O bloqueio da internet em Uganda durante a eleição geral da semana passada provocou um impacto imediato em toda a economia digital do país. A interrupção afetou meios de subsistência, entretenimento e as atividades de jogos e apostas online em nível nacional. Para o setor de iGaming, o apagão significou transações interrompidas e jogadores desconectados.
Agentes de mobile money sentem o prejuízo
A agente de mobile money Mirembe Tracy viu seu negócio em Kampala entrar em colapso da noite para o dia. Em entrevista à BBC, ela contou que suas operações foram totalmente paralisadas assim que o bloqueio começou.
“Todos os saques foram interrompidos”, afirmou. Ela explica que as comissões sobre retiradas representam quase toda a sua renda. Sem conexão, seus ganhos caíram a zero. “Em uma semana, eu consigo ganhar até UGX 450.000 (£96; US$ 130)”, disse.
“Esse dinheiro é o que uso para pagar o aluguel. Perdê-lo foi um prejuízo total.” Durante dois dias em torno da eleição, ela permaneceu em casa. A única atividade possível foi a venda de créditos de recarga para celulares. Segundo ela, esse tipo de venda não gera comissão.
Justificativa do governo e repercussão política
A autoridade de comunicações de Uganda determinou o bloqueio nacional da internet. As autoridades afirmaram que a medida visava “garantir a paz, proteger a estabilidade nacional e evitar o uso indevido das plataformas de comunicação durante um exercício nacional sensível”. A oposição contestou fortemente essa explicação, alegando que o objetivo era ocultar fraudes eleitorais.
Líderes oposicionistas também acusaram o governo de impedir o compartilhamento dos resultados diretamente das seções eleitorais. Independentemente das intenções, o bloqueio paralisou aspectos fundamentais da vida moderna.
Negócios online ficam parados
Empresas que dependiam de serviços de mobile money foram as mais afetadas, com suas operações praticamente interrompidas por completo. Diversas plataformas suspenderam totalmente as atividades, enquanto outras recorreram temporariamente a transações em dinheiro.
O setor de jogos online também foi severamente impactado, já que as operações ficaram paralisadas, impedindo o acesso dos usuários a serviços de apostas e jogos virtuais devido à indisponibilidade dos sistemas de pagamento digital.
Jogadores forçados a ficar offline
A juventude ugandense teve dificuldades para lidar com a falta de acesso à internet. Ronnie Mwesigwa, de 20 anos, descreveu a perda de contato com os amigos. “Eu não conseguia me comunicar com ninguém, e até os jogos desapareceram”, contou. “Não foi uma situação boa.” Sem as plataformas online, ele passou a consumir apenas conteúdos offline.
Segundo ele, a única coisa que podia fazer era ver as fotos salvas no celular. “Era só isso.” Para jogadores online e apostadores, o bloqueio significou uma interrupção total. Transmissões de eSports, jogos de cassino e plataformas de apostas ficaram inacessíveis.
Jornalistas enfrentam obstáculos para informar
O jornalista ugandense Ngabo Amon afirmou que o apagão afetou profundamente a cobertura eleitoral. Ele explicou que os profissionais tiveram dificuldades para retratar os acontecimentos com precisão. “Estamos falando de pessoas protestando, de tensão nas ruas”, disse. “Mas o público só vê uma foto e ouve sua voz.” “Isso não é satisfatório nem para o jornalista nem para o espectador”, acrescentou.
A situação foi ainda pior nas áreas rurais. Alguns jornalistas precisaram transportar fisicamente as gravações até Kampala. Ngabo lembra que vídeos chegavam à capital horas depois, levados de ônibus. “Quando isso acontecia, os resultados já estavam sendo discutidos e contabilizados”, explicou. “Ninguém mais se interessava pelas imagens.”
Resultados da eleição e restrições persistentes
O presidente Yoweri Museveni, de 81 anos, venceu a eleição por ampla margem, estendendo seu governo de 40 anos. Ele acusou a oposição de tentar provocar distúrbios violentos. Já Bobi Wine sustenta que os resultados são “falsos”, citando supostos casos de “enchimento de urnas”.
Um relatório da União Africana sobre as eleições criticou o bloqueio da internet em Uganda. Segundo o documento, “a interrupção limitou o acesso à informação, a liberdade de associação e prejudicou as atividades econômicas”.
O relatório também afirmou que o apagão “gerou suspeita e desconfiança”. O governo restabeleceu parcialmente o acesso à internet após a divulgação dos resultados. Algumas plataformas, no entanto, continuam lentas ou com restrições. Muitos jovens passaram a depender de serviços de VPN. Para o setor de iGaming, o episódio evidenciou a forte dependência da infraestrutura digital.
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