As decisões sobre impostos do setor de apostas que o Chanceler enfrenta no próximo Orçamento do Reino Unido
Amanhã, a Chanceler do Reino Unido, Rachel Reeves, apresentará um Orçamento que muitos no setor de jogos de azar classificam como o mais decisivo de toda uma geração. À medida que Westminster se aproxima do anúncio de quarta-feira, operadores de todo o país aguardam em um clima de apreensão. O debate sobre a tributação dos jogos no Reino Unido já deixou de ser especulação e, agora, a expectativa generalizada é de aumento nos impostos. A dúvida já não é mais se haverá alta nas alíquotas, mas de quanto será, e qual impacto isso terá sobre empregos, investimentos e a competitividade do país.
O clima dentro das empresas do setor é de tensão. Nas últimas semanas, executivos trabalharam com projeções que variam do desconfortável ao crítico. O Betting and Gaming Council tem sido direto ao alertar que “qualquer aumento de imposto representa uma ameaça direta aos empregos britânicos e ao crescimento econômico”. Ainda assim, a incerteza pode ser um risco maior. Quando não há clareza sobre o rumo das políticas públicas, conselhos de administração tendem a recuar e se proteger. Reduzem investimentos, transferem operações para outros países, freiam contratações ou repensam sua estratégia de longo prazo. E isso já está acontecendo — antes mesmo da apresentação do Orçamento.
O que já mudou
O exemplo mais simbólico surgiu recentemente, quando a Sky Bet — parte do grupo Flutter Entertainment — anunciou a mudança de sua sede corporativa para Malta. A justificativa oficial falou em eficiência e clareza organizacional. Analistas de mercado, porém, apontaram um motivo muito mais simples. Em Malta, algumas empresas conseguem pagar algo próximo de 5% em imposto corporativo, um contraste marcante com a alíquota britânica de 25%. A Flutter já tinha equipes em Dublin, Malta e Ilha de Man, então a mudança não representou um salto estrutural. Segundo analistas, a Sky Bet pode reduzir em cerca de £55 milhões por ano sua carga tributária no Reino Unido ao deslocar mais processos decisórios para fora do país.
A empresa continuará com presença significativa em Leeds, e os empregos serão mantidos. Mas essa garantia oculta um movimento mais profundo: as funções que determinam o rumo comercial do negócio agora estão sediadas no exterior. Quando essas funções migram, investimentos e capital intelectual seguem o mesmo caminho. E, naturalmente, a arrecadação tributária também. A decisão da Sky Bet não é um caso isolado. O mesmo padrão se repete em diferentes setores que dependem de regras estáveis. Malta, a Ilha de Man e Gibraltar estão atraindo empresas que antes consideravam o Reino Unido sua base natural. Esses locais oferecem algo que o Reino Unido costumava entregar quase sem esforço: previsibilidade. Boa parte da pressão que levou essas empresas a reconsiderar sua estrutura operacional vem justamente do debate prolongado sobre tributação no setor e da incerteza que se arrasta há mais de um ano. A confiança no ambiente de longo prazo enfraqueceu.
Ao mesmo tempo, o ambiente regulatório ficou mais rígido. Em outubro de 2025, a Comissão de Jogos implementou um novo sistema de penalidades que pode aplicar multas equivalentes a até 15% da receita bruta de jogos (Gross Gambling Yield) em casos graves. E ele já foi usado: a Videoslots recebeu uma multa de £650 mil por falhas em prevenção à lavagem de dinheiro. A pressão também vem se espalhando pela cadeia inteira, com o regulador deixando claro que fornecedores que atuem com operadores não licenciados não terão tolerância.
Os custos de conformidade decorrentes do Gambling Act Review White Paper continuam subindo — pouco a pouco, ano após ano. Em todo o setor, a conta já deve ultrapassar £1 bilhão, além de mais £100 milhões anuais referentes à taxa estatutária que financia pesquisa, educação e tratamento relacionados ao jogo responsável. Ninguém questiona a intenção dessas medidas. O problema é o timing. Esses custos chegam a um mercado já fragilizado, onde a pressão não vem de uma única regra ou taxa, mas do acúmulo constante de exigências regulatórias, obrigações fiscais, incertezas sobre a tributação do setor e um clima político que nunca se estabiliza completamente.
O que o setor teme
Dentro da indústria, dois cenários dominam os planejamentos internos enquanto as empresas tentam antecipar como o Orçamento pode redefinir o panorama tributário do setor de jogos no Reino Unido.
O primeiro é o cenário moderado — ou politicamente cauteloso. Nele, analistas projetam que a taxa sobre apostas online aumente dos atuais 15% para algo entre 17% e 18%. A Machine Games Duty poderia subir de 20% para cerca de 21% ou 22%. Já a taxa sobre apostas em corridas de cavalos permaneceria em 15%. As corridas ainda sofreriam uma redução estimada de £8 a £14 milhões na arrecadação esperada do seu fundo setorial, mas o mercado como um todo conseguiria absorver o impacto sem danos estruturais severos.
O segundo cenário é o que muitos dentro do setor classificam como catastrófico. Propostas apresentadas pelo ex-primeiro-ministro Gordon Brown, aliadas a estudos do Institute for Public Policy Research, defendem uma tributação de 50% sobre jogos online de cassino e machine gaming, além de 30% sobre apostas esportivas online. Essas ideias têm ganhado adesão entre parlamentares que enxergam o aumento da tributação do setor como uma forma politicamente segura de ampliar a arrecadação em um momento de forte pressão sobre as contas públicas.
Para os operadores, esse cenário seria inviável. A Betfred já simulou internamente um aumento mais modesto — de 20% para 25% na Machine Games Duty. Mesmo esse ajuste menor levaria ao fechamento de mais de 380 lojas de apostas, à perda de mais de 2.000 empregos e a uma redução de £11 milhões no financiamento ao setor de corridas. Uma alíquota de 50% iria muito além.
O Betting and Gaming Council contratou a EY para estimar o retorno potencial ao Tesouro. Enquanto alguns think tanks afirmam que o governo poderia arrecadar £3 bilhões, a análise da EY indica que o ganho real pode ficar abaixo de £500 milhões quando considerados desemprego, queda no imposto corporativo e redução das contribuições ao sistema de seguridade social.
Mas o maior receio é outro, menos visível. De acordo com estimativas internas do setor, o mercado ilegal já atrai mais de 1,5 milhão de britânicos. Se o aumento da tributação no Reino Unido for exagerado, essa migração silenciosa para operadores não licenciados pode acelerar rapidamente. Operadores regulados alertam que aumentos bruscos acabam minando o que o Tesouro pretende alcançar: reduzem a proteção ao consumidor, estimulam operações offshore e diminuem a base tributária — em vez de ampliá-la. É um padrão recorrente em outros mercados regulados, onde a pressão sem equilíbrio empurra atividade para fora do alcance regulatório, em vez de mantê-la em um ambiente seguro.
O que pode acontecer
O momento político favorece aumentos de impostos. Pesquisas internas do Partido Trabalhista mostram que o público apoia amplamente a medida. Mais de 80% dos entrevistados dizem querer a elevação da carga tributária sobre o setor. Isso cria pressão evidente sobre uma chanceler que precisa lidar com um déficit previsto de £20 bilhões — e que também vê na tributação do setor uma opção politicamente confortável e socialmente aceitável.
Novos números reforçam esse cenário. Segundo o The Guardian, dados recentes apontam que empresas de jogos e apostas tiveram um crescimento de £1 bilhão no ano até março, alcançando receita total (excluindo loterias) de £12,6 bilhões. Ao mesmo tempo, o Tesouro lida com um rombo fiscal na casa de £20 bilhões. Juntos, esses fatores intensificam o debate sobre até onde a chanceler pode ir nos ajustes tributários — e até que ponto o setor será chamado a assumir uma parcela maior da carga.
O setor de corridas de cavalos pode conseguir proteção. Sua campanha “Axe the Racing Tax” ganhou força em distritos rurais. Casas de apostas físicas também podem encontrar algum alívio, já que parlamentares alertam que aumentos pesados impactariam regiões já fragilizadas em emprego e investimento.
Mas o segmento mais exposto é o do jogo online, especialmente cassino e caça-níqueis. Esses produtos enfrentam o cenário político mais desfavorável devido à percepção de maior risco de dependência. Uma carga de 50% ainda é improvável, mas um aumento rumo aos 30% já é considerado um resultado plausível por analistas e consultores políticos. Seria a mudança mais significativa na tributação do setor em mais de uma década — e pressionaria ainda mais operadores que já lidam com custos crescentes de conformidade. Consultorias especializadas compartilham essa preocupação. Às vésperas do orçamento, Lee Hills, CEO da consultoria regulatória SolutionsHub, afirma que a inconsistência e a falta de coordenação do governo britânico têm ampliado a distância entre formuladores de políticas e o setor.
O cálculo que vem pela frente
A maior preocupação do setor não é o imposto em si, mas a incerteza que ele gera. Operadores conseguem absorver aumentos justos e transparentes. O que não conseguem absorver é um processo político que oscila entre consulta, fiscalização, especulação e sinais contraditórios. O debate prolongado sobre a tributação tem intensificado essa instabilidade, deixando empresas sem clareza para planejar os próximos doze meses — muito menos os próximos dez anos.
A mudança da Flutter para Malta é um sintoma, não a causa. Ela reflete uma revisão estratégica mais ampla, compartilhada silenciosamente por outras empresas que aguardam o anúncio de amanhã antes de definir seus planos de longo prazo.
Se a chanceler oferecer clareza — mesmo com aumentos — o setor consegue se ajustar. Se o Orçamento trouxer volatilidade ou estruturas punitivas sem diálogo, o custo econômico de longo prazo pode superar qualquer ganho imediato de arrecadação.
Amanhã definirá qual história o Reino Unido escolhe.
Colaboração ou confronto. Investimento ou migração. Estabilidade ou especulação. O setor está preparado para o impacto — agora resta saber se Rachel Reeves irá estabilizar o terreno ou sacudi-lo ainda mais.
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