O dinheiro em espécie ainda domina grande parte da indústria global de jogos, especialmente nos cassinos físicos. No entanto, a forma como os jogadores financiam suas contas e sacam seus ganhos está mudando rapidamente, impulsionada por transformações mais amplas nos pagamentos digitais e nas finanças móveis.
No jogo online e nas apostas esportivas, os cartões já não são a única opção padrão. Carteiras digitais, transferências bancárias instantâneas, soluções de eCash e, em alguns mercados, criptomoedas, vêm moldando cada vez mais como — e com que frequência — os jogadores escolhem onde apostar.
Dados da Pesquisa Global de Jogadores da Paysafe ilustram bem essas tendências. Segundo números de 2024, quase 58% dos jogadores afirmaram utilizar com mais frequência métodos de pagamento alternativos, como carteiras online. Informações adicionais divulgadas pela Paysafe em 2025 mostram o ritmo acelerado dessa mudança de hábitos. Na Europa, as carteiras digitais já representam 38% do uso de pagamentos em iGaming, praticamente empatadas com os cartões de débito, que somam 42%, refletindo o avanço de soluções mobile-first e de pagamentos instantâneos.
Em conjunto, esses dados apontam para uma tendência clara: à medida que os consumidores se acostumam a pagamentos digitais sem atrito no dia a dia, cresce a expectativa de que os operadores de jogos ofereçam o mesmo nível de opções, velocidade e confiabilidade.
Entendendo a tecnologia de pagamentos via QR Code
Outro sistema emergente que vem ganhando tração global são os pagamentos via QR Code. O conceito é simples: o jogador escaneia um código QR (Quick Response) com o smartphone e realiza o pagamento por meio de uma carteira digital, cartão ou conta bancária.
A Índia lidera essa adoção. Sua Interface Unificada de Pagamentos (UPI) impulsionou os pagamentos por QR Code a uma escala sem precedentes, com mais de 678 milhões de códigos QR em circulação até meados de 2025, mais que o dobro do registrado 18 meses antes. O Banco da Reserva da Índia (RBI) informou que os códigos QR do UPI cresceram 91,5% ano a ano no exercício fiscal de 2024–25, superando o crescimento da infraestrutura de cartões de crédito e débito.
Os pagamentos digitais responderam por 99,8% do volume total de transações na Índia no primeiro semestre de 2025, com UPI e operações via QR Code liderando essa transição. Aplicativos como PhonePe, Google Pay e Paytm sustentam esse ecossistema, enquanto os bancos continuam ampliando a adoção em todo o país.
Globalmente, a região Ásia-Pacífico segue como o principal polo de adoção de QR Codes, liderada por China, Japão e Índia, onde esses códigos estão amplamente integrados ao comércio cotidiano. Os pagamentos via QR Code baseados no UPI da Índia já são aceitos em países como França, Singapura, Sri Lanka, Nepal, Maurício e Emirados Árabes Unidos, viabilizando transações digitais internacionais com mecanismos antifraude. Na China, consumidores escaneiam códigos 10 a 15 vezes por dia, movimentando trilhões de dólares em transações anuais. A adoção do QR Code também cresce na Europa e na América do Norte.
Pagamentos via QR Code no jogo online?
Especialistas costumam classificar os pagamentos via QR Code como seguros e fáceis de rastrear. Mas essa tecnologia pode ser aplicada aos pagamentos em iGaming? Para analisar essa viabilidade, a SiGMA News conversou com Julian Goffin, cofundador e CEO da Alunafi Ltd.
– Julian Goffin, cofundador e CEO, Alunafi Ltd.
“Quando implementados corretamente, os pagamentos via QR Code podem melhorar tanto a segurança quanto a experiência do usuário.”
Sobre a possibilidade de garantir segurança para todos os usuários de iGaming, Goffin explicou: “O QR Code, por si só, não torna o pagamento seguro; ele é apenas uma forma de iniciar a transação. O que realmente importa é o que existe por trás desse código.”
Ele acrescentou: “Quando os jogadores escaneiam um código e aprovam o pagamento em seu aplicativo bancário ou carteira digital, não precisam digitar dados do cartão em um site do operador. Isso reduz a exposição a páginas de phishing, keyloggers e formulários mal implementados. Ao mesmo tempo, os operadores ganham confiança de que o pagamento se origina de uma conta verificada.”
A Autenticação Forte do Cliente (SCA) também faz parte do processo. “O sistema normalmente aciona confirmação biométrica ou por PIN no aplicativo bancário do usuário, oferecendo autenticação no padrão da PSD2 por design”, afirmou.
Os operadores também se beneficiam em termos de segurança adicional. Goffin destacou: “Eles nunca veem nem armazenam dados sensíveis de cartões ou contas bancárias. Recebem apenas a confirmação do pagamento, e não as credenciais brutas, o que reduz o escopo de conformidade com PCI e limita o impacto de eventuais vazamentos de dados do lado do operador.”
Camadas adicionais de proteção no iGaming
Goffin ressaltou que as plataformas podem reforçar a segurança ao restringir os pagamentos via QR Code a provedores regulados e contas licenciadas. “Isso garante que os recursos sempre circulem entre pontos finais verificados por KYC, oferecendo segurança quanto à identidade do pagador”, explicou.
Ainda assim, ele alertou que nenhum método é infalível. “Nenhum meio de pagamento pode garantir segurança absoluta para todos os usuários em todas as situações. Engenharia social e sequestro de contas continuam sendo riscos. Mas, quando os pagamentos via QR Code são integrados a uma infraestrutura robusta — com autenticação forte, monitoramento de transações, controles de jogo responsável e processos transparentes de reembolso — eles podem estar entre as formas mais seguras e amigáveis de financiar contas e sacar ganhos.”
A Índia estabelece o padrão
Goffin apontou a Índia como um estudo de caso de escala para pagamentos via QR Code. “A Índia é o exemplo mais claro de como combinar trilhos de pagamento em tempo real, um padrão único de QR Code e uma experiência simples para o usuário”, afirmou. Ele destacou que o UPI e os QR Codes interoperáveis transformaram um sistema antes fragmentado — baseado em carteiras, cartões e transferências bancárias — em uma camada única de pagamentos em tempo real, utilizada por vendedores de rua, grandes varejistas, aplicativos, serviços por assinatura e redes peer-to-peer.
Segundo Goffin, essa adoção gerou três impactos globais. “Primeiro, prova que bilhões de transações de baixo valor podem ser executadas diariamente se trilhos, formatos de QR e regras forem padronizados. Segundo, mudou a mentalidade regulatória — tratar pagamentos como infraestrutura pública, permitindo concorrência, estimula inovação e reduz custos. Terceiro, as expectativas dos consumidores mudaram: depois de vivenciar o ‘escaneou, tocou, concluiu’ com liquidação instantânea, processos mais lentos de T+2 ou T+3 (com liquidação em dois ou três dias) parecem ultrapassados, especialmente em setores dinâmicos como o iGaming.”
Ele acrescentou, porém, que a adoção global desse modelo ainda é irregular e lenta. “Algumas instituições com visão de futuro, incluindo a Alunafi, integraram pagamentos instantâneos antes mesmo da regulamentação. Mas o cenário de QR Code ainda é fragmentado, com múltiplos esquemas bancários, de carteiras e soluções locais, muito distantes do padrão unificado da Índia.”
Ainda assim, iniciativas como a European Payments Initiative e sistemas nacionais de pagamentos instantâneos demonstram clara inspiração no modelo indiano. “Essa influência é visível no impulso aos pagamentos instantâneos, ao open banking e às alternativas de conta para conta. Alcançar o nível de adoção de QR Code da Índia levará tempo, mas a trajetória é clara.”
Para Goffin, os pagamentos via QR Code têm potencial para se tornar um pilar das transações seguras e eficientes no iGaming. “Com design adequado e supervisão eficaz, o QR Code não é apenas conveniente — pode ser um método seguro e intuitivo que transforme a forma como jogadores financiam suas contas e sacam ganhos em todo o mundo”, concluiu.
Manila está chamando — e não é em tom baixo. De 1 a 3 de junho de 2026, a SiGMA Ásia retorna ao peso-pesado incontestável da região. Com 16.000 participantes, 3.040 operadoras e mais de 250 palestrantes reunidos em um só lugar, isso não é apenas uma feira!


