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Kalshi deixa a Índia após proibição de mercados de previsão

Neha Soni
Escrito por Neha Soni
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A Kalshi retirou-se do mercado indiano após atualizar seu acordo de membros e classificar a Índia como jurisdição restrita, impedindo que usuários do país negociem contratos de eventos na plataforma.

A medida ocorre após uma repressão mais ampla das autoridades indianas contra operadores offshore de mercados de previsão e marca uma reversão relevante na estratégia de expansão internacional da Kalshi. O movimento também acontece em um momento em que reguladores na Europa intensificam a análise sobre mercados de previsão e sua classificação dentro das leis de jogos de azar.

Banimento da Kalshi na Índia reverte plano de expansão

O banimento da Kalshi na Índia representa uma mudança brusca de direção para a empresa. Em outubro de 2025, a Kalshi havia anunciado planos de expansão para mais de 140 países, incluindo a Índia. Menos de um ano depois, a plataforma passou a incluir o país em sua lista de jurisdições restritas, elevando o total de territórios proibidos para 55.

A Kalshi construiu sua reputação com base na conformidade regulatória nos Estados Unidos e opera sob supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC). No entanto, esse status não se sobrepõe às legislações nacionais de jogos e apostas em mercados internacionais.

O acordo de membros revisado também dá à Kalshi flexibilidade para atualizar sua lista de jurisdições restritas sempre que condições legais, regulatórias ou comerciais mudarem.

Os mercados de previsão permitem que usuários especulem sobre o resultado de eventos futuros, desde eleições e partidas esportivas até indicadores econômicos e acontecimentos geopolíticos. Embora as operadoras frequentemente descrevam esses produtos como contratos financeiros, reguladores em várias jurisdições os enxergam cada vez mais como formas de apostas que exigem licenciamento local e proteções ao consumidor.

Nova lei de jogos online muda cenário na Índia

A saída da Kalshi ocorre após a entrada em vigor da Promotion and Regulation of Online Gaming Act 2025 (PROGA), que passou a valer em 1º de maio. A legislação é o eixo central da abordagem nacional da Índia para a regulação de jogos online e proíbe jogos de dinheiro online envolvendo apostas em dinheiro real. As autoridades indianas têm reiterado que produtos com apostas monetárias se enquadram em categorias proibidas e não podem operar legalmente no país.

O novo marco regulatório já causou forte impacto no setor de jogos com dinheiro real na Índia. Operadores como Dream11, WinZO, Zupee, PokerBaazi e Games24x7 suspenderam serviços ou reduziram parte de suas operações diante do novo ambiente regulatório.

Analistas jurídicos concluíram amplamente que os mercados de previsão se enquadram no escopo da legislação. Como resultado, operadores e empresas que facilitem esse tipo de atividade podem enfrentar sanções regulatórias e até criminais.

A lei inclui dispositivos que podem expor indivíduos e empresas a penalidades, incluindo prisão, por facilitar, promover ou financiar atividades proibidas de jogos online.

Índia intensifica ações contra mercados de previsão

A pressão regulatória aumentou significativamente em abril e maio. O Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação da Índia (MeitY) emitiu um comunicado alertando intermediários de internet e provedores de VPN (Virtual Private Network) contra a facilitação do acesso de usuários a sites bloqueados de apostas e mercados de previsão. O comunicado citava especificamente a Polymarket e serviços semelhantes.

Relatórios da mídia indiana indicaram posteriormente que as autoridades já haviam tomado medidas contra a Polymarket e se preparavam para ações semelhantes contra a Kalshi. Apesar dos alertas, usuários na Índia ainda conseguiam acessar e criar contas em ambas as plataformas durante o mês de maio.

Kalshi fica inacessível na Índia após proibição local de mercados de previsão. (Fonte: Kalshi)

Representantes legais da Kalshi afirmaram anteriormente que a empresa havia mantido diálogo com as autoridades indianas e não havia recebido nenhuma determinação para interromper suas operações. Eles também declararam que a plataforma cumpriria quaisquer solicitações oficiais do governo caso viessem a ser emitidas.

Mercados de previsão sob escrutínio durante a Copa do Mundo da FIFA

O banimento da Kalshi na Índia ocorre em meio ao aumento da vigilância global sobre mercados de previsão. Em 17 de junho, reguladores da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Espanha e Suíça assinaram uma declaração conjunta prometendo maior cooperação contra operadores que não cumpram as leis locais. O anúncio coincidiu com a Copa do Mundo da FIFA, período esperado para gerar grande volume de apostas e atividades especulativas.

Reguladores europeus afirmaram que os mercados de previsão se tornaram mais populares nos últimos anos, especialmente entre adultos mais jovens. Eles alertaram que algumas plataformas podem não oferecer proteções normalmente exigidas em mercados de jogos regulados, como limites de gastos, restrições de tempo e medidas robustas de verificação de idade.

As autoridades também destacaram preocupações relacionadas a danos associados ao jogo, uso de informação privilegiada, integridade de mercado e volatilidade financeira. A Autorité Nationale des Jeux (ANJ), da França, que liderou a iniciativa, alertou que alguns produtos de mercados de previsão podem contribuir para o que chamou de “ciclo significativo de dependência”.

Reguladores europeus miram operadores de mercados de previsão

A ação coordenada representa uma das respostas regulatórias mais fortes até agora contra o setor de mercados de previsão, que cresce rapidamente. Reguladores pediram que federações esportivas, ligas e clubes verifiquem se operadores desse tipo estão devidamente autorizados em suas jurisdições antes de firmar acordos de patrocínio ou comerciais.

A declaração também descreveu uma série de ferramentas de fiscalização disponíveis às autoridades nacionais, incluindo advertências, multas, restrições de publicidade e bloqueio em nível de provedores de internet.

Vários países, incluindo Espanha, França, Bélgica e Holanda, já adotaram medidas para restringir o acesso a plataformas como Kalshi e Polymarket. O regulador espanhol de jogos anteriormente bloqueou o acesso local às duas operadoras, argumentando que elas ofereciam jogos de azar não licenciados sem a devida autorização.

Crescimento dos mercados de previsão enfrenta desafios regulatórios

O aumento do escrutínio ocorre apesar das projeções de forte crescimento para o setor. Segundo a gestora Bernstein, o volume anual de negociação em mercados de previsão pode atingir US$ 1 trilhão até 2030, à medida que a participação se expande e novos casos de uso surgem além da política e do esporte. Esse crescimento intensificou o debate sobre como esses produtos devem ser regulados.

Muitos reguladores argumentam que contratos vinculados a resultados futuros se assemelham fortemente a produtos de apostas tradicionais e, portanto, deveriam ser enquadrados nas leis de jogos existentes.

A World Lottery Association adota posição semelhante. A organização defende que os mercados de previsão sejam regulados sob o mesmo arcabouço aplicado a operadores de apostas esportivas.

Em um recente posicionamento, a associação argumenta que produtos que oferecem retorno financeiro baseado em resultados esportivos devem ser tratados como apostas, independentemente da terminologia usada pelas operadoras.

Indústria de jogos na Índia sente o impacto

As mudanças regulatórias na Índia afetaram mais do que apenas operadores de mercados de previsão. Diversas empresas de jogos alteraram seus modelos de negócio desde a implementação das novas regras de jogos online no país. Entre elas está a Flutter Entertainment, que suspendeu concursos pagos em sua operação de skill gaming Junglee, apesar de expectativas de que o negócio pudesse gerar cerca de US$ 200 milhões em receita em 2026.

Pesquisas da organização CUTS International sugerem que a atividade de apostas offshore aumentou após as restrições da Índia ao jogo com dinheiro real, levantando dúvidas sobre a eficácia de longo prazo de políticas baseadas em proibição.

Ainda assim, os reguladores permanecem focados na proteção do consumidor, na segurança dos investidores e no enquadramento legal de produtos que permitem especular sobre eventos futuros com dinheiro real.

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