A modularidade deixou de ser apenas uma preferência técnica no iGaming. Para Arturs Zagurilo, CEO da GammaPlus, trata-se hoje de uma decisão estratégica que define a escalabilidade de um negócio e determina com que rapidez um operador consegue se adaptar, expandir e permanecer competitivo.
Na segunda parte da conversa de Zagurilo com à SiGMA News, o foco sai da economia do lançamento e passa para a infraestrutura. A Parte I analisou por que muitos operadores fracassam nos primeiros 18 meses, enquanto a Parte II investiga o que realmente define se uma empresa consegue escalar além desse estágio inicial.
Ao falar sobre a próxima fase da evolução da indústria de iGaming, Zagurilo afirmou que os operadores começam a perceber que arquitetura de plataforma, desenho de compliance e controle de dados não são apenas temas de bastidores, mas verdadeiras alavancas comerciais. “Hoje, modularidade não é uma preferência técnica. É uma estratégia de negócios que viabiliza velocidade, controle e crescimento sustentável”, explicou.
Controle sobre o código
À medida que os marcos regulatórios se tornam mais rígidos na Europa e em outros mercados, operadores dependentes de sistemas turnkey engessados costumam ter dificuldade para reagir rapidamente às mudanças. Para Zagurilo, o setor entra em uma fase em que a posse da plataforma está diretamente ligada à competitividade.
“Quando os operadores não são donos da própria plataforma, ficam dependentes de fornecedores para mudanças de produto, atualizações regulatórias, integrações e até para a velocidade de resposta ao mercado”, afirmou. “Essa falta de controle desacelera decisões e limita a diferenciação.”
Ele, no entanto, rejeita a ideia de que ter controle significa desenvolver tudo internamente.
“Ser dono não é escrever cada linha de código. É controlar as camadas que realmente importam: dados dos jogadores, lógica de CRM (Customer Relationship Management), pagamentos, UX (experiência do usuário) e a capacidade de adaptação rápida.”
Segundo Zagurilo, operadores que adotam modelos híbridos — mantendo controle sobre os sistemas centrais e estabelecendo parcerias estratégicas para outros componentes — estão melhor posicionados para proteger margens e escalar sem ficarem presos aos roadmaps de terceiros.
Compliance como mecanismo de crescimento
Enquanto a Parte I tratou a regulamentação como uma realidade operacional, Zagurilo aprofunda agora como a tecnologia pode transformar o compliance de obstáculo em facilitador. “O compliance só vira um gargalo quando é adicionado por cima da plataforma, em vez de ser incorporado à sua base”, afirmou.
Ele explica que integrar KYC (Conheça Seu Cliente), controles de AML (Prevenção à Lavagem de Dinheiro), ferramentas de jogo responsável e sistemas de relatórios diretamente na infraestrutura torna a expansão muito mais simples. “Entrar em novos mercados passa a ser um exercício de configuração, não um projeto de reconstrução.”
A automação é central nesse processo. “A plataforma certa automatiza fluxos de compliance, reduz intervenções manuais e minimiza erros humanos”, disse Zagurilo. “Isso diminui custos operacionais e encurta os prazos de aprovação junto a reguladores e provedores de pagamento.”
Ele acrescenta que a confiança gerada por processos sólidos de compliance vai além dos reguladores. “Jogadores sacam mais rápido, gateways de pagamento cooperam com mais facilidade e os reguladores veem uma operação madura. Essa confiança impacta diretamente conversão, retenção e oportunidades de expansão.” Sistemas rígidos, alerta ele, costumam exigir desenvolvimento customizado a cada mudança regulatória, o que pode limitar silenciosamente o crescimento em ambientes que evoluem rapidamente.
Dados em tempo real como vantagem competitiva
Além da arquitetura e do compliance, Zagurilo aponta o acesso a dados em tempo real como uma das vantagens competitivas mais subutilizadas do setor. “Dados em tempo real deixaram de ser algo ‘bom de ter’. Hoje são fundamentais”, afirmou.
Operadores que dependem de relatórios atrasados estão sempre reagindo quando as margens já foram impactadas. “Quando você trabalha com dados estáticos ou defasados, está sempre chegando tarde demais.”
A visibilidade em tempo real permite identificar sinais de churn, padrões de abuso de bônus, fricções nos pagamentos e ineficiências de campanhas no momento em que acontecem.
“Essa velocidade impacta diretamente as margens”, acrescentou. O problema, segundo ele, não é a quantidade de dados, mas sua utilidade. “O que ainda é pouco explorado são dados acionáveis, não dados brutos. Muitas plataformas coletam enormes volumes de informação, mas não os transformam em gatilhos operacionais.”
Outro ponto fraco é a fragmentação dos relatórios. “Marketing, CRM, pagamentos e compliance muitas vezes trabalham em silos, olhando dashboards diferentes. Os operadores que performam melhor têm visões unificadas e em tempo real, conectando comportamento do jogador a receita e risco.”
Escalar quebra processos antes da tecnologia
Zagurilo também desconstrói um mito comum sobre os desafios da escalabilidade. Ao contrário do que se pensa, a infraestrutura de performance raramente é o primeiro elemento a falhar. “Na maioria dos casos, quem quebra primeiro são os processos internos, não a tecnologia”, explicou.
Com o aumento do tráfego, aprovações manuais, fluxos de pagamento fragmentados e procedimentos de compliance desconectados tornam-se pontos de pressão. “Aprovações manuais, integrações mal estruturadas e equipes desconectadas não escalam. É aí que surgem atrasos, erros e frustração dos jogadores.”
As integrações costumam ser o segundo ponto crítico. À medida que os operadores adicionam mais provedores de pagamento e ferramentas regionais, integrações mal planejadas tornam-se cada vez mais frágeis.
Falhas puramente de performance tendem a aparecer mais tarde, quando as ineficiências de processo já limitaram a expansão. Para suportar escala global, as plataformas precisam ser “modulares, orientadas por APIs e baseadas em automação desde o primeiro dia”, com compliance, pagamentos e CRM configuráveis — e não engessados no código.
Expansão multijurisdicional exige disciplina estrutural
Ao buscar estratégias em múltiplos mercados, Zagurilo identifica um erro recorrente: subestimar as diferenças entre jurisdições. “A maioria dos operadores não percebe o nível de complexidade entre um mercado e outro”, disse.
Além das licenças, existem variações em formatos de relatórios, padrões de suporte, comportamento de pagamento e exigências de KYC. Ele também acredita que aplicar a mesma estratégia de CRM ou lógica de bônus em todos os mercados costuma resultar em queda de engajamento.
“Os operadores que escalam bem padronizam o núcleo e localizam as extremidades”, explicou. A arquitetura central e a lógica de dados devem permanecer consistentes, enquanto pagamentos, regras de compliance e UX precisam ser adaptáveis por configuração. A padronização excessiva, alerta ele, gera atrito regulatório e pior desempenho.
Um ecossistema de plataformas mais especializado
Olhando para os próximos três a cinco anos, Zagurilo prevê maior especialização no mercado de plataformas de iGaming. “Devemos ver muito mais especialização”, afirmou. Com custos de compliance em alta e margens mais apertadas, alguns fornecedores devem se consolidar, enquanto outros se concentrarão em nichos específicos, como pagamentos regionais ou jurisdições altamente reguladas. “O futuro não é uma única plataforma dominante. Será composto por menos players generalistas, mais especialistas e integrações muito mais estreitas em todo o ecossistema.”
Para operadores que estão entrando agora no mercado, as implicações são profundas. As decisões de infraestrutura e parcerias tomadas no lançamento se acumulam ao longo do tempo. “Você pode ajustar marketing, mudar bônus e até trocar de mercado”, concluiu Zagurilo. “Mas, se sua tecnologia e seus parceiros forem errados, tudo se torna mais difícil e mais caro.” Segundo ele, em um setor onde as barreiras de entrada são baixas, mas as barreiras de escalabilidade só aumentam, a arquitetura passa a ser destino.
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