Durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, exibido pelo CanalGov, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que a regulamentação aprovada pelo Congresso “não resolveu” os problemas do setor e acusou as empresas de apostas de envolvimento com lavagem de dinheiro, financiamento de campanhas digitais contra o governo Lula e manipulação no Congresso para evitar a taxação do mercado.
As declarações aconteceram ontem, em um período em que o governo federal está tentando tomar novas medidas contra as apostas online, principalmente diante da preocupação com o endividamento da população e com os impactos sociais da ludopatia. O tema já vem sendo discutido nos bastidores de Brasília, desde o avanço da regulamentação em 2023.
Segundo Boulos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconhece que as medidas aprovadas até aqui não conseguiram conter os problemas relacionados às apostas online. “O Lula tentou uma regulamentação no Congresso, que foi aprovada, mas ela não resolveu”, declarou o ministro.
Além disso, Boulos afirmou que várias empresas do setor aparecem em investigações relacionadas à lavagem de dinheiro e criticou o modelo tributário atual das bets. Segundo ele, as plataformas pagam menos impostos do que trabalhadores assalariados, o que classificou como “um escândalo”.
“Essas bets viraram uma epidemia. Não adianta proibir os cassinos se eles estão na palma da sua mão. […] Estão corroendo a família brasileira, estão tomando dinheiro do trabalhador brasileiro. […] É algo que está comendo o tempo livre do trabalhador, transformando em um tempo de vício, de destruição da convivência e de arruinar as famílias com dívidas.” Afirmou Guilherme Boulos durante a live.
Nas últimas semanas, alguns integrantes do governo passaram a associar diretamente o crescimento das apostas online ao aumento do endividamento das famílias brasileiras. O tema inclusive entrou nas discussões do novo programa Desenrola Brasil 2.0, lançado pelo Ministério da Fazenda.
Uma das medidas anunciadas prevê que usuários que aderirem ao programa de renegociação de dívidas ficarão impedidos de utilizar plataformas de apostas por um período de um ano. A justificativa do governo é evitar que pessoas voltem ao ciclo de endividamento por causa do jogo online.
Segundo a ANJL, Associação Nacional de Jogos e Loterias, “o endividamento dos brasileiros está fortemente associado aos altos juros praticados no país e atribuir às apostas a responsabilidade pelo endividamento das famílias brasileiras é ignorar as causas estruturais do problema”.
O assunto também ganhou força por causa da explosão de popularidade dos cassinos online, principalmente os jogos como o Fortune Tiger, conhecido popularmente como “jogo do tigrinho”. Esses jogos passaram a dominar as campanhas publicitárias nas redes sociais brasileiras nos últimos dois anos, impulsionados por influenciadores digitais, streamers e campanhas agressivas de afiliados.
O crescimento acelerado do setor fez o Brasil se tornar um dos maiores mercados de apostas online do mundo em número de usuários. Ao mesmo tempo, aumentaram as discussões sobre publicidade excessiva, vício em jogos, proteção de menores e uso indevido de plataformas ilegais.
O gráfico abaixo, da Blask (plataforma internacional de inteligência de mercado especializada na indústria de iGaming), mostra a evolução do interesse dos usuários brasileiros por plataformas de apostas online ao longo dos últimos meses, indicando um crescimento consistente do mercado até atingir 239,4 milhões de acessos estimados em abril de 2026, alta de 6,97% em relação ao mês anterior. O gráfico ajuda a ilustrar como o Brasil se tornou rapidamente um dos maiores mercados de iGaming do mundo em atividade digital, mesmo após o avanço da regulamentação federal.

O ponto que os críticos levantam sobre a proibição do mercado é justamente esse: proibir as apostas não eliminaria o mercado, mas empurraria novamente milhões de brasileiros para plataformas ilegais e sem qualquer supervisão estatal.
Foi exatamente essa linha usada por Magnho José, presidente do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL) e editor do BNLData. Segundo ele, o debate atual ignora os avanços obtidos com a regulamentação e pode fortalecer novamente a clandestinidade.
“A verdadeira questão não é se ela deve existir, mas quem a governa — o Estado ou a ilegalidade”, afirmou, segundo o portal Yogonet. Ele também classificou o período entre a legalização das apostas esportivas, em 2018, e a regulamentação efetiva como um “período selvagem”, marcado pela ausência de controle estatal.
A regulamentação das apostas esportivas no Brasil começou ainda no governo Michel Temer, quando foi sancionada a lei que autorizou as apostas de quota fixa. No entanto, o setor passou vários anos sem regras de operação. Apenas no governo Lula, em 2025, a regulamentação foi concluída, com definição de licenças, tributação, regras de publicidade e exigências de compliance. Mesmo assim, o tema continua longe de um consenso dentro do próprio governo.
A discussão também ganhou peso político por causa da aproximação das eleições de 2026. O combate às bets passou a aparecer cada vez mais no discurso de integrantes do PT e aliados do governo, especialmente em pautas ligadas ao consumo popular, renda familiar e proteção social.
Nos últimos meses, diferentes projetos começaram a circular no Congresso Nacional propondo restrições mais severas à publicidade de apostas, limitação de jogos de cassino online e até o bloqueio de determinadas modalidades consideradas mais agressivas do ponto de vista psicológico.
Entre os argumentos usados por parlamentares favoráveis às restrições está justamente o funcionamento de jogos baseados em algoritmos de recompensa variável, mecanismo frequentemente associado à criação de dependência comportamental. É o caso do Pedro Uczai, líder do PT (Partido dos Trabalhadores) na Câmara dos Deputados, que apresentou um projeto de lei que propõe criminalizar as apostas no Brasil.
Enquanto isso, o Brasil segue tentando encontrar um equilíbrio entre arrecadação, fiscalização e proteção ao consumidor em um dos mercados digitais que mais cresceram no país nos últimos anos.
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