Uma operação interestadual da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) trouxe novos detalhes sobre os desafios que acompanham o rápido amadurecimento do mercado de iGaming no Brasil. À medida que o país avança na regulamentação das apostas online e se consolida como um dos mercados mais promissores do setor globalmente, autoridades também intensificam o combate a plataformas ilegais e esquemas de fraude digital.
A PCDF, responsável pelas investigações criminais no Distrito Federal, região onde fica Brasília, a capital do Brasil, cumpriu mandados em sete estados: Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Maranhão, Paraíba, Rio de Janeiro e Bahia. Segundo as autoridades, o grupo investigado utilizava plataformas de apostas manipuladas, contas falsas e influenciadores digitais para atrair vítimas pelas redes sociais. A investigação aponta que o esquema movimentou cerca de BRL11 milhões ($2,25 milhões).
Uma das preocupações do mercado brasileiro é que, conforme as apostas online ganham popularidade e entram em processo de regulamentação, também aumenta o número de fraudes ligadas a plataformas ilegais e esquemas de manipulação digital.
Contas demo, ganhos falsos e redes sociais
De acordo com a investigação, os suspeitos usavam tecnologias para esconder a própria identidade, como proxies e servidores intermediários. O grupo também utilizava “contas demo” (contas de demonstração normalmente usadas para testes) para simular ganhos irreais em vídeos publicados nas redes sociais.
A estratégia consistia em criar a impressão de que era fácil ganhar dinheiro com apostas online. Influenciadores ligados ao esquema exibiam lucros supostamente altos, estilo de vida luxuoso e sessões de apostas manipuladas para convencer seguidores a depositarem dinheiro em links fraudulentos. Segundo a PCDF, os valores enviados pelas vítimas eram desviados sem que apostas reais fossem realizadas.
As investigações começaram após uma operação realizada em 2024 na casa de um influenciador em Brazlândia, região administrativa do Distrito Federal. Ele é suspeito de divulgar ganhos falsos e direcionar usuários para plataformas manipuladas.
O esquema, segundo a polícia, operava de forma organizada, com divisão de funções entre recrutadores, operadores técnicos, responsáveis financeiros e intermediários ligados a plataformas estrangeiras.
O crescimento das apostas no Brasil também ampliou os riscos
A operação acontece em um momento de forte crescimento do mercado brasileiro de apostas online. Dados da Blask (plataforma de inteligência de mercado focada no setor de iGaming) mostram como o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes para operadores online nos últimos anos. A empresa desenvolve seus perfis de audiência combinando pesquisas com usuários, análise de mercado e modelos de IA posteriormente validados com dados reais da indústria.
As informações de perfil de usuário divulgadas pela plataforma indicam que o público brasileiro de apostas é bastante amplo em termos etários. Segundo os dados, 29% dos jogadores têm entre 18 e 24 anos, enquanto 25% estão na faixa entre 25 e 34 anos. Outros 22% pertencem ao grupo de 35 a 44 anos, e 24% têm entre 45 e 54 anos. Os números mostram que o setor não atinge apenas jovens adultos, mas uma parcela muito mais diversa da população brasileira. Ainda assim, o fato de a maior parcela dos usuários estar concentrada entre 18 e 24 anos reforça a preocupação das autoridades com o impacto das apostas sobre públicos mais jovens, especialmente em um ambiente dominado por redes sociais, influenciadores e promessas de ganhos rápidos.

Os dados de renda também ajudam a entender o tamanho desse mercado. Segundo a Blask, 30% dos usuários brasileiros de apostas online possuem renda anual entre R$ 40 mil e R$ 60 mil. Outros 25% ficam na faixa entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, enquanto 20% ganham entre R$ 20 mil e R$ 40 mil por ano. Os números sugerem que o mercado brasileiro não é composto apenas por usuários de baixa renda, mas por uma base ampla de consumidores economicamente ativos, o que ajuda a explicar por que o país se tornou tão estratégico para operadores nacionais e internacionais.

Esse crescimento acelerado acabou criando um ambiente extremamente lucrativo não apenas para operadores regulamentados, mas também para esquemas fraudulentos que usam redes sociais para atrair vítimas. Jovens adultos acabam sendo considerados um público especialmente vulnerável nesse cenário, já que costumam ter contato mais intenso com conteúdos virais, influenciadores digitais e campanhas agressivas de publicidade online.
Influenciadores se tornaram peça central
Um dos principais pontos levantados pela investigação é o papel dos influenciadores digitais na divulgação dessas plataformas. Nos últimos anos, conteúdos relacionados a apostas explodiram em aplicativos como Instagram, TikTok e Telegram. Muitos vídeos seguem um padrão parecido: promessas de lucro rápido, demonstrações “ao vivo” de ganhos e exibição constante de dinheiro, carros e viagens. Em muitos casos, os usuários comuns têm dificuldade para distinguir publicidade legítima de fraude.
O fenômeno ficou ainda mais evidente com a popularização do “Jogo do Tigrinho”, apelido usado no Brasil para jogos de cassino online inspirados no Fortune Tiger e em outros slots que viralizaram nas redes sociais. A explosão desse tipo de conteúdo ajudou a transformar apostas online em um fenômeno altamente compartilhável nas plataformas digitais, abrindo espaço tanto para operadores legítimos quanto para campanhas enganosas promovidas por perfis fraudulentos.
As autoridades brasileiras já abriram investigações envolvendo influenciadores suspeitos de promover plataformas ilegais ou divulgar ganhos irreais para incentivar depósitos.
O desafio da regulamentação brasileira
O Brasil iniciou há um ano e meio a implementação de seu mercado regulado de apostas esportivas e jogos online. A proposta é criar um ambiente legalizado, com operadores autorizados, regras de publicidade e mecanismos de fiscalização. Mas o avanço da regulamentação também evidenciou o tamanho do mercado clandestino. Segundo a investigação da PCDF, o grupo utilizava CPFs (Cadastro de Pessoas Físicas) de terceiros para criar contas e movimentar dinheiro.
As autoridades também afirmam que os investigados mantinham conexões com plataformas internacionais e utilizavam ferramentas para dificultar o rastreamento financeiro das operações. Na prática, isso cria um desafio duplo para o Brasil: desenvolver um mercado regulado enquanto combate operações ilegais cada vez mais sofisticadas.
Mais operações devem acontecer
Os investigados poderão responder por organização criminosa e estelionato, enquanto as investigações continuam para identificar outros envolvidos.
O caso também reforça uma tendência importante: conforme a regulamentação avança, as autoridades e operadores licenciados vêm aumentando os esforços para tornar o ambiente de apostas online mais seguro, transparente e profissionalizado. A expectativa é que o crescimento da fiscalização e das operações contra fraudes digitais ajude a fortalecer a confiança no setor regulado nos próximos anos.
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