A BetHog levantou US$ 10 milhões em uma rodada Série A e utilizou os recursos para lançar a Sentient Studios, uma plataforma B2B que permite a operadores de cassino substituir dealers tradicionais de cassino ao vivo por avatares com inteligência artificial. A proposta era direta: o modelo de live dealer, da forma como existia até então, estava quebrado. Dealers eram contratados com salários mínimos, trabalhavam em turnos noturnos, muitas vezes em idiomas que não eram sua língua nativa, seguiam roteiros engessados e ainda eram penalizados por qualquer erro. A permanência média no cargo era de apenas alguns meses. O resultado, segundo a empresa, era que mais de 95% das transmissões eram monótonas, pouco envolventes e facilmente esquecíveis. A Sentient Studios acredita que a IA pode ser mais “humana” do que isso.
Para entender para onde esse movimento pode levar a indústria, a SiGMA News conversou com exclusividade com Nigel Eccles, cofundador e CEO da BetHog, em uma entrevista franca sobre confiança, regulamentação, ética e se a era dos live dealers realmente entregou aquilo que prometia.
Live dealer: fracasso ou evolução?
Durante quase uma década, o formato de cassino ao vivo foi vendido aos jogadores como a experiência mais próxima possível de sentar-se em uma mesa de cassino física. Operadoras investiram pesado em estúdios, equipamentos de transmissão e programas de treinamento para dealers. Porém, na prática, a realidade muitas vezes esteve longe desse ideal.
Eccles não acredita que o modelo tenha fracassado completamente, mas reconhece suas limitações. “O live dealer foi muito bem-sucedido. As pessoas realmente buscam entretenimento. Minha crítica é que, em 80% a 90% das vezes, ele não entrega o que promete. A promessa é de uma experiência divertida e envolvente com o dealer, mas isso simplesmente não acontece. Nós acreditamos que conseguimos fazer isso melhor com avatares movidos por IA.”
Os jogadores confiarão em um dealer com IA?
A confiança talvez seja o maior desafio. Apostadores costumam ser supersticiosos. Quando um jogador está diante de um dealer humano, ele consegue acompanhar uma sequência física de acontecimentos. Com um avatar de IA, essa transparência tangível desaparece, e alguns usuários podem questionar se o software está fazendo algo além de simplesmente distribuir as cartas.
Eccles rebate a ideia de que confiança depende exclusivamente da presença física de um humano. “Existe mais de uma maneira de conquistar a confiança das pessoas. Uma delas é ter um dealer real com cartas reais, e isso já se mostrou eficaz. A outra é construir um produto de alta qualidade e uma marca em que as pessoas confiem ao longo dos anos.”
Ele cita como exemplo os milhões de jogadores que utilizam slots de fornecedores como Pragmatic diariamente sem questionar a integridade do software. A tese é que os jogadores já demonstraram disposição para confiar em produtos digitais conhecidos e que essa confiança é construída pela consistência e pela reputação da marca, e não apenas pela presença física.
Privacidade versus personalização
Dealers com IA introduzem novos desafios éticos. Os sistemas podem ser treinados para acompanhar o histórico de sessões do jogador, lembrar seu nome e adaptar o estilo de comunicação de acordo com o perfil do usuário. Em um contexto adequado, isso pode parecer um excelente atendimento ao cliente. Porém, em um ambiente de apostas, uma IA personalizada incentivando constantemente o jogador a continuar apostando levanta questões éticas relevantes, especialmente quando o usuário pode estar tentando recuperar perdas.
Eccles reconheceu que o setor ainda está aprendendo a lidar com essas questões. “A IA não é determinística, então ela pode agir de maneiras que não previmos”, afirmou. “Levamos o jogo responsável muito a sério. Não queremos incentivar comportamentos problemáticos. Monitoramos regularmente como a IA interage com os jogadores e avaliamos se isso pode se tornar algo preocupante.”
A IA vai eliminar empregos ou criar novos?
A automação inevitavelmente gera preocupações trabalhistas. Hoje, milhares de empregos de live dealer existem ao redor do mundo, muitos deles em regiões de baixa renda. O modelo da Sentient Studios ameaça substituir parte dessas funções. Eccles não evitou o tema: “Bacará é um trabalho extremamente mecânico. Pelo que sei, as pessoas não gostam disso, de ficar ali repetindo movimentos automaticamente o tempo todo.”
Ele acredita que, à medida que a IA assumir tarefas repetitivas e operacionais, surgirão novas oportunidades em funções que exigem habilidades genuinamente humanas. “A IA ainda não é muito boa em entretenimento, espontaneidade e empatia. Os humanos são melhores nisso. Então, conforme usamos IA para funções mais básicas, vamos criar novas funções para aquilo em que os humanos realmente se destacam.”
Limites de controle para operadores
A ideia de terceirizar a experiência do dealer para uma plataforma externa de IA naturalmente gera preocupações entre operadoras de cassino em relação à identidade de suas marcas. Como o dealer frequentemente representa a “cara” pública do cassino, entregar essa função a um algoritmo desenvolvido e operado por terceiros significa abrir mão de parte do controle — algo que muitas empresas relutam em fazer.
Eccles buscou tranquilizar o mercado: “Os operadores terão controle total sobre a aparência do dealer, a identidade visual do cassino e até a personalidade do dealer, dentro de determinados parâmetros.”
Ele acrescentou que, caso a operadora possua um embaixador de marca, a Sentient Studios poderá replicar esse embaixador digitalmente para atuar como dealer, permitindo que as empresas levem seus relacionamentos de marca para o ambiente de cassino ao vivo sem os custos logísticos de um estúdio físico.
A mecânica oculta do RNG
A classificação regulatória talvez seja o tema mais sensível para a Sentient Studios. Em muitas jurisdições, jogos baseados em RNG (Gerador de Números Aleatórios) e jogos com live dealer possuem classificações regulatórias completamente distintas, sendo que as mesas ao vivo geralmente exigem licenças mais rígidas e caras. Um dealer com aparência “ao vivo”, mas operando sobre mecânicas de RNG, pode embaralhar essas fronteiras regulatórias.
Eccles esclareceu: “A IA não influencia o funcionamento central do jogo nem sua integridade. Isso é controlado exclusivamente pelo RNG.” Ele acredita que os reguladores irão analisar com atenção os impactos da IA sob a ótica do jogo responsável, mas, no que diz respeito à integridade do jogo e à classificação regulatória, sua posição é clara. O avatar é apenas a interface — o motor continua sendo a mesma infraestrutura de RNG que sustenta grande parte do mercado de cassino online.
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