A American Gaming Association (AGA) e a Indian Gaming Association (IGA) pediram ao Congresso dos Estados Unidos que tome medidas contra plataformas de mercados de previsão que oferecem contratos vinculados a eventos esportivos, argumentando que esses produtos funcionam, na prática, como apostas esportivas não licenciadas.
As entidades afirmam que os mercados de previsão regulamentados em nível federal estão contornando as leis estaduais de jogos e os acordos firmados com nações tribais ao operarem sob supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), em vez de estarem sujeitos aos reguladores tradicionais do setor de apostas.
O debate ganhou força após a expansão de plataformas como a Kalshi no segmento de contratos ligados a eventos esportivos, que atualmente representam uma parcela significativa da atividade de negociação dessas empresas. Segundo operadores licenciados e representantes tribais, os mercados de previsão conseguem evitar os rigorosos processos estaduais de licenciamento, taxas regulatórias e exigências de compliance que sportsbooks tradicionais e operadores tribais precisam cumprir.
Carta conjunta ao Congresso
Em uma carta conjunta enviada ao Congresso, o presidente da IGA, David Z. Bean, e o presidente e CEO da AGA, William C. Miller Jr., manifestaram oposição coordenada aos mercados de previsão regulados federalmente. As entidades demonstraram preocupação com o fato de que, desde que a Suprema Corte dos EUA derrubou a proibição federal das apostas esportivas em 2018, leis estaduais e acordos tribais que regulam rigorosamente o setor de jogos poderiam ser contornados por meio de contratos de eventos esportivos utilizados para viabilizar apostas ou produtos semelhantes a cassinos em âmbito nacional. As nações tribais enxergam essa movimentação como uma ameaça aos acordos de compartilhamento de receitas vinculados aos direitos de apostas e também à própria soberania tribal.
As duas organizações também levantaram preocupações relacionadas à proteção do consumidor. Segundo elas, enquanto os reguladores estaduais impõem regras rígidas sobre publicidade, jogo responsável e monitoramento de integridade esportiva, os mercados de previsão não estariam sujeitos ao mesmo nível de proteção regulatória. A carta enfatiza ainda que a expansão da regulamentação federal pode desequilibrar décadas de autonomia estadual e tribal sobre o setor de jogos.
Digital Asset Clarity Act
Embora o foco principal do Digital Asset Clarity Act esteja relacionado a criptomoedas e stablecoins, o projeto despertou preocupação dentro da indústria de jogos por ampliar a jurisdição da CFTC. O alerta ganhou ainda mais força após o Comitê Bancário do Senado aprovar o avanço do projeto por 15 votos a 9, aumentando os receios de que a regulamentação dos contratos de eventos seja incorporada a legislações mais amplas sobre ativos digitais e criptomoedas.
Autoridades estaduais e representantes tribais temem que mercados de previsão possam operar em todo o território americano sem a necessidade de licenças estaduais ou acordos tribais, enfraquecendo décadas de controle regulatório sobre o setor de apostas. A relação entre criptomoedas e mercados de previsão torna o tema ainda mais complexo, obrigando legisladores a equilibrar inovação financeira com o risco de enfraquecer estruturas regulatórias tradicionais do setor de jogos.
Disputa jurídica sobre mercados de previsão
No centro das disputas judiciais entre estados americanos e operadores de mercados de previsão está uma questão extremamente delicada: contratos ligados a eventos esportivos são produtos financeiros ou apenas uma nova forma de jogo de azar? Os operadores argumentam que esses produtos devem ser regulamentados pelas leis federais de commodities. Já os reguladores estaduais defendem que qualquer atividade envolvendo apostas em eventos esportivos com finalidade de lucro se enquadra nas legislações de jogos, independentemente da forma como o produto é apresentado ou comercializado. A decisão sobre esse debate pode trazer consequências profundas para a indústria. Caso os estados prevaleçam, os operadores terão de buscar licenças individualmente em cada jurisdição, exatamente como acontece com casas de apostas tradicionais.
Por outro lado, se os tribunais apoiarem os mercados de previsão, a capacidade dos estados de controlar atividades de apostas dentro de seus territórios poderá ser significativamente enfraquecida. Países como Reino Unido, França, Austrália e Nova Zelândia já enfrentaram discussões semelhantes e optaram por classificar mercados de previsão esportivos como atividades de jogo que exigem licenciamento específico.
Os defensores dos mercados de previsão rejeitam essa comparação. Eles argumentam que contratos de eventos possuem uma função legítima ao gerar dados preditivos relevantes e defendem que cabe aos legisladores e reguladores definir onde termina a inovação financeira e onde começa o jogo de azar.
Crescem as preocupações das nações tribais
Os mercados de previsão se tornaram um tema particularmente sensível para as nações tribais, tanto do ponto de vista financeiro quanto de soberania. As operações de jogos tribais nos EUA funcionam por meio de acordos firmados com os estados, que reconhecem a jurisdição tribal e estabelecem mecanismos de compartilhamento de receitas. Com a legalização ampla das apostas esportivas, o segmento passou a representar uma importante expansão desses direitos econômicos. No entanto, os mercados de previsão podem contornar esses acordos ao oferecer produtos regulamentados federalmente sem participação tribal, gerando preocupação de que décadas de conquistas políticas e regulatórias sejam comprometidas.
A IGA destacou que as receitas provenientes do setor de jogos financiam moradia, hospitais, escolas e diversos serviços essenciais para comunidades indígenas. Por isso, representantes tribais passaram a se unir aos operadores comerciais na oposição aos mercados de previsão regulados federalmente, vistos como uma ameaça tanto à soberania quanto à sobrevivência econômica dessas comunidades.
Mudança política dentro da CFTC
Os debates recentes sobre mercados de previsão também refletem duas mudanças importantes na política americana de jogos. A primeira é a percepção de que a postura da CFTC vem se tornando mais flexível. Críticos alertam que antigas restrições envolvendo contratos sobre eventos esportivos talvez não estejam mais sendo aplicadas com o mesmo rigor. Isso impulsionou iniciativas bipartidárias voltadas ao fortalecimento da jurisdição estadual e tribal, como o projeto denominado “Prediction Markets Are Gambling Act”. O Senado americano chegou inclusive a proibir parlamentares e assessores de utilizarem plataformas de mercados de previsão após preocupações relacionadas a insider trading e manipulação de mercado.
A segunda discussão envolve uma questão mais ampla: mercados de previsão têm potencial para transformar completamente o setor de apostas? Enquanto opositores afirmam que essas plataformas funcionam como casas de apostas disfarçadas, defensores as enxergam como ferramentas inovadoras de previsão e análise de mercado. Se receberem proteção federal, os mercados de previsão poderão se expandir nacionalmente e reduzir significativamente a autoridade regulatória de estados e nações tribais. Caso sejam enquadrados dentro das mesmas regras aplicadas às apostas, o modelo atual de regulamentação será preservado, mas possivelmente à custa de limitar novas inovações. Com a linha entre mercados financeiros e apostas se tornando cada vez mais tênue, o desfecho desse debate terá impacto direto tanto no futuro das apostas esportivas quanto na evolução dos mercados financeiros.
A faísca está acesa na Cidade do México. SiGMA North America, de 1 a 3 de setembro de 2026. 4.000 participantes. Três dias de negócios, insights e inspiração para startups. Lidere pelo exemplo e reserve seu lugar.


