O órgão regulador de jogos da Holanda registrou mais de 4.600 denúncias contra a Meta apenas em abril, todas relacionadas a anúncios de jogos ilegais identificados no Facebook e no Instagram.
A Autoridade Holandesa de Jogos (Kansspelautoriteit, KSA) apresentou as denúncias em abril de 2026 como parte de uma ampla ofensiva contra operadores sem licença que promovem seus serviços para usuários holandeses na internet. O regulador classificou o combate ao jogo online ilegal como uma de suas principais prioridades de fiscalização, e a dimensão da operação realizada em abril demonstra o avanço dessa estratégia.
Uso de nomes falsos e perfis de terceiros
A KSA afirmou oficialmente que empresas de jogos sem licença vêm utilizando nomes e imagens de atletas holandeses conhecidos e de marcas consolidadas sem autorização. A prática dificulta que usuários comuns consigam identificar se determinado site de apostas possui uma licença válida na Holanda e se oferece as proteções ao consumidor exigidas pela regulamentação local.
O regulador vem atuando em conjunto com órgãos governamentais, plataformas de redes sociais e empresas privadas em uma operação coordenada para remover rapidamente esse tipo de conteúdo. Uma iniciativa semelhante realizada no ano passado resultou em milhares de anúncios ilegais denunciados em massa ao Google, ação que, segundo a KSA, reduziu de forma mensurável os resultados de busca ligados a operadores sem licença.
Os números chamam atenção. No pico da atividade, cerca de 50 mil anúncios ilegais de jogos eram exibidos mensalmente nas redes sociais. O volume elevado aumentou a pressão sobre as autoridades para desenvolver soluções mais estruturadas e colaborativas, em vez de tratar casos isolados individualmente.
Operadoras licenciadas também entram na mira
As preocupações, porém, não se limitam aos operadores ilegais. Um estudo recente publicado no Journal of Behavioral Addictions, que analisou 277 anúncios de jogos veiculados por operadores licenciados na Holanda, concluiu que aproximadamente um em cada nove anúncios — cerca de 11% — foi exibido para faixas etárias que incluíam pessoas entre 18 e 23 anos.
A legislação holandesa proíbe que publicidade de jogos seja direcionada a menores de 24 anos. A regra entrou em vigor em meados de 2023, principalmente devido às preocupações relacionadas à exposição excessiva de jovens a conteúdos de apostas.
Os operadores online licenciados apresentaram um índice de conformidade próximo de 93%. Já os anunciantes ligados a licenças de operações físicas demonstraram um nível de conformidade significativamente menor, com quase 30% em desacordo com as regras de segmentação etária. O Holland Casino, controlado pelo Estado, esteve entre os identificados, embora tenha reconhecido a falha e adotado rapidamente medidas corretivas.
Os pesquisadores também observaram que anúncios de jogos atingiam homens jovens em uma frequência mais de sete vezes superior à registrada entre mulheres da mesma faixa etária de 18 a 24 anos — grupo considerado historicamente mais vulnerável a problemas relacionados ao jogo.
Uma base jovem e vulnerável
Dados compilados pela Blask ajudam a traçar um panorama do perfil dos jogadores online na Holanda. As informações mostram uma forte concentração de usuários em faixas etárias mais jovens, com pessoas entre 25 e 34 anos representando o maior grupo individual, equivalente a 35% da base de jogadores. Já os usuários entre 18 e 24 anos respondem por outros 20%. No total, quase 80% dos apostadores online holandeses têm entre 18 e 44 anos.
A tendência entre os adultos mais jovens preocupa especialmente profissionais da saúde e formuladores de políticas públicas. Pesquisas governamentais apontam que, entre jogadores com menos de 24 anos, aproximadamente 9% se enquadram em uma categoria de risco moderado, enquanto outros 14% são considerados de alto risco. Isso significa que quase um em cada quatro jovens apostadores entre 18 e 24 anos pode estar enfrentando dificuldades relacionadas ao jogo.
O registro nacional de autoexclusão, conhecido como Cruks, mostra que quase 20% de todos os jogadores problemáticos cadastrados têm entre 18 e 24 anos. Estudos também indicam que 81% dos jogadores com problemas começaram a apostar antes dos 24 anos, enquanto 46% iniciaram antes mesmo dos 18.
Proibição total da publicidade entra em discussão
Diante do aumento das preocupações, o governo holandês confirmou que pretende ir além das restrições atualmente em vigor. A coalizão governista da Holanda indicou que avalia ativamente a implementação de uma proibição total da publicidade relacionada a jogos.
A secretária de Estado Claudia van Bruggen reconheceu que o modelo atual possui limitações. Segundo ela, o sistema de autoexclusão Cruks, embora funcional dentro do mercado regulamentado, ainda não consegue impedir que usuários acessem plataformas ilegais nem bloquear completamente a exposição à publicidade.
“O governo está trabalhando em linha com o acordo da coalizão para endurecer ainda mais as regras de publicidade de jogos, especialmente para proteger grupos vulneráveis”, afirmou van Bruggen. “Ao mesmo tempo, instrumentos como o Cruks permanecem limitados ao mercado regulamentado. Eles não conseguem impedir o acesso a operadores ilegais nem eliminar totalmente a exposição à publicidade.”
A associação holandesa de saúde mental De Nederlandse ggz também defendeu uma proibição ampla da publicidade online relacionada a jogos. A organização argumenta que a exposição precoce a anúncios de apostas contribui diretamente para a formação de hábitos entre os jovens e ajuda a normalizar o jogo como uma atividade cotidiana.
No entanto, a proposta não encontra apoio unânime. A VNLOK (Vergunde Nederlandse Online Kansspelaanbieders), entidade que representa operadores licenciados na Holanda, argumenta que restrições publicitárias muito severas dificultariam que os jogadores distinguissem plataformas regulamentadas de operadores ilegais.
Ainda assim, a KSA afirmou que as ações de fiscalização continuarão se intensificando, tanto contra anunciantes ilegais presentes nas redes sociais quanto contra operadores licenciados que descumprirem exigências regulatórias. Enquanto dezenas de milhares de anúncios ilegais continuam circulando todos os meses, permanecem as preocupações com a participação crescente de jovens adultos no mercado de jogos.
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