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Jogos online representam 85% do mercado ilegal de apostas de €30 bilhões na Itália

Tony Colapinto
Escrito por Tony Colapinto
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

O mercado ilegal de apostas na Itália está migrando cada vez mais para o ambiente online, e os reguladores enfrentam dificuldades crescentes para acompanhar essa transformação. Essa é a principal conclusão do estudo “Measuring the Illegal Gambling Market in Italy”, conduzido pelo Grupo de Pesquisa Industrial e Financeira “Fabio Gobbo”, da Universidade LUISS Guido Carli, em Roma. Segundo o relatório, a economia paralela do jogo no país alcançou cerca de €29,8 bilhões entre 2015 e 2023, sendo que o jogo online sozinho respondeu por mais de 85% desse total.

A pesquisa, apresentada em Roma durante uma conferência promovida pela Novomatic Italia, evidencia uma transformação profunda no setor de iGaming italiano. O estudo mostra que as atividades ilegais de apostas estão migrando rapidamente para plataformas digitais, muitas vezes difíceis de identificar por meio das ferramentas tradicionais de fiscalização. O fenômeno vai muito além da evasão fiscal ou da perda de arrecadação pública, levantando preocupações mais amplas relacionadas à proteção do consumidor e à sustentabilidade de longo prazo do mercado regulado.

Jogo online domina o mercado ilegal

Segundo o estudo da LUISS, o segmento ilegal de jogos online movimenta aproximadamente €25,4 bilhões, o equivalente a 85,16% do mercado clandestino estimado. O número supera amplamente os demais segmentos analisados, incluindo apostas presenciais, máquinas de jogo e loterias.

A dimensão desse crescimento digital também fica evidente na evolução do GGT online, que saltou de cerca de €16,6 bilhões em 2015 para mais de €81,7 bilhões em 2023. A pandemia acelerou uma tendência que já estava em andamento, levando milhões de usuários para plataformas remotas de apostas e consolidando hábitos de consumo que permaneceram mesmo após a reabertura dos estabelecimentos físicos.

Os pesquisadores afirmam que essa rápida expansão criou um desequilíbrio crescente entre o avanço do mercado e a capacidade das autoridades de monitorar o setor de forma eficiente. As infrações administrativas identificadas no segmento online continuam relativamente limitadas quando comparadas à escala econômica do fenômeno, assim como as sanções e medidas preventivas aplicadas.

VPNs, servidores offshore e pagamentos anônimos

O principal desafio relacionado ao jogo ilegal online está na capacidade das plataformas não autorizadas operarem fora dos sistemas tradicionais de controle. O estudo destaca que parte desse ecossistema funciona por meio de servidores offshore, ferramentas de anonimização, VPNs, métodos de pagamento não rastreáveis e infraestruturas tecnológicas inerentemente difíceis de detectar.

A Agência de Alfândega e Monopólios da Itália (ADM) vem intensificando seus esforços de fiscalização, bloqueando sites ilegais e monitorando tentativas de acesso a domínios não autorizados. Ainda assim, a própria natureza do ambiente digital torna o fenômeno altamente dinâmico e cada vez mais difícil de conter.

No cenário global do iGaming, o crescimento das plataformas ilegais já representa um dos maiores desafios regulatórios para governos e órgãos supervisores. A velocidade com que esses operadores conseguem migrar entre domínios, infraestruturas e sistemas de pagamento faz com que uma abordagem puramente técnica de fiscalização se torne insuficiente.

Jogo presencial segue mais fácil de monitorar

O cenário muda consideravelmente quando se observa o setor físico. Segundo a pesquisa, máquinas de jogo, como slots e VLTs, continuam sendo muito mais fáceis de supervisionar porque operam em um ambiente físico e regulamentado.

Até 2019, o setor de ADI mantinha níveis de faturamento entre €46 bilhões e €49 bilhões, antes da desaceleração causada pela pandemia. Diferentemente do jogo online, porém, irregularidades em operações presenciais costumam ser identificadas com mais facilidade.

As máquinas são instaladas em estabelecimentos licenciados, conectadas a redes oficiais e submetidas a inspeções técnicas contínuas. Essa presença territorial permite que as autoridades mantenham um nível de controle muito mais direto.

Os pesquisadores destacam que a estrutura do modelo italiano de concessões para operações físicas ainda oferece um arcabouço de fiscalização relativamente sólido, especialmente quando comparado ao ambiente digital.

Apostas ilegais continuam sendo um problema relevante

As apostas esportivas continuam representando o segundo maior componente do mercado ilegal, com valor estimado em cerca de €2,58 bilhões. Embora seja significativamente menor que o segmento de cassino online, a categoria ainda representa uma área sensível para a indústria regulamentada.

Segundo o relatório, parte da demanda dos consumidores migra para operadores não autorizados que oferecem pagamentos mais altos ou condições percebidas como mais atrativas do que aquelas disponíveis nos canais licenciados.

Após a desaceleração registrada durante os anos da pandemia, o setor de apostas se recuperou rapidamente, com o GGT ultrapassando €8,4 bilhões em 2023.

As loterias, por outro lado, apresentam um componente ilegal muito menor e continuam sendo vistas como uma das áreas mais estáveis e rigidamente regulamentadas do mercado italiano de jogos.

Uma estimativa construída com modelos econométricos

O estudo da LUISS deixa um ponto especialmente claro: o valor de €29,8 bilhões não representa uma medição direta da atividade ilegal de apostas, mas sim uma estimativa econométrica baseada em múltiplos modelos estatísticos.

A metodologia combina abordagens OLS, estimadores de painel com efeitos fixos bidirecionais e algoritmos Random Forest, identificando o componente ilegal por meio da análise de atividades econômicas que não podem ser totalmente explicadas pelos dados socioeconômicos e administrativos disponíveis.

Para setores particularmente difíceis de monitorar, como apostas online e betting, os pesquisadores também introduziram multiplicadores corretivos para considerar atividades que podem não deixar rastros nas bases oficiais de dados.

Os próprios autores ressaltam que o número deve ser interpretado como uma estimativa metodologicamente fundamentada, reconhecendo ao mesmo tempo as limitações inerentes à mensuração da economia subterrânea.

Um desafio para os formuladores de políticas públicas

A conclusão do estudo é clara: a principal vulnerabilidade do sistema regulado de jogos da Itália está hoje concentrada no ambiente digital. Por isso, os analistas defendem ferramentas mais robustas de monitoramento online, maior integração de dados de fluxos digitais e sistemas mais avançados de análise de tráfego web e movimentações financeiras.

O debate, porém, já não se resume apenas à recuperação de receitas tributárias perdidas. A discussão também envolve a proteção dos jogadores e a sustentabilidade de longo prazo dos operadores licenciados que atuam dentro do mercado regulamentado.

Se mais de 85% da atividade ilegal de apostas já está concentrada no ambiente online, combater operadores não autorizados se torna inevitavelmente uma prioridade tanto regulatória quanto estratégica para a indústria. Em um mercado cada vez mais globalizado e impulsionado pela tecnologia, a capacidade do Estado de proteger o perímetro legal continuará sendo um dos principais desafios que moldarão o futuro da indústria de jogos na Itália.

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