Apostas e o bolso político brasileiro: por que todos dizem rejeitar o jogo, até ver o dinheiro
Muitos brasileiros costumam condenar os jogos de azar em voz alta, principalmente a sociedade política. É celebridade, deputado e senador chamando aposta de “praga social” ou “vício destruidor”, mas, dias depois, os mesmos corredores do Congresso estão cheios de projetos para regular, taxar e direcionar os recursos que vêm das apostas online e dos cassinos. O roteiro é sempre o mesmo: indignação moral em público, pragmatismo arrecadatório nos bastidores. Resultado? Um cenário em que quem mais sente os impactos são as casas de apostas, enquanto políticos correm atrás apenas de transformar o setor em mais fonte de receita, e quanto mais alta a taxa de juros, melhor.
Vamos aos fatos. Apostas não são um nicho pequeno no Brasil. Pesquisas e estudos do próprio Senado já mostram que dezenas de milhões de brasileiros usam sites de “bets”, um mercado gigante demais para passar despercebido. Onde há tanto dinheiro, há interesse político. E onde há político, tem sempre um olho na moral e outro na arrecadação.
Um exemplo disso aconteceu na própria CPI que investigava a manipulação de resultados, criada para apurar possíveis ligações entre jogos e casas de apostas. Durante os trabalhos, houve situações em que interesses comerciais com empresas do setor acabaram entrando em conflito com a função investigativa. Investigar de um lado, negociar do outro. Os próprios parlamentares julgaram o comportamento como hipócrita.
A segunda parte desse comportamento é ainda mais interessante. O discurso moralista vira desculpa para aumentar impostos. Políticos que dizem que o jogo é nocivo, “imoral” ou “destrutivo” são os mesmos que propõem projetos para usar o dinheiro arrecadado com o setor em causas sociais. Nos últimos meses, choveu projeto de lei nesse sentido: destinar parte das loterias e apostas para lares de idosos, para a saúde mental, para programas de prevenção ao vício em jogos e muitos outros. Claro, ninguém é contra fortalecer essas áreas, na verdade, é essencial que recebam apoio público, mas é impossível ignorar o cálculo político. Condena o setor no palanque, mas aprova o caixa extra dias depois.
O governo federal e o Congresso já discutiram várias vezes aumentar a carga tributária sobre as casas de apostas, como uma ideia de “responsabilidade social”. De fato, faz sentido que um mercado lucrativo pague impostos, mas quando os mesmos políticos que especulam contra o jogo estão por trás dessas propostas, fica claro que a preocupação não é só moral ou social, é fiscal.
Primeiro, é preciso criar uma regulação inteligente. Em vez de frear completamente o setor com proibições criadas – visivelmente – com o intuito de exterminá-lo, o ideal seria definir regras que permitam que ele cresça sustentavelmente, com publicidade responsável, patrocínios responsáveis e acesso seguro aos jogadores.
Segundo, a arrecadação pode e deve ser usada de forma estratégica. Projetos que direcionam esse valor arrecadado das apostas (e garantem que chegará integralmente ao destino devido) para saúde, educação, programas de prevenção e cuidado com idosos dão mais um propósito ao setor, transformando os cassinos online em uma ferramenta de impacto social real, e não apenas em slogan político.
Terceiro, é essencial transparência. Patrocínios, parcerias e regras de operação devem estar claros e justos, sem conflitos de interesse que comprometam as decisões políticas ou regulatórias. A credibilidade do setor depende de regras claras e fiscalização eficiente, não de moralismo vazio. Pudemos ver poucos meses atrás uma Comissão Parlamentar de Inquérito muito semelhante a um show de stand-up, e isso escancarou o perfil da liderança que rege um setor tão promissor.
Se a intenção for realmente proteger os brasileiros, taxar o setor de forma justa é o correto. Mas fingir repulsa em público e, ao mesmo tempo, planejar como gastar cada centavo vindo das apostas é um completo teatro político.
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