Quando o engenheiro sênior Hayden Bruin se senta para a entrevista durante o ICE Barcelona, ele admite que esta não é apenas sua primeira entrevista para a SiGMA, mas também sua primeira conferência da indústria. “Quando você entra, é muito impactante… é como entrar em um cassino de verdade”, brinca, descrevendo as luzes, os sons e o burburinho constante no piso da feira.
Das apostas a uma infraestrutura de milhões de apostas por segundo
O caminho de Bruin até o iGaming está longe de ser convencional. “Meu histórico em iGaming… na verdade, eu quase não tinha, o que é até legal”, diz ele, ao lembrar que começou há cerca de quatro anos, trabalhando inicialmente no produto de apostas esportivas da Stake.com. Lidar com “tantas odds dinâmicas e eventos acontecendo ao mesmo tempo” em grande escala acabou sendo um excelente treinamento para o que viria depois.
Hoje, ele ajuda a construir uma infraestrutura capaz de processar “mais de um milhão de apostas por segundo” — um desafio que, segundo ele, tem menos a ver com atalhos geniais e mais com iteração constante. “Nós monitoramos a plataforma o tempo todo, estamos sempre observando”, explica, destacando que o verdadeiro ganho de escala vem de analisar o comportamento dos usuários nos momentos de pico e, então, eliminar ineficiências de forma cirúrgica, em vez de buscar uma perfeição precoce.
Por que “perfeito desde o primeiro dia” é a mentalidade errada na engenharia
Questionado sobre o que muitos desenvolvedores erram ao pensar em escalabilidade, Bruin é direto: tentar criar uma arquitetura perfeita logo no início. “Quando as pessoas constroem plataformas, querem fazer tudo perfeito desde o começo, e isso simplesmente não é o caminho certo”, afirma. Sua filosofia é “crescer junto com o backend e o frontend”, revisitando constantemente os gargalos reais à medida que o tráfego evolui.
Ele ilustra isso com uma otimização simples, porém reveladora. Quando um jogador faz uma aposta, só existem dois resultados possíveis: ganhar ou perder. “Você só precisa chamar o endpoint de finalização da rodada quando o jogador ganha”, explica. “Antes, fazíamos isso nos dois casos… mas percebemos que não era necessário quando ele perdia.” Essa pequena mudança elimina chamadas desnecessárias e torna o fluxo mais eficiente, provando que, em sistemas de alto volume, micro-otimizações se acumulam rapidamente.
Compliance como desafio de engenharia, não apenas jurídico
A conversa avança para um dos temas mais delicados do setor: conformidade regulatória. Com certificações de RNG, recursos de jogo responsável e exigências de KYC variando de mercado para mercado, Bruin enxerga isso menos como um fardo legal e mais como um problema de engenharia — especialmente agora que a Stake e a Stake Engine miram jurisdições cada vez mais reguladas.
Para manter os desenvolvedores produtivos, sua equipe leva a conformidade para o início do processo. Quando um desenvolvedor submete um jogo, “temos uma lista de diretrizes que você precisa seguir”, diz ele, incluindo “toda a linguagem social, palavras que não podem ser usadas e suas substituições adequadas”. Quando o título chega à fase de revisão, grande parte do trabalho pesado já foi feita, permitindo que os revisores “marquem os itens rapidamente”.
Olhando para o futuro, Bruin acredita que a automação vai avançar ainda mais. Ele imagina “algum tipo de solução com IA em que a própria IA jogue o game e valide os requisitos”, tratando os testes de compliance como um fluxo repetível, e não como um gargalo que atrasa lançamentos.
Repensando o acesso: de redes fechadas a plataformas abertas
Historicamente, lançar um jogo de cassino sem os contatos certos sempre foi extremamente difícil. “Era muito complicado colocar seu jogo em uma plataforma se você não tivesse nenhuma rede de relacionamentos no setor”, observa Bruin. Esse modelo de portas fechadas é, para ele, uma das coisas que mais precisam mudar.
Nesse sentido, explica, a filosofia da Stake Engine é reduzir ao máximo as barreiras para quem cria. “Você se cadastra, não há taxa de inscrição. É tudo muito simples”, afirma. “Você se cadastra, cria um jogo, lê a documentação e pronto.” Ele compara a abordagem à da App Store: qualquer pessoa pode publicar um app; alguns terão sucesso, outros não, mas a barreira de entrada é baixa.
O objetivo, segundo ele, não é favorecer um tipo específico de estúdio, mas “dar às pessoas a chance de colocar seus jogos diante do público”, sejam fornecedores consolidados ou uma equipe de duas pessoas com uma ideia nova.
Dados, IA e o fim do lobby estático
Outro ponto em que Bruin acredita que o setor precisa evoluir é na análise de dados. Para ele, a falta de feedback sempre limitou a inovação, obrigando desenvolvedores a criar quase no escuro. A Stake Engine segue o caminho oposto. “A cada cinco minutos você consegue ver o que está acontecendo com o seu jogo”, explica — desde os modos que os jogadores mais usam até quais recursos realmente geram engajamento. Com esse ritmo, os estúdios podem aplicar rapidamente os aprendizados de um lançamento no seguinte.
Na visão de Bruin, a IA e os mecanismos de recomendação são uma extensão natural disso. “Com a velocidade em que os jogos estão sendo lançados, o modelo antigo de uma homepage cheia de categorias já está ultrapassado”, afirma. Ele prevê que a personalização vai dominar: os jogadores passarão a ver “jogos que tenham mais chance de gostar”, transformando o lobby do cassino em algo muito mais dinâmico — e exigente do ponto de vista de infraestrutura.
Primeira conferência, curva de aprendizado intensa
Apesar da profundidade técnica da conversa, Bruin volta várias vezes à sensação pessoal de estar vivendo tudo isso pela primeira vez. “Quando você entra, é muito impactante… mas é incrível. Eu adorei.”
Ao final da entrevista, ele brinca dizendo que já está “exausto” e quase desejando que o dia termine, mas claramente energizado pelas conversas e pelas possibilidades que o setor oferece. De certa forma, esse contraste resume bem o momento da engenharia em iGaming: um pouco sobrecarregada pela complexidade, mas mais empolgada do que nunca para construir o que vem a seguir.
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