O mercado de bets no Brasil finalmente entrou na era da regulamentação, mas a sensação dentro do próprio setor é que boa parte dos problemas de hoje surgiu antes que as regras estivessem prontas.
Depois de anos operando em um “limbo jurídico”, as bets explodiram no Brasil muito antes da fiscalização ganhar estrutura. O resultado foi um crescimento acelerado, altamente lucrativo e difícil de controlar. Hoje, o país já é considerado um dos mercados mais valiosos do mundo para operadores de apostas online, mas também um dos mais sensíveis politicamente.
Os números ajudam a explicar o tamanho dessa transformação.
Só em 2025, primeiro ano de operação sob o novo modelo regulatório federal, as empresas que operaram sob a regulamentação movimentaram BRL37 bilhões ($ 6,5 bilhões) em receita bruta de jogos (GGR), segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA). O governo também informou que 25,2 milhões de brasileiros fizeram apostas ao longo do ano e que mais de 25 mil sites ilegais foram bloqueados no período.
Ao mesmo tempo, mais de 217 mil pessoas solicitaram autoexclusão voluntária das plataformas em apenas 40 dias de funcionamento do sistema nacional de bloqueio de contas, sendo “perda de controle sobre o jogo” o principal motivo apontado pelos usuários.
O crescimento do setor trouxe arrecadação bilionária, patrocínios recordes no futebol e uma enxurrada de investimentos em publicidade. Mas também abriu espaço para um debate que ficou muito mais intenso nos últimos meses: o mercado cresceu antes de construir mecanismos reais de proteção ao consumidor?
Para Vinicius Pinho, fundador e CEO da ABCBET (Associação Brasileira de Conformidade, Boas práticas, Ética e Transparência em apostas), esse desequilíbrio começou ainda antes da regulamentação. “Quando você fica muito tempo sem regulação, o mercado ilegal cresce numa progressão geométrica absurda”, afirmou durante uma entrevista exclusiva concedida ao SiGMA News.
A fala resume uma percepção que hoje é compartilhada até por parte das empresas do setor: o Brasil demorou tanto para regulamentar as apostas que o mercado ilegal ganhou escala, relevância e influência antes mesmo da chegada das regras.
Embora as apostas esportivas tenham sido legalizadas em 2018, a regulamentação prática demorou anos para sair do papel. Nesse intervalo, centenas de plataformas passaram a operar livremente no país, muitas sem presença física no Brasil, sem controle financeiro claro e sem qualquer política de proteção ao usuário. Quando o governo finalmente iniciou a fiscalização efetiva, em 2025, o mercado já era gigantesco.
Hoje, a SPA monitora dezenas de operadores autorizados, enquanto tenta combater um mercado paralelo que continua extremamente ativo. Além dos bloqueios de sites, o governo também passou a fechar contas bancárias ligadas a operações irregulares e remover publicidade clandestina nas redes sociais.
O problema é que a discussão sobre apostas deixou de ser apenas econômica. Ela virou também um debate sobre saúde mental, educação financeira e responsabilidade publicitária.
A publicidade virou um dos maiores desafios do mercado de bets no Brasil
Nos últimos dois anos, as bets dominaram o futebol brasileiro. Todos os clubes da Série A tiveram marcas de apostas estampadas em seus uniformes em 2025. As empresas do setor investiram cerca de BRL1,4 bilhão ($245 milhões) em mídia no mesmo período, incluindo televisão, streaming, rádio e plataformas digitais.
O bombardeio publicitário ajudou a acelerar o crescimento das plataformas, mas também passou a incomodar as autoridades, alguns especialistas e parte da opinião pública. A crítica principal é que o setor criou campanhas extremamente agressivas antes de consolidar uma cultura forte de jogo responsável. Segundo Vinicius, esse foi um dos maiores erros do início da regulamentação.
“O mercado regulado não usou os primeiros meses da regulação para ser intensivo em publicidade de jogo responsável”, disse.
A preocupação não está apenas na quantidade de anúncios, mas principalmente na forma como as apostas foram apresentadas ao consumidor brasileiro. Durante anos, parte da publicidade feita por influenciadores passou a associar apostas a independência financeira, luxo, dinheiro rápido e mudança de vida. Em muitos casos, a comunicação se aproximava muito mais da lógica de investimento do que de entretenimento.
Para especialistas em comportamento digital e saúde financeira, isso ajudou a criar uma percepção perigosa, especialmente entre jovens adultos e pessoas financeiramente vulneráveis.
Na entrevista, Vinicius também chama atenção para outro ponto sensível: a baixa educação financeira da população brasileira. Segundo ele, os consumidores sem familiaridade com apostas acabam mais suscetíveis a gatilhos emocionais, campanhas apelativas e falsas expectativas de lucro. “O caminho precisa ser sempre o da diversão e nunca o de transformar aposta em solução para dívida”, afirmou.
Essa preocupação aumentou principalmente com a criação da CPI das Bets (Comissão Parlamentar de Inquérito), criada para investigar o impacto das apostas online no orçamento das famílias brasileiras, possíveis ligações com lavagem de dinheiro e o papel de influenciadores na promoção das plataformas.
O compliance virou debate central no mercado de bets no Brasil
Com a regulamentação, termos como compliance, integridade e jogo responsável passaram a aparecer em praticamente todas as campanhas institucionais das empresas de apostas. Mas dentro do próprio setor existe um receio de que parte desse discurso não seja com as intenções esperadas. Vinicius critica justamente esse posicionamento. Segundo ele, muitas empresas passaram a usar compliance mais como estratégia de marketing do que como transformação estrutural interna.
“Você fala muito sobre algo que está fazendo e, quando vai ver na prática, aquilo é muito frágil.”
A crítica envolve desde políticas genéricas copiadas de outros mercados até programas internos criados apenas para cumprir exigências regulatórias. Na visão dele, existe uma diferença enorme entre “estar compliance” e “ser compliance”.
O mercado brasileiro continua em fase inicial de maturidade regulatória. Muitas empresas entraram no país rapidamente, impulsionadas pelo potencial financeiro do Brasil, mas ainda estão estruturando áreas de prevenção à lavagem de dinheiro, monitoramento de comportamento compulsivo e controle de publicidade.
O próprio governo já intensificou a fiscalização. Em 2025, a SPA abriu mais de 130 processos administrativos envolvendo empresas de apostas e ampliou as ações contra publicidade ilegal nas redes sociais, incluindo remoção de perfis de influenciadores e conteúdos patrocinados irregulares.
O mercado de bets no Brasil deve passar por consolidação
Apesar do número elevado de plataformas operando atualmente, a tendência dentro do mercado é de consolidação. O Brasil tem hoje centenas de marcas ativas entre empresas regulamentadas e operações paralelas, mas Vinicius acredita que boa parte delas não conseguirá sobreviver ao aumento dos custos regulatórios.
Além da licença de BRL30 milhões ($6,1 milhões), os operadores precisam investir em tecnologia, compliance, equipes jurídicas, monitoramento financeiro e adaptação constante às novas exigências da SPA. “Quem não tiver programas sólidos de compliance não vai se manter”, afirmou Vinicius.
A expectativa é que grandes grupos internacionais acabem dominando o mercado brasileiro nos próximos anos, repetindo um acontecimento já visto em outros países que passaram por processos semelhantes de regulamentação.
Ainda assim, o setor continua otimista em relação ao potencial brasileiro. O país reúne praticamente tudo o que a indústria procura: enorme população conectada, cultura esportiva forte, alto engajamento digital e grande capacidade de consumo online. Mas o crescimento sustentável do mercado dependerá cada vez mais de credibilidade.
E esse talvez seja o principal desafio das bets no Brasil daqui para frente: convencer os consumidores, as autoridades e a opinião pública de que o setor consegue crescer sem repetir os erros que transformaram outros mercados globais em alvo de crise política e desgaste social.


