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IA no iGaming: Salvação ou reflexo sombrio?

Katy Micallef
Escrito por Katy Micallef
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Um painel sobre as implicações éticas da implementação de soluções de inteligência artificial no setor de jogos aconteceu hoje durante a SiGMA Euro-Med, conferência realizada no Mediterranean Maritime Hub, em Malta. A sessão foi moderada por Chris Galloway, Diretor de Produto de iGaming da Sumsub, e contou com a participação de Jaguar Gal, CEO da Jaguar Reg&Comp, Sharon Xuereb, Associada Sênior no escritório Camilleri Preziosi, e Kush Desai, fundador e CEO da Source Code Lab. A programação completa de debates pode ser acompanhada online.

Trazendo a perspectiva legal, Sharon Xuereb destacou que a inteligência artificial ocupa uma posição intermediária: não é uma solução salvadora por si só, mas também não representa automaticamente um risco distópico. Ela ressaltou o potencial da tecnologia para reduzir danos e aprimorar processos dentro dos limites legais atuais – como o AI Act da União Europeia, o Data Act e o GDPR. No entanto, alertou que os riscos de uma vertente distópica são concretos, sobretudo com a expansão da IA generativa, e que ainda não está claro se as leis europeias existentes serão suficientes para administrar totalmente esses riscos.

“É cedo demais para afirmar se a IA é uma salvação ou uma ameaça distópica. Ainda não vimos todo o seu alcance, principalmente com o avanço acelerado de tecnologias como a IA generativa. Estamos em um momento decisivo.”

Kush Desai acrescentou: “A IA não é algo novo – existe desde os anos 1950. O que mudou foi o surgimento da IA generativa, disponível em larga escala apenas a partir de 2021. Na essência, trata-se de uma tecnologia estatística baseada em linguagem. Assim como outras ferramentas digitais antes dela – como analytics, BI e personalização – ela foi criada para servir a um objetivo capitalista: incentivar o consumidor a gastar mais.”

Kush Desai e Jaguar Gal.

Para Desai, a questão central não é se a IA manipula – ela já manipula e continuará manipulando, pois essa é justamente a sua função no mercado. O desafio está em definir limites claros. Ele também alertou para o risco de a Europa criar um excesso de regulamentação: “Quando usada de forma responsável, a IA é apenas mais um avanço, assim como a internet ou as criptomoedas. Mas regulações excessivamente rígidas, especialmente na Europa, podem levar empresas a migrarem para outros mercados, como os EUA, que têm uma postura muito mais favorável à inovação.”

Já Jaguar Gal adota uma visão mais otimista: “A IA é o próximo passo natural para o iGaming se quisermos que a indústria evolua. Claro, ainda há incertezas sobre como a tecnologia vai se desenvolver, mas acredito que, de forma geral, será uma mudança positiva. Não é uma salvação milagrosa, mas certamente é uma ferramenta poderosa para impulsionar o setor.”

Personalização: experiência sob medida ou armadilha?

Mudando o foco, o moderador Chris Galloway provocou: “A personalização torna o jogo mais inteligente, mas em que momento o ‘sob medida’ começa a parecer uma armadilha?”

Desai respondeu que hoje os usuários já esperam um alto nível de personalização. No caso dos jogos, isso pode aumentar engajamento e retenção. Ele citou a Netflix como exemplo: a plataforma mostra exatamente o que o usuário gosta de assistir. O risco surge quando essa personalização ultrapassa a linha da conveniência e entra no território da manipulação, criando ciclos compulsivos que podem levar à dependência. Nesse ponto, afirma, caberá aos reguladores traçar linhas muito finas.

Gal concordou: “Os reguladores terão de intervir para estabelecer limites, sem, no entanto, sufocar a inovação das empresas. As leis estão em constante evolução em diferentes regiões, e o desafio é equilibrar retenção com responsabilidade. A indústria do entretenimento sempre buscou prender a atenção – e os jogadores vão se sentir ‘presos’ em algum momento, isso faz parte do design.”

Mas o que pode ser feito, em termos legislativos, para ajustar as regulamentações especificamente no iGaming?

Segundo Sharon, a personalização pode transmitir uma sensação de empoderamento ao consumidor, mas já é juridicamente classificada como “perfilamento” pelo GDPR.

“O Artigo 22 define o que pode ou não ser automatizado sem supervisão ou consentimento humano. O AI Act da UE reforça essas diretrizes, exigindo transparência e processos de validação humana para sistemas considerados de alto risco. O foco deve estar em adaptar as regras já existentes, sem entrar em pânico. Não é preciso reinventar a roda.”

Jogo responsável: a IA consegue equilibrar lucro com proteção quando se trata de jogos?

Sharon Xuereb, associada sênior da Camilleri Preziosi.

Para Desai, no entanto, grande parte das promessas sobre “jogo responsável com IA” ainda é mais discurso de marketing do que realidade. Ele lembra que a regulamentação costuma andar atrás da inovação, e que o AI Act foi deliberadamente elaborado de forma ampla.

“As regras sempre vêm depois da inovação – e a IA ainda é muito recente. O verdadeiro desafio será se operadores, reguladores e fornecedores de plataformas conseguirão trabalhar juntos para que a personalização não se transforme em manipulação.”

Na visão de Gal, a legislação atual já corre o risco de ficar defasada: “A tecnologia avança mais rápido que a regulamentação, e empresas que seguirem à risca cada regra podem acabar ficando para trás. O que provavelmente veremos é uma colcha de retalhos de interpretações, procedimentos e diretrizes que vão sendo atualizados mais rapidamente do que a própria lei.”

Sharon concorda, acrescentando que o ponto decisivo será a fiscalização: “O teste real será verificar se os reguladores terão a expertise e a firmeza necessárias para agir de forma eficaz. Escrever leis no papel é uma coisa; aplicá-las em setores como o iGaming, onde dados, IA e regulamentação se cruzam, é outra bem diferente.”.

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