Em um mercado onde há um gigantesco crescimento, acelerado, e amadurecimento regulatório, poucos executivos e profissionais da área acumulam tanta bagagem prática e visão estratégica quanto Ricardo Bianco Rosada. Founder e Head de Estratégia da brmkt.co e CoCEO, Board Member e CoFounder da Bell Ventures, Ricardo atua há mais de duas décadas com estratégia, marketing, produto e desenvolvimento de negócios. Hoje, seu foco é no iGaming.
Hoje, seu trabalho é basicamente reduzir incerteza. Ao longo da carreira, Ricardo já trabalhou com mais de 50 grandes marcas, em setores como serviços financeiros, tecnologia, indústria, varejo e jogos, desde gigantes como Itaú, Bosch, Heineken e Coca-Cola até marcas do iGaming como Betboo, Bodog, galera.bet e BandBet. No total, os projetos liderados ou assessorados por ele geraram mais de USD 2,2 bilhões em receita.
Se tivesse que resumir sua jornada profissional em uma palavra, Ricardo escolheria curiosidade. Desde a fundação de sua primeira agência, em 1999, até sua atuação atual como executivo e conselheiro, ele manteve um olhar constante de aprendiz, estudando, testando, errando e ajustando. Esse ciclo, segundo ele, nunca pode parar. Sua relação com o iGaming começou cedo. Em 2001, quando o setor ainda engatinhava no Brasil, participou do desenvolvimento de marcas como Play Bingo e Play Video Bingo, sob licenças estaduais. Poucos anos depois, ajudou a criar a Betboo, marca que viria a ser vendida para a GVC (atual Entain) e que, de forma simbólica, retornou ao Brasil no mercado regulado com o mesmo nome, mais de 20 anos depois.
Em 2017, após deixar a agência tradicional, fundou a brmkt.co, já com o objetivo de ser uma consultoria estratégica focada em mercados de alta complexidade, como financeiro, pagamentos, tecnologia, e-commerce e iGaming, o que hoje ele define como sua paixão.
Antecipar tendências como estratégia de sobrevivência
Como cofundador e responsável por Marketing, Branding, PR, Experiência do Cliente e Desenvolvimento de Negócios na galera.bet, Ricardo liderou uma série de iniciativas que, à época, pareciam excessivas para um mercado ainda não regulado, mas que hoje são padrão. Tudo isso foi um grande salto profissionalmente para ele. Entre essas iniciativas excessivas está a implementação de KYC com validação de CPF no onboarding, políticas de AML alinhadas às práticas do Banco Central, o uso de PIX em loop fechado, além da criação de um atendimento ao cliente 100% brasileiro. Outro ponto importante foi o desenvolvimento do primeiro programa em TV aberta no Brasil focado em jogo responsável, em parceria com a RedeTV.
Para Ricardo, antecipar tendências não é luxo, é sobrevivência. E essa mentalidade moldaria também os capítulos seguintes de sua trajetória.
Regulação, compliance e o combate ao mercado ilegal
Com a regulamentação federal finalmente em vigor, o mercado brasileiro de iGaming entrou em uma nova fase. Dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) indicam que, apenas em 2025, o país contou com cerca de 25 milhões de jogadores e um GGR aproximado de R$ 36,9 bilhões. Ainda assim, já é esperado que o mercado ilegal continue quase do tamanho do mercado regulado.
Para Ricardo, para combater a ilegalidade é necessária a educação dos jogadores, legisladores, imprensa e da própria indústria. O compliance, que antes vivia no back office, agora ocupa o front da estratégia. Governança, auditoria, monitoramento comportamental e protocolos de intervenção deixaram de ser acessórios para se tornarem parte do core do negócio.
O novo marketing: menos bônus, mais legitimidade
As novas restrições publicitárias, não foram vistas como um problema, mas como um alívio por Ricardo. Ele diz que nunca foi entusiasta de bônus agressivos e ofertas vazias, que inflavam métricas no curto prazo, mas não construíam valor real. Com o fim do bônus como principal motor de aquisição, o mercado foi obrigado a amadurecer. Custos de mídia subiram, o funil de aquisição precisou ser redesenhado e o marketing deixou de ser um empurrão artificial para se tornar um processo de construção de confiança. Legitimidade virou ativo de performance.
“Nada acontece por acaso. Cada decisão exige equilíbrio entre inovação, compliance, marketing e responsabilidade. O iGaming é um mercado que vive uma Black Friday por semana. A operação nunca dorme. A concorrência é feroz. O cliente quer tudo para ontem.”
Apesar do discurso público frequentemente negativo por parte da sociedade, Ricardo não enxerga um estigma regulatório, mas sim um estigma social alimentado por desinformação. Na sua visão, o setor virou bode expiatório para problemas estruturais do país, reforçados por narrativas simplistas. A solução não passa por publicidade defensiva, mas por educação, coordenação institucional e uma comunicação mais unificada por parte da indústria. Branding, nesse contexto, deixa de ser estética e vira postura de marca.
“Quando uma mentira é repetida mil vezes, ela começa a soar como verdade”, afirma Rosada. Para ele, esse tipo de discurso funciona como areia nos olhos de uma população que, muitas vezes, não tem acesso à informação ou análises mais profundas sobre o funcionamento do setor. O resultado é um debate raso, emocional e pouco conectado à realidade dos dados e da regulação. Combater esse estigma, porém, está longe de ser simples. E, na visão do executivo, não se resolve com publicidade defensiva, comunicados genéricos ou campanhas tentando se justificar o tempo todo. Pelo contrário, esse tipo de abordagem tende a reforçar a percepção de culpa ou insegurança.
Ele destaca cinco pilares fundamentais para a construção de marcas fortes no iGaming brasileiro: posicionamento, storytelling autêntico, educação antes da conversão, experiências memoráveis e inovação com propósito, pontos que também embasam o Brazil’s Betting Report 2025, desenvolvido em parceria com a Blask.
O primeiro pilar é um posicionamento claro e inegociável. Marcas precisam deixar explícito quem são, o que defendem e onde não transigem. No iGaming, isso significa assumir o jogo responsável como parte central da proposta de valor, e não como um aviso escondido no rodapé do site. Segurança, previsibilidade e entretenimento responsável precisam ocupar o centro da narrativa, superando a lógica de promoções agressivas e promessas vazias.
O segundo pilar é o storytelling autêntico, não defensivo. Marcas que tentam se justificar o tempo todo soam frágeis e inseguras. O caminho, segundo Rosada, é contar histórias reais, humanas e conectadas à cultura local. Mostrar experiências positivas, relações de longo prazo com os clientes e o papel do entretenimento consciente ajuda a normalizar o setor e a criar vínculo emocional com o público.
No terceiro pilar vem a educação antes da conversão. Em um mercado complexo e ainda pouco compreendido, conteúdo educativo se torna um ativo estratégico de marca. Explicar regras, limites, probabilidades, riscos e boas práticas antes da aposta constrói credibilidade. Quem educa antes de vender ganha confiança, e confiança é a moeda mais valiosa no iGaming.
O quarto pilar é a criação de experiências memoráveis, não apenas transacionais. Marcas fortes não se limitam a oferecer apostas; elas criam experiências. Eventos exclusivos, desafios recorrentes, gamificação bem desenhada e programas de relacionamento geram pertencimento. Esse pertencimento transforma usuários em comunidade, e comunidades tendem a defender a marca de forma orgânica, inclusive no debate público.
Por fim, Ricardo destaca a inovação com propósito. Inovar não é apenas adotar tecnologia nova, mas usá-la de forma inteligente e contextualizada. Personalização via IA, jornadas mais eficientes, produtos pensados para o perfil do jogador brasileiro e parcerias estratégicas mostram maturidade. Inovação sem propósito vira ruído; inovação alinhada à responsabilidade vira vantagem competitiva.
O futuro do iGaming no Brasil
Olhando para os próximos três a cinco anos, Ricardo acredita que o mercado não será definido por quem tem mais mídia ou bônus, mas por quem constrói vantagem estrutural. Diferenciação real de marca, foco absoluto em retenção, maturidade regulatória, excelência em experiência do usuário e uma onda inevitável de M&A devem moldar o setor.
“2026 não vai premiar quem gasta mais. Vai premiar quem pensa melhor, localiza mais fundo e retém por mais tempo.”
Por fim, ao falar de legado, ele prefere lembrar das práticas que ajudou a implantar, das contribuições técnicas à legislação e da construção de marcas relevantes. Seu objetivo maior é deixar um mercado mais profissional, ético e sustentável, onde o jogo seja visto como entretenimento responsável, e não como vilão social.
E, como ele mesmo mencionou, ainda há novos capítulos por vir. “Curiosamente, quanto mais o tempo passa, mais vontade tenho de construir, aprender e provocar boas discussões. Esse, para mim, é o verdadeiro legado. E ainda falando em legado, tenho duas novas ‘surpresas’, aguarde!”, diz.
Inscreva-se AQUI para receber a listagem das 10 principais notícias da SiGMA e o boletim informativo semanal da SiGMA para se manter atualizado com as últimas notícias de iGaming da maior comunidade de iGaming do mundo e aproveitar ofertas exclusivas para assinantes.



