No início de 2025, os mercados de previsão eram fáceis de descartar como uma obsessão de nicho. Viviam nas margens da cultura cripto, conhecidos principalmente por traders, especialistas em políticas públicas e reguladores que desconfiavam do modelo. Ao final do ano, porém, tornaram-se impossíveis de ignorar.
O que mudou não foi um único grande avanço, mas a soma de vários acontecimentos ao longo do tempo: vitórias judiciais, embates regulatórios, referências culturais e a constatação desconfortável de que esses mercados muitas vezes eram mais rápidos — e, em alguns casos, mais precisos — do que pesquisas de opinião ou análises de especialistas. Com a chegada do outono no hemisfério norte, os mercados de previsão já não se limitavam a antecipar eleições ou decisões sobre taxas de juros. Eles passaram a influenciar debates sobre verdade, informação e sobre quem, afinal, tem o poder de “precificar” o futuro.
Para os entusiastas, 2025 ficará marcado como o ano em que os mercados de previsão finalmente se popularizaram. Para os críticos, foi o momento em que tudo avançou rápido demais.
De experimento marginal a termômetro público
Os mercados de previsão não são novidade. Economistas os estudam há décadas como uma forma de agregar informações ao permitir que pessoas apostem em determinados desfechos. O que tornou 2025 diferente foi a escala alcançada e o nível de visibilidade que essas plataformas conquistaram.
Plataformas como Polymarket e Kalshi registraram um forte aumento no volume de negociações durante eventos políticos, esportivos e decisões econômicas relevantes. Suas probabilidades passaram a aparecer em grandes veículos de comunicação, muitas vezes ao lado de números de pesquisas eleitorais. Quando traders atribuíram 98% de chance de o Federal Reserve dos EUA manter as taxas de juros inalteradas, ou quando as odds eleitorais mudavam rapidamente antes de anúncios oficiais, jornalistas e analistas passaram a prestar atenção.
Parcerias estratégicas ampliaram ainda mais essa visibilidade. Em junho, a Polymarket fechou um acordo com a plataforma X, de Elon Musk, para integrar odds de mercado em tempo real aos comentários dos usuários. Mais tarde, o Google incorporou dados de mercados de previsão às suas ferramentas financeiras, exibindo essas projeções ao lado de preços de ações e gráficos de resultados corporativos. O que antes era um sinal de nicho passou a ser apenas mais um dado disponível ao público.
Momentos culturais também tiveram seu peso. Em setembro, a série South Park exibiu um episódio sobre mercados de previsão, satirizando crianças transformando dramas cotidianos em oportunidades de aposta. Em poucas horas, traders reais já estavam apostando em detalhes do episódio, misturando paródia e realidade de uma forma que resumiu bem o espírito de 2025.

Anos de resistência condensados em um só
Chegar até esse ponto não foi simples. Ao longo do ano, os mercados de previsão enfrentaram tantos bloqueios e investigações quanto crescimento.
A Polymarket, principal plataforma baseada em criptoativos, passou meses lidando com um ambiente regulatório hostil. Bélgica, França, Singapura e Austrália bloquearam o acesso ao site, alegando violações às leis locais de jogos e apostas. Nos Estados Unidos, ainda pesava na memória o acordo de 2022 que proibiu usuários americanos, e novas investigações foram abertas após as eleições de 2024.
Esses desafios continuaram em 2025. Reguladores estaduais argumentaram que mercados de previsão ligados a esportes se assemelhavam demais a apostas ilegais. Entidades do setor de jogos afirmaram que as plataformas se valiam de brechas na legislação federal para escapar de proteções ao consumidor. Pesquisas de opinião indicaram que a maioria dos americanos defendia regras mais rígidas.
Ao mesmo tempo, houve vitórias importantes. O governo Trump encerrou discretamente investigações federais contra a Polymarket. Tribunais frequentemente decidiram a favor da Kalshi em disputas com reguladores estaduais, reforçando o entendimento de que “contratos de eventos” regulados em nível federal não são equivalentes a jogos de azar. Em julho, a Polymarket adquiriu uma bolsa de derivativos licenciada nos EUA, abrindo caminho para o retorno ao mercado americano após quase quatro anos de ausência.
Em dezembro, o aplicativo da Polymarket alcançou o primeiro lugar entre os apps gratuitos de esportes na App Store, durante seu relançamento nos Estados Unidos. O que antes parecia um risco elevado passou a ser visto como uma grande vitória por seus apoiadores.
Mercados, moralidade e os limites da previsão
À medida que os mercados de previsão ganharam destaque, surgiram questionamentos que iam além das questões legais. Em 2025, os debates mais intensos foram éticos, não tecnológicos.
Essas plataformas passaram a abordar temas sensíveis, como guerras, assassinatos e crises globais. Após um ataque mortal na Índia, a Polymarket permitiu apostas sobre a possibilidade de um conflito militar com o Paquistão, o que gerou críticas de políticos e comentaristas. Para os críticos, atribuir um preço à guerra significava transformar o sofrimento humano em mais um ativo negociável.
Esse debate seguiu sem solução até o fim do ano. Se houve alguma mudança, foi o fato de que o aumento do número de usuários tornou a controvérsia ainda mais evidente.
Um novo elemento da vida pública
Ao final de 2025, os mercados de previsão já faziam parte do modo como as pessoas consumiam informação. Ligas esportivas passaram a tratá-los de forma semelhante às apostas. Empresas de Wall Street investiram bilhões, enquanto startups se uniram para pressionar por uma regulamentação federal específica. Organizações de mídia também se aproximaram desse universo: a CNN anunciou uma parceria com a Kalshi para integrar dados de mercados de previsão à sua cobertura jornalística. Como afirmou Tarek Mansour, fundador da Kalshi, “as notícias agora evoluem de relatar o presente para antecipar o futuro”. Paralelamente, estados americanos trabalharam em legislações para limitar quais eventos podem ser negociados e em que condições.
O que marca esse período não é o fato de os mercados de previsão estarem sempre certos — eles não estavam. Houve muitos erros ao longo do caminho. A grande mudança foi que pessoas demais passaram a observá-los para que voltassem à obscuridade.
Não se limite a acompanhar as notícias — antecipe-se a elas. Inscreva-se AQUI no Top 10 de notícias da SiGMA e fique à frente do que realmente importa.




