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Pelas lentes de Aso Obinna: Nigéria em foco – Parte 2

Garance Limouzy
Escrito por Garance Limouzy
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Nesta segunda parte da conversa entre a SiGMA News e Aso Obinna, CEO da Select Punters, o foco se volta para as pessoas. Ele explica por que, no caminho de desenvolvimento da Nigéria, a proteção ao consumidor, uma fiscalização inteligente e a segurança jurídica são elementos indispensáveis. Obinna também aborda como soluções inovadoras — como as apostas simuladas e a adoção de diferentes níveis de licenças para operadores informais — são decisivas para o sucesso futuro do setor.

Proteger as pessoas por trás dos números

Grande participação traz grande responsabilidade. Sessenta milhões de usuários diários representam famílias, não apenas estatísticas. A dependência do jogo e as fraudes continuam sendo riscos reais, e a reputação do setor depende diretamente de mecanismos eficazes de proteção.

Obinna defende que as salvaguardas precisam evoluir. “Com 60 milhões de pessoas participando diariamente, a proteção ao consumidor deixou de ser opcional; ela é a base da longevidade da indústria. Nós apoiamos totalmente a criação de um Registro Nacional de Autoexclusão, no qual o usuário possa bloquear seu acesso a mais de 100 operadores licenciados de forma imediata. Mas acreditamos que os reguladores precisam ir além e entender por que as pessoas jogam. Nossa pesquisa na Select Punters mostra que uma grande parcela dos usuários está ali puramente pelo entretenimento e pela emoção de prever resultados, e não apenas para ganhar dinheiro.”

Esse ponto muda o eixo do debate. Nem todo jogador busca lucro. Muitos apenas gostam do jogo. Motivações ligadas ao entretenimento exigem ferramentas diferentes.

Ele se inspira no mercado financeiro: “Assim como nos mercados financeiros os traders usam contas demo para aprender sem risco, introduzimos o conceito de ‘aposta em papel’ (paper betting). Isso permite que os usuários utilizem contas simuladas para satisfazer seu gosto por prever resultados sem colocar dinheiro real em jogo. Ao normalizar as apostas simuladas como forma de entretenimento, oferecemos uma alternativa segura para quem simplesmente gosta do jogo. Observamos que isso reduz drasticamente as apostas impulsivas com dinheiro real. Se os reguladores priorizarem esse tipo de ferramenta inovadora e psicológica, junto com a fiscalização tradicional, poderemos proteger os mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, construir uma indústria legal forte, baseada em uma participação saudável.”

A simulação permite praticar sem consequências e reduz a pressão. Também diminui decisões impulsivas e transforma o jogo em diversão, e não em desespero. Para Obinna, proteger o consumidor é o que garante a sustentabilidade do mercado.

Superar o mercado informal da Nigéria

O mercado paralelo na Nigéria continua existindo apesar dos esforços de reforma. Agentes não licenciados ainda atuam nas ruas dos bairros, e as transações em dinheiro seguem invisíveis e fora de qualquer controle. A fiscalização, sozinha, não resolve o problema.

Obinna aposta mais na economia do que na repressão. “A verdade é que não dá para simplesmente combater o mercado informal com polícia; é preciso superá-lo em competitividade. Apesar de anos de esforços regulatórios, o ecossistema informal prospera porque, para muitos pequenos agentes, o ‘preço de entrada’ no mercado legal é alto demais. Na Select Punters, acreditamos que a chave para reduzir os operadores ilegais sem travar o crescimento é a criação de licenças em níveis. Um caminho seria substituir esse modelo único, que exige milhões de nairas em garantias bancárias de uma pequena casa de apostas de bairro, por microlicenças que diminuam as barreiras de entrada.”

“Mais pessoas serão incentivadas a participar se as barreiras forem reduzidas. Elas serão formalizadas, ampliando a base tributária. Mais pontos de apostas de rua se tornarão legais, e os cidadãos estarão mais protegidos. A fiscalização deve ser inteligente, não frouxa. Ao tornar viável que os agentes da economia informal ingressem no mercado regulado, nós os incluímos no sistema tributário e os submetemos às regras de proteção ao consumidor. Isso não é fiscalização branda; é fiscalização inteligente. Devemos parar de ver todos os agentes não registrados como criminosos e passar a enxergá-los como potenciais parceiros que precisam de uma ponte realista para a economia formal”, acrescenta.

A mensagem deveria ser clara: é preciso tornar mais barato ser legal do que ilegal. A tecnologia fornecerá as ferramentas para fechar brechas, e os incentivos cuidarão do resto.

Competição em nível continental

O mercado de jogos na África cresce rapidamente. Quênia e África do Sul competem de forma agressiva, enquanto o capital flui para ambientes mais estáveis. A clareza regulatória se transforma em uma arma competitiva. Para Obinna, a Nigéria já tem escala.

Agora, precisa de previsibilidade. “Para continuar sendo a ‘joia da coroa’ do iGaming africano ao lado da África do Sul e do Quênia, a Nigéria precisa oferecer segurança jurídica. Investidores internacionais não temem tanto impostos altos quanto temem impostos imprevisíveis. Nossa prioridade deve ser um plano regulatório de 10 anos. Se o investidor souber que as regras do jogo não vão mudar a cada eleição ou decisão judicial, a Nigéria atrairá facilmente a próxima onda de grandes operadores globais e provedores de tecnologia para jogos.”

Segundo ele, a consistência gera confiança. A confiança atrai capital, o capital constrói infraestrutura e a infraestrutura sustenta o crescimento.

Um país em uma encruzilhada

Na visão de Obinna, a Nigéria se encontra em um momento delicado. Há impulso, demanda e talento, mas ainda falta alinhamento. Reguladores, operadores e legisladores continuam atuando de forma isolada.

É necessária uma direção unificada. Não um controle federal absoluto nem uma fragmentação caótica. Em sua visão, não existem extremos: nem centralização total, nem desordem. O que se precisa é de uma regulação equilibrada, que torne o licenciamento acessível, estabeleça regras claras e eficazes e garanta forte proteção ao consumidor. As implicações vão além do setor de jogos: envolvem geração de empregos, atração de investimentos, crescimento dos pagamentos digitais e do fintech, e a forma como a Nigéria se posiciona no mercado global.

A história do jogo na Nigéria ainda está sendo escrita e, para Obinna, ela passa pela colaboração. A política pública precisa finalmente acompanhar as pessoas. Só assim esse gigante poderá operar em sua capacidade máxima.

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