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“Vitória para a equipe italiana”: loteria pública é retomada para financiar o esporte na Itália

Tony Colapinto
Escrito por Tony Colapinto
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O Projeto de Lei Orçamentária da Itália acrescenta uma nova peça a um quebra-cabeça cada vez mais complexo do sistema público de jogos do país. Entre as emendas apresentadas à Comissão de Orçamento do Senado está a introdução de um novo jogo numérico nacional baseado em totalizador, batizado de “Win for Italia Team”. A iniciativa foi concebida, ao menos em parte, para oferecer apoio estrutural ao financiamento dos projetos olímpicos da seleção italiana, enfrentando uma fragilidade histórica nas finanças do Comitê Olímpico Nacional Italiano (CONI).

A decisão segue uma lógica já testada no passado: utilizar os canais do jogo público para apoiar objetivos de interesse geral. Mais uma vez, essa abordagem reacende o debate sobre a relação entre o Estado, o jogo legalizado e as políticas públicas — especialmente em um momento em que o sistema esportivo nacional está cada vez mais voltado para os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026.

Um novo jogo nacional por totalizador

Do ponto de vista técnico, o “Win for Italia Team” é classificado como um jogo numérico nacional por totalizador e passa a integrar a família “Vinci per la Vita – Win for Life”. Portanto, não se trata de um produto de apostas esportivas nem de um jogo vinculado a resultados esportivos. Na prática, é uma loteria, estruturada a partir de um modelo já conhecido tanto por operadores quanto por jogadores.

A responsabilidade pela regulamentação do novo jogo caberá à Agência das Alfândegas e dos Monopólios (ADM), que deverá emitir um decreto específico da diretoria no prazo de até 60 dias após a entrada em vigor da Lei Orçamentária. Esse passo será decisivo, pois definirá o modelo operacional, as formas de distribuição e o enquadramento regulatório de um produto explicitamente atrelado a um objetivo de interesse público.

De acordo com o relatório técnico que acompanha a medida, o jogo deverá operar sob uma concessão já existente, muito provavelmente detida pela Sisal. Na prática, isso permitiria ao concessionário assumir um papel semelhante ao de patrocinador do CONI, por meio de parcerias e iniciativas promocionais envolvendo as seleções olímpicas italianas. O resultado é um modelo híbrido, que combina concessão pública, promoção institucional e apoio ao esporte de alto rendimento.

Destinação das receitas e a fatia do CONI

Em termos financeiros, o “Win for Italia Team” segue a mesma lógica de premiação de outros jogos da mesma categoria. O prêmio aos jogadores corresponderá a 65% do total arrecadado. Após a dedução do fundo de prêmios, das comissões dos pontos de venda e do concessionário, além da parcela destinada às regiões autônomas especiais, o montante líquido restante será direcionado ao Comitê Olímpico Nacional Italiano.

Especificamente, a participação do CONI está fixada em 26,50% do faturamento total, calculada como a parcela residual da receita líquida. Trata-se de uma alocação significativa, pensada para financiar diretamente projetos olímpicos ligados à seleção italiana e para reforçar o vínculo entre o jogo público e o apoio ao esporte de alto desempenho em um momento estratégico do calendário olímpico.

O relatório técnico também deixa claro que, por se tratar de um jogo recém-criado, não é possível quantificar de imediato seu impacto financeiro nas contas públicas. Qualquer avaliação econômica dependerá do desempenho real após o lançamento do produto e da implementação das regras pela ADM.

As finanças do CONI e a busca por uma solução estrutural

Por trás da criação do “Win for Italia Team”, contudo, existe uma motivação mais profunda relacionada à situação financeira do CONI. Nos últimos anos, o orçamento do Comitê tornou-se cada vez mais frágil, sobretudo após a reforma promovida pelo Ministro da Economia e Finanças, Giancarlo Giorgetti, que transferiu tanto o financiamento quanto parte do poder decisório para a Sport e Salute, empresa estatal responsável pela gestão dos recursos esportivos.

Como consequência, o CONI passou a operar acima de sua capacidade financeira sustentável, especialmente em anos olímpicos, quando os custos com preparação de atletas, apoio às federações e atividades institucionais aumentam de forma significativa. Esse desequilíbrio tem obrigado o governo a intervir repetidamente com aportes extraordinários, incluindo o uso da chamada “reserva esportiva de 32%”.

A mesma situação já se manifestou no ano passado e, segundo projeções, tende a se repetir em 2026. Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de um mecanismo de financiamento mais estrutural e previsível, capaz de complementar as transferências públicas tradicionais e reduzir a dependência de soluções financeiras pontuais.

Jogo público e interesse coletivo: um equilíbrio delicado

O uso do jogo público para financiar atividades de interesse geral não é novidade na Itália. Loterias e jogos numéricos há muito contribuem para setores como cultura, assistência social e esporte. Nesse sentido, o “Win for Italia Team” se encaixa perfeitamente em um modelo já consolidado, baseado em um produto regulado e sob controle estatal para gerar receitas com destinação específica.

Ainda assim, a iniciativa levanta questionamentos mais amplos sobre a coerência das políticas públicas. De um lado, o discurso político e regulatório reforça a proteção dos cidadãos contra os riscos associados ao jogo, impondo limites rigorosos à publicidade de operadores licenciados. De outro, quando as necessidades de financiamento se tornam urgentes, o Estado volta a recorrer ao jogo público como uma fonte confiável de recursos.

Alguns analistas classificam essa tensão como uma forma de inconsistência institucional. Em uma leitura mais diplomática, ela reflete a dificuldade de conciliar objetivos de proteção social com a realidade fiscal e a necessidade de financiar bens públicos. O jogo legal é restringido em termos de visibilidade e promoção em nome da responsabilidade, mas continua sendo um pilar das finanças públicas quando são necessários recursos estáveis e imediatos.

Um jogo “para o esporte”, não “sobre o esporte”

Por fim, vale destacar a própria natureza do “Win for Italia Team”. Não se trata de um jogo sobre esporte, mas de um jogo em favor do esporte. Não há qualquer vínculo com desempenho atlético, competições ou mérito esportivo. Essa distinção pode alimentar críticas de quem defende que o financiamento do esporte deveria se apoiar em instrumentos mais alinhados com seus valores essenciais.

Ao mesmo tempo, é difícil ignorar o caráter pragmático da escolha. Em um contexto de restrições orçamentárias e pressão crescente sobre as contas públicas, o jogo público representa um canal de financiamento prontamente disponível e fortemente regulado. Ele pode não resolver todas as contradições de fundo, mas responde a uma necessidade concreta: garantir continuidade e estabilidade ao apoio financeiro ao esporte italiano, especialmente no caminho para os próximos Jogos Olímpicos.

Assim, o “Win for Italia Team” surge como um compromisso tipicamente italiano, suspenso entre princípios declarados e necessidade financeira. Avaliar sua eficácia oferecerá pistas importantes sobre os rumos da relação entre o Estado, o jogo legal e as políticas de interesse público.

Este artigo foi publicado originalmente em italiano em 16 de dezembro de 2025.

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