A França está avançando na regulamentação de jogos que utilizam tecnologia blockchain e itens digitais que podem ser negociados por dinheiro. O governo enviou um projeto de regulamentação à Comissão Europeia, detalhando o formato dos arquivos de dados que as empresas deverão fornecer ao regulador nacional. Embora tenha caráter técnico, autoridades consideram essa iniciativa uma base importante para a criação de novas regras para jogos digitais.
A proposta explica como as empresas deverão enviar informações à Autorité nationale des jeux (ANJ), o órgão regulador do setor de jogos na França. A medida faz parte de um plano mais amplo para regulamentar jogos que utilizam objetos digitais monetizáveis (Jeux à Objets Numériques Monétisables – JONUM). Esses jogos combinam elementos tradicionais de videogames com características econômicas baseadas em tokens digitais únicos armazenados em redes blockchain, utilizados para verificar propriedade e registrar transações.
A França encaminhou a proposta à Comissão Europeia por meio do sistema TRIS (Technical Regulation Information System), que permite que outros Estados-membros da União Europeia avaliem se a medida está em conformidade com a legislação europeia e com as regras do mercado único.
Estrutura regulatória: regime experimental JONUM na França
A medida faz parte de uma legislação francesa mais ampla voltada para questões digitais, que estabelece um período experimental de três anos para jogos que utilizam objetos digitais monetizáveis.
Os legisladores franceses buscam responder ao crescimento de jogos online nos quais os jogadores podem obter ativos digitais — como NFTs ou tokens utilizados dentro dos jogos — que possuem valor econômico real e podem ser negociados em plataformas secundárias.
As autoridades francesas consideram que esses produtos não se enquadram totalmente nem como jogos de azar tradicionais nem como videogames convencionais. Por isso, foi criado um regime experimental regulamentado sob supervisão da ANJ.
O modelo permite que empresas desenvolvam jogos baseados em blockchain e Web3, ao mesmo tempo em que estabelece regras para prevenir abusos, lavagem de dinheiro e práticas desleais.
O papel dos dados na supervisão do mercado
O projeto de regulamentação se concentra na padronização dos dados que as empresas deverão enviar ao regulador, permitindo uma fiscalização mais eficiente.
O Decreto nº 2026-60 da França determina que operadores que utilizam objetos digitais monetizáveis devem fornecer à ANJ informações detalhadas sobre suas plataformas e sobre as interações dos usuários.
Entre as exigências, as empresas deverão disponibilizar dados sobre perfis de jogadores, sessões de jogo e atividades realizadas durante as partidas. Também será necessário registrar e reportar transações financeiras relacionadas à compra, troca ou transferência de objetos digitais monetizáveis. O decreto também define o formato técnico dos arquivos utilizados para transmitir esses dados. O sistema utilizará um formato padronizado, que poderá ser facilmente analisado por ferramentas de monitoramento regulatório, aumentando a eficiência da supervisão e facilitando a cooperação entre operadores e autoridades.
A notificação à Comissão Europeia é obrigatória conforme a Diretiva (UE) 2015/1535, que exige que os Estados-membros informem o bloco sobre regulamentações técnicas relacionadas a serviços digitais.
Como funcionam os jogos com objetos digitais monetizáveis
O modelo JONUM foi criado para esclarecer os limites entre jogos digitais e jogos de azar.
Nesse tipo de jogo, os jogadores não recebem dinheiro diretamente como prêmio. Em vez disso, podem ganhar objetos digitais monetizáveis. Esses itens geralmente são NFTs (tokens não fungíveis), certificados digitais que comprovam a propriedade de um ativo único armazenado em redes blockchain. Outros tokens baseados em blockchain também podem ser utilizados como recompensas.
As regras francesas permitem que esses ativos digitais sejam o principal prêmio do jogo. Outros prêmios digitais ou físicos, desde que legalmente permitidos, também podem ser oferecidos.
Uma regra central proíbe a concessão de prêmios em dinheiro diretamente durante o jogo, garantindo que os jogos JONUM permaneçam separados das atividades de jogos de azar regulamentadas na França.
Inovação tecnológica e proteção ao consumidor
As novas regras francesas buscam equilibrar inovação tecnológica e proteção aos usuários.
Nos últimos anos, cada vez mais jogos passaram a adotar tecnologia blockchain e modelos “play-to-earn”. A blockchain é um sistema digital utilizado para registrar transações de forma segura. Já os jogos play-to-earn permitem que os jogadores ganhem ativos digitais com valor real enquanto jogam.
Os reguladores acompanham essas evoluções com atenção, diante de preocupações relacionadas à especulação, à lavagem de dinheiro e à necessidade de proteção do consumidor. Com o regime JONUM e os novos requisitos de compartilhamento de dados, a França busca estabelecer regras claras e posicionar-se como um laboratório regulatório para jogos Web3 na Europa.
Caso o experimento tenha sucesso, o modelo poderá servir de referência para outros países europeus interessados em regulamentar o setor. O envio da proposta à Comissão Europeia representa mais um passo em direção a um quadro regulatório mais claro para o mercado de jogos digitais, em um momento em que a tecnologia blockchain e os tokens digitais estão transformando a indústria global de entretenimento online.
Este artigo foi publicado originalmente em italiano em 12 de março de 2026.
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