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Funcionário do Google é acusado de uso de informação privilegiada no Polymarket

Tony Colapinto
Escrito por Tony Colapinto
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Um engenheiro de software italiano do Google tornou-se alvo de uma investigação nos Estados Unidos após ser acusado de utilizar informações confidenciais da empresa para obter vantagem nos mercados de previsão da plataforma Polymarket.

De acordo com a denúncia apresentada pelas autoridades federais americanas, Michele Spagnuolo, cidadão italiano de 36 anos residente na Suíça, teria obtido lucros superiores a US$ 1,2 milhão negociando contratos na plataforma baseada em blockchain por meio de uma conta identificada pelo pseudônimo “AlphaRaccoon”.

O caso representa um dos desdobramentos mais relevantes no crescente debate regulatório em torno dos mercados de previsão, plataformas que permitem aos usuários negociar contratos baseados nos resultados de eventos futuros. Essa nova fronteira digital está na interseção entre tecnologia blockchain, apostas e instrumentos financeiros, atraindo cada vez mais a atenção de reguladores ao redor do mundo.

Acusações apontam uso de informações internas do Google em negociações no Polymarket

Segundo o Gabinete do Procurador dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, Spagnuolo teria explorado informações materiais e não públicas obtidas em função de seu cargo no Google.

A acusação sustenta que o funcionário teve acesso a dados confidenciais relacionados ao relatório “Year in Search 2025”, publicação anual em que o Google divulga as principais tendências de buscas realizadas por seus usuários ao longo do ano.

Antes da divulgação oficial dos resultados, o engenheiro teria utilizado essas informações para comprar contratos de eventos no Polymarket relacionados ao ranking dos termos mais pesquisados do ano.

Entre outubro e dezembro de 2025, segundo os investigadores, a conta AlphaRaccoon realizou operações que movimentaram aproximadamente US$ 2,75 milhões em diversos mercados vinculados ao relatório do Google, gerando um lucro total superior a US$ 1,2 milhão.

As autoridades americanas afirmam que o acesso antecipado aos dados internos teria proporcionado ao operador uma vantagem informacional decisiva em relação aos demais participantes do mercado.

Stablecoins, blockchain e investigação sobre movimentações financeiras

Outro ponto central da investigação envolve a origem e a movimentação dos recursos utilizados na plataforma.

De acordo com os documentos judiciais, Spagnuolo teria transferido grandes quantias de stablecoins para o Polymarket a fim de financiar sua atividade de negociação.

Os investigadores também alegam que, após obter os ganhos questionados, ele adotou estratégias destinadas a dificultar o rastreamento dos recursos.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou acusações que incluem violação da Commodity Exchange Act, fraude eletrônica (wire fraud) e lavagem de dinheiro.

As autoridades ressaltaram que as acusações representam alegações formais e que o investigado deve ser considerado inocente até que uma decisão judicial definitiva seja proferida.

CFTC também move ação civil contra funcionário do Google

Paralelamente ao processo criminal, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) também abriu uma ação civil contra Michele Spagnuolo.

Segundo a agência federal responsável pela supervisão dos mercados de derivativos nos Estados Unidos, o caso representaria uma violação das normas que proíbem o uso indevido de informações privilegiadas em mercados sob sua jurisdição.

A CFTC solicita diversas medidas, incluindo a devolução dos ganhos supostamente obtidos de forma ilícita, aplicação de penalidades financeiras, restrições à participação em atividades de negociação e outras sanções previstas em lei.

A atuação do regulador reforça o crescente interesse das autoridades pelo setor de mercados de previsão, especialmente quando esses instrumentos passam a apresentar características semelhantes às dos mercados financeiros tradicionais.

A resposta do Google à investigação

Por meio de um porta-voz, o Google confirmou que está colaborando com as autoridades americanas. A empresa enfatizou que o uso de informações confidenciais da companhia para benefício pessoal constitui uma violação de suas políticas internas.

Segundo o grupo, o funcionário possuía acesso a determinados dados sigilosos por razões estritamente profissionais, mas essas informações não poderiam ser utilizadas para fins pessoais nem para obtenção de vantagens financeiras.

O Google informou ainda que suspendeu o colaborador envolvido e que poderá adotar medidas adicionais conforme o caso evoluir.

Polymarket e os desafios da regulamentação

O caso surge em um momento crucial para o futuro dos mercados de previsão.

O Polymarket permite que usuários comprem e vendam posições relacionadas ao resultado de eventos do mundo real, criando mercados nos quais os preços refletem a probabilidade que a comunidade atribui a determinado acontecimento.

Esse modelo impulsionou um crescimento acelerado do setor, mas também levantou questionamentos sobre supervisão regulatória e prevenção de abusos.

Diferentemente das apostas tradicionais, os mercados de previsão podem envolver eventos relacionados a informações detidas por empresas, governos ou organizações privadas. Isso cria novos desafios para a gestão de dados sensíveis e para a prevenção de negociações realizadas com base em informações não disponíveis ao público.

Um precedente para o futuro das apostas digitais

O caso AlphaRaccoon pode estabelecer um importante precedente na relação entre uso de informação privilegiada, blockchain e novas modalidades de apostas digitais.

Os avanços tecnológicos vêm tornando cada vez mais tênues as fronteiras entre plataformas de apostas, mercados financeiros descentralizados e ferramentas de previsão coletiva.

Para reguladores e operadores, o desafio será criar regras capazes de preservar a integridade dos mercados sem comprometer a inovação.

Por esse motivo, o processo contra Michele Spagnuolo será acompanhado de perto não apenas pelo setor de tecnologia, mas também pelas indústrias globais de iGaming e fintech, cada vez mais envolvidas nos debates sobre a regulamentação dos novos mercados digitais.

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