O mercado de iGaming na África está entrando em uma nova fase de crescimento acelerado e amadurecimento. Avaliado em US$ 2,29 bilhões em 2026, o setor tem projeção de alcançar US$ 4,10 bilhões até 2031, registrando uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 12,32%. O continente adotou de forma consistente um modelo centrado em dispositivos móveis. De acordo com o relatório Africa Gaming Market Report 2026, da Mordor Intelligence, mais de 95% dos 349 milhões de jogadores africanos utilizam smartphones para acessar jogos e plataformas de entretenimento digital. Mercados como Nigéria, Quênia e África do Sul lideram essa expansão, impulsionados por sistemas de pagamentos móveis e pela evolução da infraestrutura tecnológica.
Evolução regulatória
O ano de 2026 poderá marcar um momento histórico para a indústria de jogos na África, com a possível assinatura do primeiro acordo regulatório multilateral entre países do continente. A iniciativa pretende harmonizar medidas relacionadas ao jogo responsável, sistemas de pagamento e compartilhamento de dados entre jurisdições. O avanço demonstra o aumento da confiança no setor e evidencia seu processo de amadurecimento. Com operadores multinacionais ampliando seus investimentos e novos mercados surgindo em diferentes regiões, a indústria africana de iGaming não apenas cresce em tamanho, mas também se transforma em um ecossistema mais estruturado, competitivo e alinhado aos padrões globais.
No entanto, crescimento acelerado por si só não garante sucesso. Operadores enfrentam desafios constantes relacionados à regulamentação, às mudanças no comportamento dos jogadores e ao aumento da concorrência. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Cameron Green, Country Manager da Amusnet África do Sul, falou sobre os fatores que estão remodelando o cenário do iGaming na África do Sul e em outros mercados do continente. Segundo ele, para operadores, fornecedores e investidores, a diferença entre prosperar e perder relevância no mercado africano está na capacidade de dominar os fundamentos do negócio e executá-los de forma consistente.
Dados como motor de crescimento
“Os dados são a base de tudo. Não é possível tomar decisões adequadas sem dados”, destacou Green.
Historicamente, os dados eram utilizados como uma ferramenta de apoio para validar decisões que já haviam sido tomadas. Na visão do executivo, esse papel está mudando radicalmente. “Os dados certamente se tornarão um motor de crescimento. A forma como você utiliza os diferentes pontos de dados determinará o que será oferecido ao mercado. Com o avanço da tecnologia e das inovações disponíveis hoje, conseguimos trabalhar em níveis extremamente detalhados, e isso será fundamental para alcançar o sucesso.” Para Green, empresas capazes de transformar informações em estratégias concretas terão uma vantagem competitiva significativa nos próximos anos.
Construindo colaboração entre operadores e fornecedores
Green também ressaltou a importância do que ele chama de “ciclo de feedback” entre operadores e fornecedores.
“É preciso saber ouvir, ter equipes capazes de responder aos pontos de contato gerados pelos jogadores e, ao mesmo tempo, possuir criatividade para desenvolver novos tipos de jogos, em vez de apenas copiar ou replicar produtos já existentes”, explicou.
Segundo ele, operadores e fornecedores que conseguirem colaborar de forma eficiente para criar conteúdos originais e alinhados às preferências dos jogadores africanos terão maiores chances de sucesso. A valorização da originalidade torna-se ainda mais relevante diante da entrada crescente de empresas internacionais no continente. Organizações que enxergarem a África com respeito à sua diversidade cultural e demonstrarem interesse genuíno em compreender as preferências locais estarão mais preparadas para construir negócios sustentáveis.
Equilibrando crescimento e responsabilidade
Os modelos regulatórios variam significativamente entre os países africanos. A África do Sul segue aprimorando seu arcabouço regulatório, enquanto a Nigéria opera em um ambiente parcialmente regulamentado. Já o Quênia possui um modelo totalmente legalizado e regulamentado para o jogo online.
Green abordou diretamente essa questão ao explicar a postura da Amusnet diante da expansão dos negócios. “Quando você cresce, precisa fazê-lo de forma responsável, trabalhando em conjunto com os reguladores e entendendo as mudanças que estão sendo implementadas.”
Sua mensagem é clara: inovar não significa ignorar regras, mas sim desenvolver novas soluções de forma ética e em conformidade com a legislação. Empresas que constroem relacionamentos sólidos com jogadores, autoridades reguladoras e demais stakeholders desde o início tendem a alcançar melhores resultados no longo prazo.
Lições da expansão dos mercados
“É fundamental compreender que cada território possui características próprias e nuances específicas. A localização é extremamente importante”, afirmou Green. “Os jogos que fazem sucesso na África do Sul podem não ter o mesmo desempenho em países da África Francófona. Da mesma forma, determinados produtos desenvolvidos para outros mercados podem sequer ser compreendidos pelo público sul-africano.” Os números do setor reforçam essa percepção.
De acordo com o Conselho Nacional de Jogos da África do Sul (National Gambling Board), a indústria passou por uma transformação significativa nos últimos anos. Entre 2023 e 2024, a receita bruta do setor alcançou 59,3 bilhões de rands sul-africanos (aproximadamente US$ 3,1 bilhões), representando um crescimento de 25,7% em comparação ao período anterior. Já entre 2024 e 2025, a receita avançou ainda mais, atingindo 75 bilhões de rands (cerca de US$ 4,3 bilhões), um aumento de 26%. O principal motor desse crescimento foi o segmento de apostas online, que registrou expansão anual de 60% e se consolidou como a principal vertical do mercado. O volume total movimentado pela indústria alcançou 1,5 trilhão de rands (aproximadamente US$ 86,2 bilhões), enquanto as autoridades arrecadaram 5,8 bilhões de rands (cerca de US$ 335 milhões) em impostos e taxas. No período de 2024-2025, a indústria de jogos e apostas empregou mais de 33 mil trabalhadores.
Impulsionando a próxima onda de inovação
Olhando para o futuro, Green acredita que a inteligência artificial será uma das principais forças transformadoras do setor. No entanto, ele ressalta que a adoção da tecnologia deve ocorrer de forma estratégica, e não apenas por modismo.
“Podemos observar ganhos extraordinários de produtividade e crescimento exponencial dentro das organizações. Mas o mais importante é entender como implementar essas ferramentas, e não simplesmente automatizar tudo e deixar que funcionem sozinhas. É preciso compreender o propósito de cada aplicação dentro do negócio.”
A inteligência artificial oferece um enorme potencial para operadores de iGaming na África. Entre as possibilidades estão recomendações personalizadas de jogos baseadas em aprendizado de máquina, sistemas avançados de detecção e prevenção de fraudes e campanhas de marketing mais eficientes. Contudo, os operadores que alcançarão melhores resultados serão aqueles que implementarem essas tecnologias de forma estratégica, alinhadas a objetivos claros de negócio e a princípios éticos bem definidos.
O continente segue atraindo investimentos significativos de operadores e fornecedores globais interessados em participar dessa trajetória de crescimento. Ainda assim, os vencedores de longo prazo provavelmente serão aqueles que enxergarem a África não apenas como um mercado do qual extrair valor, mas como uma região com características únicas, oportunidades genuínas e milhões de consumidores que merecem experiências de jogo autênticas, seguras e de alta qualidade.
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