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Criptomoedas x carteiras digitais no iGaming: quem é mais ágil?

David Gravel
Escrito por David Gravel
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Pagamentos instantâneos no iGaming deixaram de ser uma ambição futura. Como destacamos na Parte Um desta série de cinco matérias da SiGMA News, os jogadores agora esperam saques em tempo real — na mesma velocidade das apostas ao vivo e dos depósitos instantâneos. No entanto, à medida que os operadores se esforçam para atender a essas expectativas, surge uma questão central: na disputa entre criptomoedas e carteiras digitais no iGaming, qual tecnologia é capaz de oferecer velocidade e segurança ao mesmo tempo?

Não é apenas uma corrida tecnológica, mas uma verdadeira disputa de forças — de um lado, as criptomoedas; do outro, as carteiras digitais, com a confiança e o controle sendo o campo de batalha entre elas.

Velocidade não é tudo — mas é onde a disputa começa

Os pagamentos via criptomoeda há muito tempo são apontados como a forma mais rápida de acessar os fundos dos jogadores. Dependendo da rede, as transações podem levar de alguns segundos a poucos minutos. Isso pressiona provedores tradicionais como PayPal, Skrill e Visa Direct, que normalmente prometem saques em até 30 minutos e, cada vez mais, cumprem essa promessa.

Ainda assim, velocidade sozinha não garante fidelidade. Como destacou Toby Sucharov, CTO da Yaspa, em entrevista à SiGMA News: “Se você quer saques em tempo real, seus modelos antifraude precisam estar integrados, não acoplados depois. Você não consegue ser rápido sem ser inteligente.”

A verdadeira pergunta não é apenas qual método é mais veloz, mas qual oferece o melhor equilíbrio entre rapidez, confiança e rastreabilidade. A velocidade traz concessões — e, no caso das criptomoedas, os maiores desafios não são técnicos.

Onde as criptomoedas ainda tropeçam

Do ponto de vista regulatório, as carteiras digitais são mais previsíveis. A maioria das jurisdições dá sinal verde a esses provedores: eles são licenciados, rastreáveis e seguem regras claras de KYC (Conheça Seu Cliente) e AML (Prevenção à Lavagem de Dinheiro). As criptomoedas, por outro lado, ainda operam em uma zona de incerteza jurídica, com regras em constante mudança.

A Autoridade de Jogos de Malta (MGA, na sigla em inglês) e alguns outros órgãos reguladores começaram a abrir as portas para a integração de criptomoedas — mas de forma cautelosa. Outros ainda mantêm essas portas fechadas. No caso de licenças da MGA, o uso de ativos virtuais exige aprovação prévia e total conformidade com as políticas de AML e KYC.

Innokenty Isers, CEO da Paybis, afirmou à SiGMA News no início do ano: “Os saques em cripto estão ganhando espaço, especialmente entre usuários experientes, que valorizam o acesso rápido aos ganhos. Mas, se a experiência do usuário não for fluida, os operadores correm o risco de perdê-los.”

Essa cautela regulatória é um fator determinante na disputa entre criptomoedas e carteiras digitais no iGaming, especialmente para os operadores que atuam sob múltiplas licenças. Em mercados regulamentados, isso faz toda a diferença. Um advogado britânico especializado em jogos de azar explicou à SiGMA News que, nesses ambientes mais rígidos, as criptomoedas perdem sua vantagem assim que são aplicadas medidas reforçadas de verificação, tornando as carteiras digitais a opção mais simples na prática.

O fator decisivo: emoção e comportamento

Do ponto de vista técnico, as criptomoedas oferecem controle direto, custódia própria, ausência de intermediários e alcance global. Mas, na prática, a adoção ainda é desigual. Segundo a Benzinga, em 2025, Alemanha e Reino Unido lideraram na Europa o interesse por buscas relacionadas a “cassino cripto” por habitante.

Os jogadores, contudo, buscam previsibilidade. Em entrevista à SiGMA News, Jason Heller, vice-presidente sênior da 5WPR, explicou: “É um gatilho emocional. Se você ganha, espera receber o dinheiro imediatamente. Se isso não acontece, você vai embora.”

Para a maioria dos apostadores, as criptomoedas ainda parecem uma aposta em si mesmas — um risco, não uma garantia. Já as carteiras digitais transmitem a mesma segurança do dinheiro em mãos. O que reforça que a verdadeira diferença entre os métodos é psicológica, não tecnológica. É a previsibilidade, mais do que a velocidade pura, que define em quem os jogadores confiam.

Os operadores também relatam maior volume de chamadas ao suporte ao cliente em pagamentos via cripto — devido a taxas de rede, erros em endereços de carteira ou atrasos causados por congestionamento da blockchain. Esses entraves representam custos e complexidade adicionais, que carteiras como PayPal e Skrill passaram décadas aperfeiçoando. Como observou Isers: “Stablecoins como USDT e USDC trazem a estabilidade necessária a um mercado de cripto extremamente volátil. Isso as torna ideais para o setor de jogos, onde a volatilidade pode comprometer o fluxo de caixa.”

Custos de transação e infraestrutura

As criptomoedas costumam se destacar por oferecer custos mais baixos, especialmente em pagamentos internacionais. No entanto, isso depende diretamente da blockchain utilizada, do nível de congestionamento da rede e de quem arca com as taxas de gas — se o operador ou o jogador.

Já as carteiras digitais e soluções baseadas em cartões tendem a ter tarifas mais altas, mas oferecem vantagens adicionais: resolução de disputas, ferramentas antifraude e acordos de suporte em tempo real — recursos que a maioria das soluções em cripto ainda não consegue igualar.

Em média, as transações via carteira digital custam entre 1% e 3% por transferência. Enquanto isso, as taxas de gas na blockchain podem variar de alguns centavos na rede Tron a vários dólares na Ethereum durante períodos de congestionamento. Essa imprevisibilidade faz com que as equipes financeiras mantenham cautela.

Um CTO britânico disse à SiGMA News: “Avaliamos o uso de cripto a cada trimestre. Na prática, muitas vezes não sai mais barato quando você considera todo o risco operacional e o suporte manual necessário.”

Controle do operador e automação de pagamentos

É nesse ponto que as criptomoedas recuperam terreno. Para operadores que possuem carteiras internas ou reservas em stablecoins, os pagamentos em cripto podem ser profundamente integrados às plataformas. A automação é mais fluida, os pagamentos em lote são mais simples e as liquidações independem de eventuais períodos de inatividade de terceiros. O mesmo não pode ser dito das carteiras digitais, que ainda podem exigir aprovação manual, sofrer atrasos devido a APIs bancárias ou operar apenas em horários restritos, dependendo da jurisdição. Para muitas plataformas, a disputa entre cripto e carteiras digitais no iGaming se resume a esse dilema central: flexibilidade de integração versus confiabilidade institucional.

Como destacou Innokenty Isers, CEO da Paybis: “Os modelos híbridos que oferecem tanto moeda fiduciária quanto cripto são o ponto ideal. Eles unem a familiaridade e estabilidade do dinheiro tradicional com a velocidade, privacidade e eficiência das criptomoedas. É onde enxergamos o maior potencial de longo prazo.”

Ainda assim, Toby Sucharov, CTO da Yaspa, faz um alerta: “A automação de pagamentos só funciona se as regras de compliance e verificação de acessibilidade forem tratadas antecipadamente. Seja cripto ou moeda fiduciária, se você ainda precisa de um humano conferindo um PDF, a cadeia já está quebrada.”

O modelo híbrido em ascensão

Na prática, os operadores mais avançados não estão escolhendo entre um ou outro método — estão oferecendo ambos. E estão integrando essas opções a estruturas mais amplas de liquidação em tempo real, AML automatizado e painéis de acompanhamento de pagamentos ao vivo.

“Oferecer ao menos uma forma de pagamento instantâneo já é o mínimo esperado”, afirma Sucharov. “Pode ser via Visa Direct, Trustly ou uma carteira cripto, mas o modelo precisa ser instantâneo — e o sistema de risco, preditivo.”

Grandes marcas como William Hill e LeoVegas já publicam prazos claros de saque e oferecem rastreio em tempo real do status do pagamento. Métodos como o Visa Direct, por exemplo, permitem que o valor chegue em até quatro horas, quando disponíveis — o que ajuda a reforçar a confiança, independentemente da opção escolhida.

A transparência muda o comportamento. Quando o caixa mostra um pagamento via Visa Direct após 15 minutos e uma confirmação em cripto é recebida em apenas 3 minutos, a escolha passa a ser racional. Números reais constroem confiança real.

Desde 9 de outubro de 2025, o SEPA Instant tornou-se obrigatório em toda a zona do euro, conforme o Regulamento Europeu de Pagamentos Instantâneos (EU 2024/886), exigindo que transferências em euros elegíveis sejam liquidadas em segundos. Outras medidas seguirão em fases até 2027. No Reino Unido, o sistema CHAPS exigirá o uso dos códigos de finalidade ISO 20022 em todos os pagamentos a partir de novembro de 2027, estabelecendo um novo padrão de transparência e interoperabilidade entre diferentes sistemas de pagamento.

Essa evolução aumenta a pressão sobre os provedores de cripto, que agora precisam competir não apenas em velocidade, mas também em integração, precisão e eficiência nos processos de prevenção à lavagem de dinheiro (AML).

Após equilibrar velocidade, custo e controle de experiência do usuário, o fator decisivo geralmente é o conjunto de regras vigente. No fim das contas, a regulamentação — e não a tecnologia — é o que define qual método de pagamento prevalece.

Crypto or digital wallets? It depends on the rulebook

Em termos práticos, tudo depende da jurisdição em que o operador está licenciado. As criptomoedas prosperam em locais mais abertos, como Curaçao e Nevis, enquanto em mercados altamente regulados, como Reino Unido ou Suécia, o rigor normativo mantém a maioria dos operadores atrelada às carteiras digitais.

Contudo, independentemente do método utilizado, a verdadeira disputa entre cripto e carteiras digitais no iGaming já não está mais na tecnologia — mas na confiabilidade e velocidade da entrega dos pagamentos. Hoje, a diferença real está entre os operadores que conseguem oferecer saques instantâneos e confiáveis — e os que não conseguem.

À medida que o setor avança rumo a uma automação ainda maior, a próxima fronteira será a mitigação de riscos. Quanto mais rápido o pagamento, mais rápida também é a tentativa de fraude — e o setor já percebeu isso. Na Parte Três desta série da SiGMA News, exploraremos como os sistemas em tempo real estão transformando a prevenção à fraude e o que os operadores precisam desenvolver para se manterem à frente.

*A Parte Um desta série exclusiva da SiGMA News analisou os desafios culturais e regulatórios que ainda atrasam os pagamentos em tempo real para jogadores.

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