Cassinos cripto e plataformas de jogos baseadas em blockchain estão se consolidando como uma parte cada vez mais relevante do setor de iGaming, impulsionados principalmente pela demanda por pagamentos mais rápidos e pela possibilidade de atender jogadores em diferentes países. Ao mesmo tempo, a supervisão regulatória vem se intensificando em diversos mercados, especialmente na América Latina, onde o Brasil está implementando um modelo regulamentado para apostas online com exigências de conformidade mais rigorosas. Para os provedores de plataformas, o sucesso já não depende apenas de lançamentos rápidos, mas da capacidade de oferecer infraestrutura estável, meios de pagamento localizados e liquidez de jogadores escalável em um ambiente marcado por jurisdições fragmentadas.
Para entender melhor essas mudanças, a SiGMA News conversou com Tobias Fogelberg, Diretor Comercial da Cubeia, empresa sueca de software B2B para iGaming. Nesta entrevista exclusiva, ele destaca que o gaming com criptomoedas só pode ser sustentável quando sustentado por liquidez sólida, pagamentos confiáveis e plataformas adaptáveis. Segundo ele, os jogadores estão menos interessados na tecnologia blockchain em si e mais preocupados com funcionamento fluido da plataforma e rapidez nos saques.
Fogelberg também aborda os desafios de operar redes de pôquer em múltiplas jurisdições regulamentadas e as mudanças no comportamento dos jogadores nativos do universo cripto. Ele aponta ainda a América Latina como uma região complexa, marcada por diferentes métodos de pagamento, riscos cambiais e regras regulatórias específicas em cada mercado.
Infraestrutura sustentável além do hype das criptomoedas
SiGMA News: Os cassinos cripto evoluíram além da fase experimental. O que diferencia uma infraestrutura de gaming com criptomoedas sustentável de iniciativas oportunistas de curto prazo?
Tobias Fogelberg, CCO of Cubeia: It really comes down to whether you are building something that lasts or just chasing short-term spikes. A lot of opportunistic setups rely heavily on bonuses and traffic tricks to grow fast, but there is not much underneath in terms of retention or long-term stability. That works… until it does not. The sustainable ones are built differently, with solid liquidity, reliable payments, and the flexibility to adapt as regulation shifts. Especially in crypto, where things move quickly, if your setup is not stable, it gets exposed fast. The real test is whether you can perform consistently over time, not just during a hype cycle.
SiGMA News: Do ponto de vista das plataformas, a blockchain realmente aumenta a transparência e a equidade nos ecossistemas de pôquer e cassino, ou a confiança ainda depende fundamentalmente da marca?
Fogelberg: A blockchain realmente acrescenta alguns elementos importantes, como mecânicas de jogo comprovadamente justas (provably fair) e transações transparentes, e isso certamente ajuda. Mas, na prática, a maioria dos jogadores não interage diretamente com a tecnologia. Eles querem saber se a plataforma funciona bem, se os jogos rodam sem problemas e quanto tempo leva para receber um saque. Portanto, sim, a blockchain pode fortalecer a confiança, mas não substitui os fundamentos. Se a experiência do produto não for boa, a tecnologia por si só não resolve.
SiGMA News: A liquidez define o sucesso no pôquer online. Quais são os maiores desafios estruturais para criar redes de pôquer escaláveis e em conformidade em jurisdições fragmentadas?
Fogelberg: O principal desafio é a fragmentação, e ela ocorre em vários níveis. Existem mercados divididos por diferentes regulações, múltiplas moedas, e operadores com estratégias ligeiramente distintas. Isso torna muito mais difícil escalar uma rede compartilhada do que parece. O equilíbrio necessário é compartilhar liquidez sem comprometer a independência dos operadores. Por isso, as redes híbridas estão ganhando relevância. Elas permitem que operadores acessem um pool maior de jogadores, mantendo ao mesmo tempo controle sobre sua própria marca e estrutura operacional.
SiGMA News: Como os jogadores nativos do universo cripto estão mudando os padrões de comportamento no pôquer online, e o que isso significa para o design das redes e para a gestão de risco?
Fogelberg: Eles tendem a ser mais reativos, menos fiéis às plataformas e mais confortáveis com volatilidade. Isso aumenta a atividade, mas também traz maior rotatividade de jogadores e maior exposição a abusos de bônus e fraudes. Por isso, as plataformas precisam evoluir. Sistemas estáticos já não funcionam bem; é necessário monitoramento em tempo real, programas de recompensas mais flexíveis e métodos mais inteligentes de gestão de liquidez. Caso contrário, o ambiente pode se tornar instável rapidamente.
América Latina: um mercado de crescimento desafiador
SiGMA News: A América Latina costuma ser descrita como a próxima grande fronteira de crescimento. Do ponto de vista comercial, o que os operadores costumam subestimar ao entrar em mercados como Brasil e México?
Fogelberg: O desafio está na execução, não na oportunidade. Existe demanda, sem dúvida, mas operar nesses mercados é mais complexo do que muitos imaginam. Pagamentos, regulamentação e comportamento dos jogadores são diferentes, e essas diferenças variam bastante mesmo dentro da própria região. Não basta simplesmente lançar a plataforma e esperar tração. É necessário localização adequada, métodos de pagamento alinhados ao mercado e uma estratégia clara de conformidade regulatória. Sem isso, até operadores bem financiados enfrentam dificuldades.
SiGMA News: Com o Brasil entrando em uma nova fase regulatória, como os provedores de plataforma devem equilibrar velocidade de entrada no mercado com estabilidade regulatória de longo prazo?
Fogelberg: A flexibilidade é fundamental. É importante se mover rápido, mas sem criar problemas no futuro. Se a plataforma for modular, é possível lançar com o que já está em conformidade hoje e ajustar conforme as regras evoluem. Se você se tornar muito rígido desde o início, provavelmente terá que refazer partes do sistema mais tarde — o que gera custos maiores e atraso no desenvolvimento.
SiGMA News: Como a volatilidade cambial, lacunas na infraestrutura de pagamentos e a adoção de carteiras digitais na América Latina influenciam os modelos de precificação e as estratégias de parceria?
Fogelberg: Esses fatores têm impacto direto. A volatilidade das moedas afeta as margens, e se os pagamentos não funcionam de forma fluida, isso impacta imediatamente a experiência do jogador. Qualquer atrito em depósitos ou saques costuma levar o usuário a abandonar a plataforma. Por isso, operadores precisam oferecer suporte a múltiplas moedas, modelos de preços flexíveis e parcerias sólidas com provedores de pagamento locais. As criptomoedas podem ajudar em alguns casos, mas também adicionam outra camada de complexidade, então precisam ser usadas com cuidado.
Uma nova era de competição entre plataformas
SiGMA News: Com a consolidação acelerando no setor de iGaming, você acredita que a infraestrutura das plataformas está se tornando mais verticalizada? Quais riscos isso pode representar para operadores menores?
Fogelberg: Existe, sim, um movimento em direção à integração vertical, que oferece maior controle e melhores margens. No entanto, isso também traz compensações, como menor flexibilidade e maior dependência de um único fornecedor. Além disso, pode se tornar mais difícil se diferenciar no mercado. Para muitos operadores, uma abordagem modularfaz mais sentido: você mantém controle sobre áreas estratégicas, mas ainda aproveita infraestruturas compartilhadas quando necessário.
SiGMA News: Em ambientes baseados em criptomoedas, onde a supervisão regulatória varia bastante, qual responsabilidade os provedores B2B devem assumir na incorporação de ferramentas de proteção ao jogador na infraestrutura?
Fogelberg: Hoje, essa responsabilidade é maior do que no passado. Não é mais algo que recai apenas sobre o operador. As plataformas precisam incorporar essas ferramentas diretamente no produto, incluindo recursos de jogo responsável, sistemas de detecção de fraude e mecanismos de combate à lavagem de dinheiro (AML). À medida que a regulamentação evolui, essa responsabilidade tende a aumentar ainda mais.
SiGMA News: Olhando para os próximos cinco anos, a maior transformação no pôquer online e nos cassinos cripto virá da harmonização regulatória, da inovação tecnológica ou das mudanças na economia dos jogadores?
Fogelberg: Os três fatores são importantes, mas a economia dos jogadores provavelmente será o principal motor de mudança. O custo de aquisição de usuários está aumentando, a concorrência está mais intensa, e isso está levando os operadores a focar mais em retenção, liquidez, eficiência e atendimento ao cliente. Tecnologia e regulamentação continuarão evoluindo em paralelo, mas a maior pressão vem do lado do negócio. É isso que, no final, vai determinar como as plataformas serão construídas no futuro.
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