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Relatório aponta ligação entre lavagem de dinheiro chinesa e cassinos de criptomoedas, jogos de azar

Jenny Ortiz-Bolivar
Escrito por Jenny Ortiz-Bolivar

As redes chinesas de bancos clandestinos desempenham um “papel crucial no fortalecimento do crime organizado transnacional, inclusive por meio do uso de cassinos cripto e do jogo online para fins de lavagem de dinheiro”, aponta um relatório da TRM Labs.

Segundo o documento, as Tríades chinesas — sindicatos criminosos de longa data — “abraçaram de forma agressiva o sistema bancário clandestino e as criptomoedas para lavar recursos ilícitos”. Grupos como o 14K e o Sun Yee On, por exemplo, controlavam por décadas operações de junkets em Hong Kong e Macau, além de redes de contrabando, utilizadas para “limpar” dinheiro vindo de atividades como o tráfico de drogas.

Durante muito tempo, os cassinos de Macau e de partes do Sudeste Asiático serviram como mecanismo constante para movimentar grandes somas sob a fachada de jogos legítimos. Esses grupos exploravam sistemas de junkets, compra de fichas em dinheiro e acertos de dívidas para disfarçar a origem criminosa dos valores.

Nos últimos anos, redes ligadas às Tríades expandiram esse modelo para todo o Sudeste Asiático, operando não apenas cassinos físicos e online, mas também call centers de fraudes e empresas de fachada, que funcionam como polos de lavagem de dinheiro.

A migração para o online na pandemia

O relatório ressalta que houve uma “virada durante a pandemia de COVID-19”, quando cassinos físicos migraram para operações digitais. Grupos criminosos aproveitaram a mudança e redirecionaram sua infraestrutura para gerir centros de golpes cibernéticos, especialmente em zonas econômicas especiais ao longo do rio Mekong e nas fronteiras de Mianmar.

Nesses locais, são comuns esquemas como o chamado “pig-butchering” — fraudes de romance ou de investimento que atraem vítimas para depois extrair grandes quantias. Esses crimes geram enormes lucros em criptomoedas, que então precisam ser lavados. Assim, cassinos e operadores bancários clandestinos foram transformados em um verdadeiro “sistema bancário paralelo”, movimentando dinheiro por meio de contas de cassinos, créditos de apostas e transações em criptoativos.

As operações online se mostraram especialmente atraentes para a lavagem porque permitem transferências internacionais sem a necessidade de movimentar dinheiro físico. Em questão de minutos, valores podem ser convertidos em créditos digitais e apostados de qualquer lugar do mundo, integrando recursos ilícitos ao sistema financeiro formal de forma muito mais eficiente.

Mais difíceis de rastrear e em maior escala

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), citado no relatório, afirma que as Tríades e grupos associados utilizam redes baseadas em cassinos para movimentar fundos em volumes “muito maiores e menos rastreáveis do que no passado”. Isso torna “extremamente difícil para as autoridades acompanhar o fluxo do dinheiro”.

Um dos métodos mais usados envolve integrar criptomoedas em esquemas de lavagem ligados a cassinos e ao comércio internacional. Exemplo: um banco clandestino ligado às Tríades pode receber dinheiro sujo de atividades como tráfico de drogas ou exploração de pessoas e, em troca, fornecer o valor equivalente em créditos de apostas em um cassino localizado em uma zona econômica especial (SEZ) — ou em criptomoeda que pode ser usada para jogar online.

Uma vez dentro do sistema, o dinheiro é apostado em grande volume, misturando-se às operações legítimas. Esse embaralhamento de recursos dificulta a investigação, já que os registros acabam aparentando se originar de ganhos de apostas legais, e não de operações criminosas.

Mistura de recursos ilícitos e legais

De acordo com o relatório, a estratégia é circular os valores em apostas de alto volume, frequentemente “mesclando dinheiro ilícito com fundos de jogadores legítimos”, para depois sacar como “prêmios de cassino” ou receitas empresariais.

A convergência entre criptomoedas e bancos paralelos amplifica de forma significativa a escala dessas operações, permitindo movimentar quantias muito maiores e de forma mais ágil do que pelos canais bancários tradicionais — e com bem menos supervisão.

Corretoras clandestinas de cripto e transações discretas

Os lavadores de dinheiro ligados às Tríades chegaram a criar suas próprias corretoras não licenciadas de criptomoedas e mesas OTC (over-the-counter) para atender clientes. Esses serviços são anunciados em aplicativos criptografados como WeChat e Telegram, descritos pelo relatório como “resistentes à vigilância” das autoridades.

Segundo a TRM Labs, esses canais privados permitem que os criminosos ignorem totalmente as instituições financeiras reguladas, reduzindo o risco de que as transações sejam marcadas como suspeitas. A combinação de transferências anônimas em cripto com sistemas de apostas possibilita ocultar movimentações entre diferentes jurisdições em questão de horas.

O processo de lavagem em várias etapas

O relatório descreve que uma única operação pode envolver trocar dinheiro vivo por criptomoeda por meio de um intermediário, apostar esses criptoativos em um cassino online controlado pela quadrilha e, depois, sacar os valores em outro formato em um país diferente. Cada etapa torna “progressivamente mais difícil conectar o dinheiro ‘limpo’ ao seu ponto de origem ilícita”.

Métodos antigos, novas tecnologias

A TRM Labs conclui que esses esquemas demonstram a capacidade de adaptação das Tríades, que passaram a usar novas tecnologias para ampliar suas operações. Na prática, transformaram as criptomoedas em mais uma ferramenta eficiente para a lavagem de dinheiro — ao lado dos cassinos, empresas de fachada e fraudes comerciais que já utilizavam há décadas.

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