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Irã – crise no Estreito de Ormuz impulsiona Wall Street rumo a mercados tokenizados 24/7

Tony Colapinto
Escrito por Tony Colapinto
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

As tensões geopolíticas no Oriente Médio, somadas às graves interrupções no tráfego no Estreito de Ormuz, estão gerando efeitos que vão muito além do setor de energia. No centro das finanças globais, começa a se desenhar uma transformação estrutural, marcada pela transição para mercados que operam 24 horas por dia, sete dias por semana, baseados em ativos tokenizados e derivativos inovadores.

Grandes bancos e fundos de hedge estão adotando infraestruturas digitais sempre ativas. Esse movimento é impulsionado pela necessidade de gerenciar riscos fora do horário tradicional de negociação e aumentar a eficiência de capital. Já não se trata apenas de experimentação tecnológica, mas de uma resposta a uma economia global que não para.

Segundo participantes do setor, contratos futuros perpétuos combinados com ativos do mundo real tokenizados estão remodelando os mercados financeiros. A eliminação das datas de vencimento e o uso de liquidação atômica — ou seja, instantânea — estão transformando a gestão de liquidez e a formação de preços.

Crises geopolíticas e mercados 24/7: o papel das plataformas digitais

Um elemento central dessa transformação é o papel crescente de plataformas originadas no setor cripto, que permanecem operacionais mesmo quando os mercados tradicionais estão fechados, especialmente aos fins de semana.

O diretor de investimentos da Theo, Iggy Ioppe, explicou em entrevista à Euronews que a transição para negociações contínuas já não é opcional.

“Não é uma questão de preferência. Está se tornando uma necessidade estrutural. Vimos isso claramente durante o fechamento do Estreito de Ormuz. Os mercados tradicionais estavam inativos no fim de semana, e o ouro e o petróleo tokenizados eram os únicos mercados transparentes, negociados continuamente e capazes de refletir em tempo real a demanda por ativos de refúgio”, afirmou Ioppe.

Andrei Grachev, sócio-gerente da DWF Labs, também destacou como eventos recentes aceleraram essa mudança.

“Um exemplo claro ocorreu em 28 de fevereiro deste ano, quando ataques dos Estados Unidos e de Israel a instalações nucleares iranianas foram anunciados numa manhã de sábado. Todas as principais bolsas de commodities, incluindo CME, NYMEX e ICE, estavam fechadas. Os traders migraram para plataformas descentralizadas de futuros perpétuos para petróleo, ouro e prata”, observou Grachev.

Quando os mercados tradicionais reabrem, os níveis de preços frequentemente já refletem a atividade dessas infraestruturas digitais sempre ativas, indicando uma mudança na dinâmica global de descoberta de preços.

Tokenização e finanças tradicionais: uma convergência inevitável

A fronteira entre finanças tradicionais e infraestrutura baseada em blockchain está cada vez mais tênue. Mesas de trading, fundos macro e gestores multi-estratégia vêm explorando ativamente essas arquiteturas digitais, que resolvem limitações operacionais comuns dos mercados tradicionais.

Um relatório recente do Fundo Monetário Internacional, assinado por Tobias Adrian, descreve essa mudança como uma “reconfiguração estrutural” do sistema financeiro global. O documento destaca como a liquidação atômica e a programabilidade aumentam a eficiência de capital, ao mesmo tempo em que reduzem os buffers de tempo dos quais bancos e reguladores dependem em períodos de estresse de mercado.

Segundo o FMI, garantir estabilidade nesses novos mercados exige uma “âncora pública” de confiança, especialmente por meio de instrumentos como as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs). Sem esses mecanismos, a velocidade dos sistemas tokenizados poderia desencadear crises instantâneas de liquidez difíceis de conter.

Ativos tokenizados: o que são e por que atraem capital

Os ativos do mundo real, conhecidos como RWA (Real World Assets), incluem ativos físicos e instrumentos financeiros tradicionais como ouro, petróleo, imóveis, títulos públicos e ações. Sua tokenização consiste na representação digital de valor econômico e direitos de propriedade em uma blockchain.

Na prática, isso se materializa como um “recibo digital” registrado em um livro-razão distribuído, representando uma fração ou a totalidade do ativo subjacente.

Larry Fink, CEO da BlackRock, está entre os principais defensores dessa mudança. Em sua carta anual de 2026 aos investidores, escreveu: “A tokenização pode ajudar a acelerar o futuro ao modernizar a infraestrutura central do sistema financeiro e tornar os investimentos mais fáceis de emitir, negociar e acessar.”

A BlackRock lançou o fundo BUIDL para apoiar essa visão. O produto tokeniza títulos do Tesouro dos EUA em uma blockchain pública e já se aproxima de US$ 3 bilhões sob gestão.

Futuros perpétuos: o motor dos mercados sem horário de fechamento

Os contratos futuros perpétuos são um componente essencial desse sistema. Esses derivativos permitem que investidores acompanhem continuamente os preços dos ativos sem precisar deter o ativo subjacente ou se limitar a uma data de vencimento. Sua estrutura viabiliza negociações e hedge 24/7, algo fundamental para mercados que não param mais em horários tradicionais.

Diferentemente dos futuros convencionais, os contratos perpétuos podem ser mantidos indefinidamente. O equilíbrio é garantido pela chamada taxa de funding, uma tarifa periódica que ajusta posições compradas e vendidas.

Manter um contrato perpétuo oferece exposição sintética ao ativo subjacente, permitindo negociação contínua mesmo quando os mercados à vista estão fechados. Estimativas do setor indicam que esse mercado movimenta dezenas de bilhões de dólares por dia e continua atraindo instituições.

Liquidação atômica e os novos desafios de liquidez

A transição para a liquidação atômica representa uma mudança profunda em relação às finanças tradicionais. Sistemas convencionais liquidam transações com atraso de 1 ou 2 dias úteis (T+1 ou T+2). Em sistemas tokenizados, execução e liquidação acontecem simultaneamente.

Embora isso reduza o risco de contraparte, aumenta significativamente a demanda por liquidez imediata. Instituições precisam adotar estruturas mais avançadas de gestão de capital e sistemas de automação mais sofisticados.

Atualmente, grande parte dessas transações é realizada por meio de stablecoins emitidas por entidades privadas, um ponto que o FMI considera um possível risco sistêmico. Isso tem levado ao aumento da atenção sobre soluções públicas de liquidação, como as CBDCs.

Grachev apontou ainda outra preocupação. “A infraestrutura de mercado que sustenta o trading tokenizado 24/7 ainda está tentando acompanhar a demanda que ela própria gera. Essa lacuna entre capacidade do produto e prontidão operacional é hoje um dos riscos mais subestimados do setor.”

O desafio dos dados: preços, latência e confiabilidade

Outro ponto crítico envolve a qualidade dos dados de preços. Em mercados 24/7, a liquidez depende de feeds de dados confiáveis, atualizados e com baixa latência.

“A infraestrutura de dados de preços é provavelmente o desafio não resolvido mais importante nos mercados tokenizados 24/7. Ao fornecer liquidez contínua em ambientes descentralizados e regulados, a qualidade, a latência e a confiabilidade dos feeds determinam diretamente a rentabilidade e a exposição ao risco”, explicou Ioppe.

À medida que participantes regulados e capital institucional entram nesse ecossistema, os padrões exigidos das plataformas aumentam rapidamente. Isso favorece operadores capazes de combinar inovação tecnológica com estruturas regulatórias robustas.

O futuro dos mercados: integração entre finanças tradicionais e blockchain

O futuro das finanças aponta cada vez mais para um modelo híbrido, no qual infraestrutura tradicional e tecnologias blockchain coexistem e se integram. A competição dependerá da capacidade dos participantes de se adaptar a um ambiente mais rápido, interconectado e permanentemente ativo.

Segundo Grachev, as plataformas que irão prosperar serão aquelas capazes de evoluir nesse sentido. “As plataformas que permanecerão relevantes serão aquelas que utilizarem essa velocidade para realmente elevar seus padrões, em vez de simplesmente contornar regulações. À medida que o investimento institucional cresce, a infraestrutura de compliance será cada vez mais determinante para definir quais mercados atraem capital significativo e quais não.”

Em um mundo moldado por crises súbitas e mercados globais cada vez mais conectados, as finanças já não podem mais parar. A transição para mercados tokenizados 24/7 não é mais uma previsão de futuro — é uma realidade em formação.

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