional. Torneios de esports colocam jogadores malteses no palco global. Iniciativas governamentais exploram formas de apoiar a convergência entre jogos, cinema e indústrias criativas. Esses são sinais corretos, mas precisam ser ampliados e mantidos. É necessário alinhar os fluxos de talentos — das universidades aos centros de treinamento — às habilidades que o setor demanda. A infraestrutura, desde conectividade digital até espaços de trabalho, precisa atender tanto startups quanto operadores consolidados. E, acima de tudo, a regulamentação deve evoluir para antecipar novas fronteiras, em vez de reagir a elas. Inteligência artificial, integração de blockchain e ferramentas de jogo responsável estão remodelando a indústria. Malta tem a oportunidade de definir padrões, e não apenas segui-los.
Uma lição econômica mais ampla: construir sobre forças existentes
A lição vai além do iGaming. No espectro político, há uma tentação recorrente de anunciar o “próximo grande setor” que impulsionará a economia. Seja blockchain, metaverso ou biotech, a ideia de que a salvação vem da novidade é familiar. No entanto, os pontos fortes mais duradouros de Malta — turismo, serviços financeiros, aviação e jogos — não foram construídos perseguindo tendências, mas sim criando ecossistemas resilientes e autorreforçados. O futuro depende menos de reinvenções constantes e mais de diversificação dentro e entre setores existentes.
O turismo, por exemplo, não precisa ser reinventado do zero. Precisa avançar horizontalmente em nichos culturais e de bem-estar, e verticalmente em gestão digital de visitantes e práticas sustentáveis. Serviços financeiros não devem perseguir modismos, mas incorporar fintechs e finanças verdes em estruturas já consolidadas. A indústria de manufatura não precisa de substitutos, mas sim escalar na cadeia de valor com processos avançados. Em todos os casos, o desafio não é recomeçar, mas agregar camadas ao que já existe.
A jogada fiscal da Estônia, embora chamativa, não deve ser vista como uma ameaça existencial. A resposta de Malta não deve ser baixar impostos, mas reforçar o que não pode ser copiado da noite para o dia: profundidade do ecossistema, credibilidade regulatória e talento. Ao mesmo tempo, o setor de jogos nos lembra de uma verdade econômica mais ampla: a “stickiness” vem da paciência, do reinvestimento e das sinergias, não da novidade.
A escolha de Malta é clara. Pode tentar correr atrás de novos setores ou oferecer incentivos que provoquem uma corrida para baixo, ou pode optar pelo caminho mais difícil: fortalecer os ecossistemas existentes, diversificar dentro deles e integrá-los em um todo mais resiliente. No iGaming, no turismo ou nas finanças, a fórmula é a mesma. Sucesso não é ser o mais barato; é ser o mais completo.
Stickiness é o jogo que Malta deve jogar.
——
Este artigo é uma colaboração especial de JP Fabri, empreendedor com foco na África e economista orientado por impacto. Cofundador da TapSeed e da MyUbuntu, ele trabalha promovendo inclusão financeira e fortalecendo a resiliência econômica no continente. Também é sócio-fundador da Seed, empresa de consultoria baseada em pesquisa, voltada à transformação econômica e à inovação em políticas públicas.
Faça parte da maior comunidade global de iGaming com o Top 10 de notícias da SiGMA. Inscreva-se AQUI para receber atualizações semanais, análises exclusivas e ofertas reservadas apenas aos assinantes.


