A indústria de iGaming é conhecida por seu ambiente dinâmico, apostas altas e pressão constante. Os líderes desse setor enfrentam desafios únicos, lidando com o crescimento acelerado, a concorrência intensa e regulamentações em constante mudança. Em uma recente entrevista à SiGMA News, Leo Judkins, fundador do iGamingleader.com, abordou esses desafios e compartilhou insights valiosos sobre como desenvolver hábitos sustentáveis de alto desempenho na indústria.
O cérebro de alto desempenho em um ambiente de alta pressão
Judkins começa definindo um cérebro de alto desempenho como aquele que “está bem descansado, pouco estressado e sente que tem controle sobre os resultados”. Ele contrasta essa definição com a de um cérebro de baixo desempenho, caracterizado por estresse, exaustão e falta de controle. Esse ponto de partida destaca a importância de priorizar o bem-estar em uma indústria exigente. Seu enfoque no lado oposto — compreender o que não constitui um cérebro de alto desempenho — é uma abordagem inovadora que reforça a relevância da autoconsciência.
SiGMA News: Como é um cérebro de alto desempenho?
Leo Judkins: Ótima pergunta para começar. Um cérebro de alto desempenho é aquele que está bem descansado, pouco estressado e sente que tem controle sobre os resultados que pode influenciar. Vamos pensar no conceito pelo lado oposto.
Como é um cérebro de baixo desempenho? É alguém que está completamente estressado, certo? Alguém exausto, sem energia, incapaz de tomar decisões, sem controle sobre sua agenda, sem controle sobre os resultados de seu trabalho e que luta para realmente gerar impacto naquilo que é responsável.
Portanto, o oposto também é verdadeiro, certo? Um cérebro de alto desempenho é um cérebro bem descansado. Alguém que se sente energizado, mentalmente forte. Alguém que tem controle sobre suas decisões e seu tempo. E que não está apenas executando tarefas, mas também tomando decisões sobre o que precisa ser feito.
Os riscos da promoção acelerada e da microgestão
Um dos temas recorrentes na discussão de Judkins é a tendência da indústria de iGaming em promover profissionais rapidamente, muitas vezes sem que eles tenham tempo suficiente para desenvolver as habilidades de liderança necessárias. Ele aponta: “Temos uma base de talentos muito limitada… promovemos as pessoas muito rapidamente… as habilidades que elas possuem não se desenvolvem rápido o suficiente para acompanhar a nova responsabilidade”. Esse cenário acaba criando um ciclo problemático: os profissionais de alto desempenho são promovidos rapidamente, gerando lacunas em suas equipes anteriores e levando à microgestão em suas novas funções. Essa microgestão, por sua vez, resulta na perda de engajamento da equipe e, consequentemente, em uma queda na produtividade.
Leo Judkins: Acredito que autonomia também seja um tema importante que poucas pessoas discutem. Especialmente no setor de jogos, existe um grande medo do fracasso na liderança. Há um receio real de delegar decisões em vez de apenas delegar tarefas, e, como resultado, há muita microgestão. A microgestão acontece frequentemente porque as pessoas são promovidas rapidamente a posições de liderança devido à escassez de talentos qualificados. Então, contratamos alguém e, quando essa pessoa se destaca, promovemos rapidamente. Mas, como a promoção acontece de forma acelerada, suas habilidades não se desenvolvem no mesmo ritmo que sua nova responsabilidade. E isso leva a dois problemas.
Primeiro, há uma lacuna na equipe que a pessoa deixou para trás, e geralmente é uma lacuna grande, pois o melhor profissional foi promovido e saiu da equipe, certo? E agora, como foi promovido, ele sente uma espécie de síndrome do impostor, quer agradar e provar que merece estar naquela posição.
Mas, como há essa lacuna na equipe, ele acaba tendo que fazer os dois trabalhos, dobrando sua carga de trabalho e começando a microgerenciar a equipe. Como consequência, a equipe começa a se desengajar.
SiGMA News: Então a equipe perde autonomia?
Leo Judkins: Sim, e por isso perde o engajamento, deixa de se sentir motivada a desempenhar suas funções, passa a fazer apenas o mínimo necessário, chega e sai no horário exato, nunca faz nada além do essencial, certo?
Eu costumo dizer que nossos melhores profissionais frequentemente se tornam nossos maiores gargalos porque são promovidos, mas não recebem o suporte necessário para alcançar um estado de alto desempenho mental.
Gestão do tempo: além da produtividade
Judkins desafia a visão convencional de que a gestão do tempo se resume a aumentar a produtividade. Em vez disso, ele enfatiza a importância da tomada de decisões estratégicas.
SiGMA News: Por que tantos líderes bem-sucedidos enfrentam dificuldades com a gestão do tempo? Isso é inevitável?
Leo Judkins: Não, não é inevitável. Muitas pessoas acreditam que gestão do tempo tem a ver com produtividade e com a capacidade de realizar tarefas mais rapidamente, mas isso não é verdade.
Alto desempenho está mais relacionado ao que você escolhe não fazer. Trata-se de decidir o que você não vai mais fazer. Deixar de olhar todas as notificações que aparecem e parar de checar os e-mails a cada dois minutos. É sobre escolher onde focar sua atenção e evitar distrações.
Precisamos entender que todos os aplicativos que usamos em nossos celulares e laptops são monetizados. Todos geram receita com base na quantidade de atenção que conseguem capturar, certo? Então, todos eles são projetados para desviar nosso foco do que estamos fazendo no momento e nos puxar para dentro de suas plataformas.
Na batalha pela atenção, sua capacidade de manter o foco é o seu maior trunfo. E a gestão do tempo começa exatamente aí: na sua concentração e atenção. Pense na última vez que você assistiu a um filme sem olhar para o celular, certo? Todos nós lutamos contra isso. Temos dificuldade em lidar com o tédio. Mas quando surgem nossas melhores ideias? Geralmente no chuveiro, certo? Mas hoje em dia, não permitimos mais que nosso cérebro entre no chamado modo padrão. Um cérebro descansado é um cérebro de alto desempenho. E quais são os hábitos de alto desempenho na indústria?
O impacto da mentalidade de curto prazo
A indústria de iGaming, segundo Judkins, é fortemente influenciada por uma mentalidade de curto prazo, impulsionada por regulamentações em constante mudança e pela pressão para gerar receita imediata. Ele observa: “Tudo é voltado para o curto prazo… a maioria de nós pensa assim”, o que leva a práticas insustentáveis. Esse foco excessivo no imediato geralmente se traduz na tentativa de implementar mudanças drásticas de uma só vez, resultando em esgotamento e falta de impacto duradouro.
Leo Judkins: Existe uma interseção entre o seu bem-estar pessoal e seus hábitos de produtividade. Vamos começar identificando o problema. O grande desafio da indústria é que tudo gira em torno do curto prazo, certo? As regulamentações mudam o tempo todo, e a receita precisa ser gerada agora. Como consequência, a maioria de nós adota essa mesma abordagem em nossos hábitos diários. Tentamos mudar tudo de uma vez, fazendo mudanças radicais como parar de beber, cortar carboidratos ou ir à academia cinco vezes por semana. Fazemos tudo ao mesmo tempo. E, inevitavelmente, quando falhamos, desistimos completamente. O segredo para desenvolver hábitos de alto desempenho está em fazer pequenas mudanças, mas de forma consistente, para criar um efeito exponencial.
Pequenas mudanças, efeitos exponenciais
Judkins defende que, em vez de adotar transformações radicais e insustentáveis, o foco deve estar em mudanças pequenas e constantes. Ele destaca a importância da resiliência e da autocompaixão, afirmando: “Não se trata de nunca sair dos trilhos, mas sim de não ficar fora deles.” Essa perspectiva reforça a ideia de que o crescimento pessoal é um processo contínuo. Ele também alerta para os perigos do perfeccionismo, incentivando líderes a aceitarem a imperfeição e priorizarem o esforço consistente em vez de perseguirem padrões inalcançáveis.
Leo Judkins: O mais importante não é nunca sair do caminho, mas sim não permanecer fora dele. Quando inevitavelmente falhamos em algo que estamos tentando alcançar, a chave é simplesmente dar de ombros, voltar ao foco e continuar. Mas, na prática, muitas pessoas pensam: “Ah, estraguei tudo, então é melhor desistir de vez.”
Hábitos de alto desempenho são o oposto do que a maioria das pessoas imagina. Na verdade, eles têm mais a ver com evitar a autossabotagem. Trata-se de ser consistente, de abandonar o perfeccionismo – que é um dos principais motivos pelos quais as pessoas nunca começam algo ou desistem rapidamente quando tentam. O essencial é enxergar os hábitos como práticas contínuas, que precisam ser repetidas até se tornarem automáticas. Muita gente acredita que um hábito é algo que você simplesmente liga ou desliga, e que, se falhar um dia, é um fracasso completo. Mas errar faz parte do processo de aprendizado. Quando passamos a encarar os hábitos como algo a ser praticado, e não como uma jornada linear, começamos a compreender como realmente funcionam os hábitos de alto desempenho.
O segredo está em identificar quais hábitos são mais importantes para você. Para alguns, pode ser o descanso e a recuperação. Para outros, pode ser algo que mencionei antes, como delegar decisões em vez de apenas delegar tarefas. Para outros ainda, pode ser a capacidade de dizer “não” e estabelecer limites.
Desafios comuns e a síndrome do impostor
A conversa também aborda os desafios mais frequentes enfrentados pelos líderes do setor de iGaming: perfeccionismo, excesso de análise e a síndrome do impostor. Judkins aponta que essa sensação de inadequação é agravada pela constante comparação social impulsionada pelas redes online. Ele ressalta a importância da autocompaixão e da compreensão de que comparar sua trajetória com os destaques filtrados que as pessoas publicam online não é realista.
Leo Judkins: Os desafios mais comuns para os líderes de iGaming são quase sempre os mesmos. Perfeccionismo, excesso de análise e síndrome do impostor são os maiores obstáculos. E a maioria das pessoas não admite isso, porque sentem que precisam provar que merecem estar onde estão.
Esse é um problema social. Você se compara ao que vê no LinkedIn ou no Instagram e mede sua vida pelo que as pessoas escolhem exibir. Você olha para o próprio dia a dia e pensa que sua vida é ruim porque não parece tão brilhante quanto o que vê no feed de outra pessoa. E aí vem aquela voz interna que fica repetindo que você não é bom o bastante – é assim que a síndrome do impostor se instala. Para compensar, você começa a trabalhar mais do que todo mundo para provar que merece estar naquela posição. Mas, se isso não for resolvido, o resultado inevitável é o esgotamento. Algumas pessoas saem da indústria antes que isso aconteça, mas muitas acabam chegando ao limite antes de perceberem o problema.
O farol e a embarcação
Para ilustrar a importância da liderança sustentável, Judkins apresenta a metáfora do farol e da embarcação. Ambos ajudam barcos a chegar em segurança ao porto, mas de maneiras diferentes: enquanto o farol ilumina o caminho, a embarcação empurra e puxa. Líderes eficazes, segundo ele, devem agir como um farol – fornecendo orientação, inspiração e uma visão clara – em vez de se prenderem apenas às tarefas imediatas. Este conjunto de ações exige delegar responsabilidades e criar um ambiente onde os erros sejam encarados como oportunidades de aprendizado.
SiGMA News: Como os líderes podem desenvolver estratégias de desempenho sustentável, tanto para si mesmos quanto para suas equipes?
Leo Judkins: A comparação que eu gosto de fazer é a do farol e da embarcação. Ambos têm a mesma função: garantir que os barcos cheguem ao porto com segurança. Mas um faz isso puxando e empurrando os barcos até o destino, enquanto o outro simplesmente ilumina os perigos no caminho. A primeira pergunta que um líder deve se fazer é: “Que tipo de líder eu gostaria de ter?” Prefiro alguém que me guie como um farol, ou alguém que me empurre e controle cada passo? Para a maioria dos líderes, o verdadeiro desafio é abrir mão do controle e aprender a delegar não apenas tarefas, mas também decisões.
Se você tem síndrome do impostor e sente que não pertence àquele ambiente, o maior medo é falhar. Você se convence de que qualquer erro significará que você não merece estar ali. Então, o que acontece? Você tenta evitar qualquer falha a todo custo.
E, como resultado, você não delega decisões – apenas distribui tarefas. Esse medo de errar é o que leva muitas pessoas a se tornarem microgestores.
O que um líder precisa entender é que não basta racionalizar que delegar é a coisa certa a fazer. É necessário praticar isso, permitir que sua equipe tome decisões e aceitar que, às vezes, elas vão errar – e que está tudo bem.
Como mencionei antes, um dos maiores desafios desse setor é o foco no curto prazo. A prioridade sempre é a receita do momento. Ao mesmo tempo, as regulamentações estão em constante mudança, criando duas forças opostas: de um lado, as metas comerciais precisam ser atingidas; do outro, há as exigências de conformidade e regulamentação. Equilibrar essas duas pressões não é fácil – e é aí que a síndrome do impostor se manifesta para muitas pessoas.
Desenvolvimento Profissional Holístico
Judkins conclui abordando o conceito de desenvolvimento profissional holístico, destacando que mudanças positivas e sustentáveis exigem um foco em ações viáveis. Ele incentiva os líderes a identificarem seu “primeiro dominó” — uma mudança simples e alcançável que gera um efeito cascata — em vez de tentarem transformar tudo de uma vez. Ele também ressalta o impacto transformador do sono e a importância de criar listas de “não fazer” como hábitos pessoais que contribuem para o bem-estar geral e um desempenho mais eficiente.
SiGMA News: O que inspirou sua transição da indústria para o que você faz hoje?
Leo Judkins: No meu caso, foram basicamente dois fatores. Primeiro, fui promovido muito rápido. Fui o diretor mais jovem da BetVictor e, com isso, enfrentei a síndrome do impostor, o medo do fracasso e aquela sensação de que eu não pertencia ali. Sempre digo que o seu caos pode virar sua mensagem.
Por muito tempo, eu lutei com isso. Lembro do meu primeiro encontro como diretor, uma reunião de receita, cercado por outros diretores muito mais experientes do que eu. Eu era responsável por CRM e retenção, mas nem sequer sabia como os custos de bônus eram calculados. Mas para quem eu perguntaria? Acabava de ser promovido a diretor — se eu perguntasse, iriam perceber que fizeram a escolha errada. Isso me levou a beber todas as noites. Uma garrafa de vinho por dia para relaxar. Comecei a trabalhar cada vez mais. Tinha acabado de ter um filho. Ganhei muito peso rapidamente. Estava sempre exausto e, em determinado momento, temi que não chegaria a ver meu filho crescer. Chegou a esse ponto, e eu não sabia como sair dessa situação. Busquei ajuda de um coach, perdi 35 quilos, transformei minha vida e, de repente, muitas pessoas começaram a me perguntar como eu tinha conseguido. Isso me inspirou a ajudar outras pessoas. Me certifiquei como nutricionista, depois como coach do sono, especialista em gerenciamento de estresse e, mais tarde, coach de alta performance.
Desde então, pedi demissão do cargo de diretor no auge da minha carreira, no meio do lockdown, sendo um expatriado em um país estrangeiro e com o primeiro financiamento da casa recém-assumido. Abri meu próprio negócio, e tem sido incrível. Já se passaram quatro anos. Treinei mais de 200 líderes do setor de iGaming, desde gigantes como Entain e Flutter até startups e fundadores. O impacto que esse trabalho tem sobre eles, suas famílias e equipes tem sido algo realmente inspirador.
SiGMA News: Desenvolvimento profissional holístico – do que se trata? Como funciona e de que forma pode ajudar?
Para começar, acho que um dos grandes problemas é a falta de tempo para descobrir o que realmente precisa ser feito. Outro problema comum é que, na maioria das empresas, você participa de um curso de treinamento e sai supermotivado pelos dois dias de programa. Você recebe materiais excelentes, mas depois eles acabam esquecidos na gaveta. E, quando volta ao trabalho, percebe que tudo ficou acumulado, dobrando sua carga. No fim, a maioria das pessoas não coloca nada em prática. Porque mudar comportamentos é difícil. O desenvolvimento profissional holístico trata de encontrar as ações certas e viáveis. Todo mundo já sabe o que deveria fazer, mas simplesmente não faz. Vivemos numa era de consumo excessivo de informação, onde achamos que o segredo é absorver mais e mais conteúdo. Mas isso só gera sobrecarga. Você passa a saber demais, mas não sabe por onde começar, tornando o problema ainda pior. Na verdade, não existe um caminho único e correto. O segredo está em testar algo, insistir por um tempo e ver se funciona. Depois, permitir-se falhar e experimentar outra abordagem.
Muita gente tem dificuldade em identificar a mudança mais impactante que poderia fazer. É como um efeito dominó: se você descobre o primeiro dominó certo, ele desencadeia uma reação positiva em todo o resto. E é exatamente nisso que focamos no coaching. Identificamos esse primeiro dominó para que tudo se torne mais fácil. Pode parecer complexo, mas, na prática, trata-se de adotar um hábito diário, nem que seja por cinco minutos. O importante é reservar tempo para isso, aceitar os tropeços, aprender com o processo e seguir em frente.
SiGMA News: Para encerrar, há algum hábito pessoal que gostaria de compartilhar?
Leo Judkins: O sono é, sem dúvida, o maior fator de mudança. O interessante sobre o sono é que ele sempre acaba sendo deixado por último. Se você quer mais tempo de qualidade com seu parceiro, o que faz? Assiste a um filme, maratona mais um episódio na Netflix e dorme menos. Se quer mais tempo para trabalhar ou para ir à academia, o que faz? Acorda mais cedo e, de novo, dorme menos. Mas a privação de sono afeta a saúde mais rápido do que a falta de comida. Passar longos períodos dormindo pouco tem o mesmo efeito que estar legalmente embriagado.
Existe um ponto intermediário: a maioria das pessoas dorme apenas seis horas e meia por noite, mas isso significa que provavelmente estão operando com apenas metade da energia que poderiam ter no início do dia.
Agora, respondendo diretamente à sua pergunta, para mim, o sono é inegociável. Ele foi um divisor de águas para o meu bem-estar. No lado profissional, o maior impacto veio da criação de uma “lista de não fazer”. Todos os dias, temos uma infinidade de tarefas possíveis. Mas, em vez de me perguntar “o que eu deveria priorizar?”, eu tomo decisões difíceis sobre aquilo que eu gostaria de fazer, mas que na verdade não deveria, e coloco isso na minha lista de não fazer. Esse hábito tem sido transformador. Extremamente poderoso.
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