À medida que novos centros de licenciamento tentam se livrar do estigma associado à regulamentação offshore, um consultor do setor afirma que o verdadeiro teste não é o marketing, mas se os reguladores conseguem demonstrar compreensão do negócio, aplicar suas regras de forma consistente e planejar o futuro. Durante anos, jurisdições menores de jogos enfrentaram um problema simples: podiam atrair negócios rapidamente, mas nem sempre conquistar respeito e credibilidade.
Agora, à medida que algumas jurisdições buscam se posicionar como centros regulatórios sérios, a abordagem muda. A promessa não é mais supervisão superficial ou entrada fácil no mercado, mas checagens mais rigorosas, regras claras e uma reputação mais limpa.

Gilad Oren, CEO da GBO e consultor de serviços corporativos que trabalha com empresas de jogos e reguladores, explica que a mudança só se torna crível quando aparece nos detalhes.
“Se vejo um regulador começando a fazer perguntas focadas que mostram que ele entende o negócio, isso é um ótimo sinal de que a regulamentação está evoluindo”, disse à SiGMA News.
Com 17 anos de experiência em iGaming e participação no lançamento de centenas de novas operações, Oren descreve um mercado onde a percepção pode subir ou cair rapidamente. Para ele, o sinal mais forte não é a retórica de reforma, mas se o regulador se torna mais exigente de forma coerente.
Isso envolve due diligence mais profunda, maior fiscalização de propriedade e financiamento e uma postura séria em relação a reclamações. Um exemplo citado é o uso de ADR (resolução alternativa de disputas), um processo independente que resolve conflitos sem necessidade de ação judicial. “A forma como um regulador lida com reclamações mostra sua maturidade. Muitos estão migrando para ADR, o que é ótimo. Mas ainda quero ver que o regulador seja proativo nessa área”, disse Oren.
Para ele, essa é a diferença entre uma jurisdição que busca construir um negócio duradouro e outra que apenas tenta atrair um pico de registros.
O custo de ser levado a sério
Para jurisdições menores, regras mais rígidas podem ter um custo a curto prazo. Exigências de entrada mais duras podem afastar operadores que se interessariam por mercados de supervisão mais flexível.
“Eles não querem operadores duvidosos”, disse Oren, referindo-se a uma jurisdição recente que ele assessora. “Por quê? Porque com operadores duvidosos, rapidamente surgem mais reclamações, e isso prejudica a reputação do regulador.”
Num setor em que provedores de pagamento, bancos e fornecedores de software acompanham de perto a qualidade das licenças, a reputação fraca se espalha além de um operador, tornando uma licença difícil de usar e uma jurisdição difícil de vender.
Para Oren, credibilidade de longo prazo é um ativo comercial. “Bancos não aceitam licença de um regulador que perdeu a confiança do mercado. A longo prazo, isso causa um enorme problema.”
Essa lógica está levando alguns governos a pensar além do próximo ciclo de licenciamento. Falando sobre Nevis, ilha do Caribe que se tornou uma nova jurisdição de iGaming, Oren afirmou que a ambição é construir um hub de jogos consolidado ao longo de décadas, e não buscar lucro rápido.
“Em Nevis, por exemplo, eles planejam 20 anos à frente para construir um verdadeiro hub de jogos”, disse.
Ele apontou ainda legislação moderna, apoio governamental e investimento em tecnologia de licenciamento, incluindo portais que reduzem burocracia e agilizam comunicação entre candidatos e equipes de compliance.
“A ordem de jogos foi criada pensando no futuro. É clara, fácil de entender e construída para uma nova geração de operadores”, afirmou.
A fiscalização é o que realmente importa
Regras mais rigorosas no papel, por si só, não resolvem a questão. A regulamentação offshore há muito convive com a suspeita de que condições formais podem não ser acompanhadas de fiscalização efetiva.
Oren, no entanto, enfatizou que o risco para os operadores é real. Se uma empresa violar os termos de sua licença, disse ele, as consequências podem ser imediatas e severas.
Ele descreveu uma reação em cadeia: provedores de pagamento se afastando, bancos se recusando a trabalhar com a empresa, fornecedores de software recuando e danos à reputação se espalhando pelo mercado. “É como uma bola de neve”, afirmou.
Por isso, em sua visão, a regulamentação deixou de ser apenas um adorno opcional para o setor e passou a ser parte da própria sobrevivência da indústria.
“Para todos os envolvidos no iGaming, é melhor que o setor se torne mais maduro e mais regulado”, disse. “Para os jogadores também, significa menos golpes e menos fraudes. É melhor de todas as formas, de verdade.”
Mesmo assim, ele alertou que nem toda nova ambição regulatória é igualmente convincente. Sobre mercados de previsão, uma área em rápido crescimento que atrai interesse de grupos de jogos e legisladores, Oren se mostrou particularmente cauteloso.
“Mercados de previsão são algo muito complexo”, afirmou. “É fácil dizer que você os regula, mas, na prática, ainda está muito longe de realmente fazê-lo.”
Esse ceticismo aponta para uma questão mais ampla. Em um mercado global saturado, jurisdições menores podem ser tentadas a entrar cedo em setores emergentes em busca de vantagem competitiva. Gibraltar já deu um passo concreto, licenciando seu primeiro operador de mercados de previsão. Anjouan, por sua vez, está se posicionando como um hub de licenciamento para esses mercados, na esperança de que uma entrada antecipada a destaque.
No entanto, anúncios prematuros sozinhos dificilmente terão peso se não forem acompanhados pela expertise, infraestrutura e fiscalização necessárias para sustentá-los, explicou Oren.
Para aqueles que buscam reconstruir sua reputação, o desafio é claro, embora não seja fácil: mostrar que as regras são reais, provar que são aplicadas e demonstrar que o planejamento vai além do próximo ciclo de receita de licenciamento.
No mundo do iGaming, essa pode ser a diferença entre uma jurisdição que se mantém no longo prazo e outra que não se sustenta.
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