A nova prisão de Deolane Bezerra, que aconteceu em maio de 2026 durante a Operação Vérnix, voltou a colocar um dos nomes mais conhecidos da internet brasileira de volta nas páginas de notícia. Desta vez, porém, o caso não está ligado diretamente ao mercado de apostas, mas a uma investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do Brasil. Segundo as autoridades, a influenciadora teria participado da movimentação de recursos que seriam provenientes da facção criminosa. A defesa nega todas as acusações.
A prisão teve uma enorme repercussão porque é a segunda vez que isso acontece em menos de dois anos após Deolane ter sido alvo da Operação Integration, investigação que teve como alvo empresas de apostas, influenciadores digitais e empresários ligados ao setor. Embora os dois casos tenham naturezas diferentes, o histórico acabou fazendo com que muitas pessoas associassem automaticamente a nova prisão ao mercado regulado de apostas, o que não corresponde exatamente aos fatos conhecidos até agora.
Para entender a situação atual, é necessário voltar alguns anos e analisar como Deolane passou a aparecer em investigações de grande repercussão nacional.
O início da ligação com as apostas
Nos últimos anos, Deolane Bezerra se tornou uma das influenciadoras mais populares do Brasil. Com mais de 20 milhões de seguidores e forte presença digital, ela participou de campanhas publicitárias para diversas empresas e se transformou em um rosto conhecido também dentro do mercado de apostas online.
O crescimento acelerado das bets no Brasil levou operadores a investirem pesado em marketing, patrocínios esportivos e influenciadores. Esse movimento não envolveu apenas Deolane. Clubes de futebol, celebridades, criadores de conteúdo e veículos de mídia passaram a participar de campanhas publicitárias de empresas do setor. Essa é uma estratégia comum em mercados regulados ao redor do mundo.
É importante destacar um ponto que muitas vezes se perde no debate público: divulgar uma casa de apostas não é crime. O próprio processo de regulamentação brasileiro criou regras para a atuação das empresas e para a publicidade do setor. A simples participação em campanhas promocionais não caracteriza qualquer irregularidade. O que eventualmente pode ser investigado são movimentações financeiras específicas ou suspeitas de lavagem de dinheiro, independentemente da atividade econômica envolvida.
A Operação Integration e a primeira prisão
Em setembro de 2024, a Operação Integration foi muito discutida entre os brasileiros por investigar um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado a jogos ilegais e movimentações financeiras suspeitas. A investigação apontava a existência de uma organização que teria movimentado cerca de R$ 3 bilhões por meio de diferentes empresas e operações financeiras. Entre os alvos estavam empresários do setor de apostas, influenciadores e pessoas ligadas a empresas conhecidas do mercado.
Na época, Deolane foi presa preventivamente em Pernambuco. A operação também atingiu nomes ligados às casas de apostas Esportes da Sorte e Vai de Bet, duas marcas que possuíam forte presença no futebol brasileiro e em grandes campanhas de marketing.
A repercussão foi imediata porque ocorreu justamente durante um período em que o Brasil avançava na regulamentação das apostas esportivas. Para muitos, havia o risco de o público confundir suspeitas envolvendo determinados indivíduos com a atividade legal das empresas que atuavam dentro das regras estabelecidas pelo país.
As investigações continuaram ao longo de 2025, mas um fato importante ocorreu em fevereiro de 2026: a Justiça Federal anulou diversos atos da Operação Integration e determinou a transferência do caso para a Polícia Federal. Isso não significou o encerramento das apurações, mas representou uma mudança importante no andamento do processo.
O surgimento da CPI das Bets
A repercussão da Integration também ajudou a impulsionar a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Bets no Senado. A comissão passou a investigar o crescimento das apostas online, o uso de influenciadores na divulgação das plataformas e possíveis conexões entre empresas do setor e organizações criminosas. Diversas personalidades foram convocadas para prestar esclarecimentos durante os trabalhos.
Ao final, o relatório da CPI acabou não sendo aprovado pelos senadores, e os investigados ouvidos pela comissão não foram indiciados pelo colegiado.
Ainda assim, a CPI trouxe um debate que permanece atual: como separar operadores legalizados e empresas sérias de eventuais grupos que tentam utilizar o ambiente digital para práticas ilícitas.
A nova prisão e a Operação Vérnix
Em maio de 2026, Deolane voltou a ser mencionada em jornais televisivos e sites de notícias ao ser presa durante a Operação Vérnix.
Diferentemente da Operação Integration, a nova investigação não nasceu de suspeitas relacionadas ao mercado de apostas. Segundo os investigadores, o foco principal é um esquema de lavagem de dinheiro supostamente ligado ao PCC. A polícia afirma ter identificado uma rede de movimentações financeiras que utilizaria empresas de fachada para ocultar recursos da facção criminosa.
As autoridades afirmam que Deolane teria recebido valores provenientes dessa estrutura financeira e a indiciaram por organização criminosa e lavagem de dinheiro. A defesa diz que os recursos têm origem lícita e nega qualquer vínculo com o PCC.
Além das prisões preventivas, a Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 327 milhões em ativos financeiros, o que impede a movimentação de recursos enquanto a investigação está em andamento. Também foi autorizado a retenção de 17 veículos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis vinculados aos suspeitos. Entre os automóveis apreendidos estariam modelos de alto padrão como Range Rover, Cadillac Escalade, Mercedes-AMG e Jeep Limited.
O caso e o mercado de apostas
Embora o nome das bets apareça frequentemente nas discussões sobre Deolane, é importante evitar generalizações. O mercado brasileiro de apostas passou por uma profunda transformação regulatória nos últimos anos. Os operadores legalizados passaram a seguir exigências relacionadas a compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, identificação de clientes, monitoramento de transações e jogo responsável. A regulamentação foi criada justamente para dificultar a atuação de empresas irregulares e aumentar a transparência do setor.
Mas isso não significa que o mercado esteja imune a tentativas de fraude ou lavagem de dinheiro. Assim como acontece com bancos, fintechs, corretoras e outros segmentos financeiros, as organizações criminosas podem tentar utilizar estruturas legítimas para ocultar recursos ilícitos. A diferença é que um ambiente regulado oferece mais ferramentas para identificação dessas práticas.
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