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Além do cassino: como resorts integrados impulsionam o crescimento

Rajashree Seal
Escrito por Rajashree Seal
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

De Abu Dhabi e Tailândia até Sri Lanka e o Caribe, governos ao redor do mundo estão adotando cada vez mais os resorts integrados (IRs) como instrumentos de desenvolvimento econômico, e não apenas como destinos voltados ao jogo. Antes vistos principalmente sob a ótica da receita gerada por cassinos, os resorts integrados modernos agora são promovidos como catalisadores da diversificação do turismo, atração de investimento estrangeiro direto, expansão de infraestrutura e geração de empregos.

Grande parte do debate em torno dos resorts integrados gira em torno do seu potencial de impulsionar o turismo, atrair investimentos e contribuir para o desenvolvimento econômico mais amplo. No entanto, à medida que mais jurisdições apostam nesse modelo, uma questão central permanece: o jogo regulado pode realmente impulsionar uma transformação econômica de longo prazo ou corre o risco de criar uma nova forma de dependência centrada na receita dos cassinos?

De destinos de cassino a ecossistemas econômicos

A diferença entre um resort integrado bem-sucedido e um boom turístico passageiro depende de quão bem o empreendimento está integrado à economia local mais ampla. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, o estrategista global de turismo e hospitalidade Dr. Dharshana Weerakoon afirma que o principal diferencial é a integração estrutural.

“A linha que separa um resort integrado (IR) que funciona como um verdadeiro catalisador macroeconômico de outro que opera apenas como uma fonte temporária de receita se resume à integração estrutural”, explica. “Quando um IR funciona como um enclave isolado, ele cria um pico econômico superficial que muitas vezes mascara vulnerabilidades estruturais de longo prazo.”

Segundo Weerakoon, muitos destinos emergentes caem na armadilha de criar empreendimentos autocontidos, dominados por áreas de jogo e consumo imediato de visitantes. Embora esses projetos possam gerar números expressivos de receita, grande parte do valor econômico pode vazar por meio de estruturas de propriedade estrangeira, cadeias de suprimentos de luxo importadas e gestão expatriada.

Em contraste, os resorts integrados voltados ao desenvolvimento funcionam como “ecossistemas econômicos multidimensionais”, projetados para diversificar a base econômica de um país. Eles impulsionam o turismo de negócios, fortalecem cadeias produtivas locais e facilitam a transferência de conhecimento para a força de trabalho doméstica.

Um dos elementos mais importantes, segundo ele, é priorizar a infraestrutura de MICE (reuniões, incentivos, conferências e exposições) junto às operações de jogo.

“Ao mudar o público-alvo principal de jogadores casuais para tomadores de decisão corporativos, delegações comerciais e entidades multinacionais, o IR posiciona o destino como um hub comercial global”, explica.

Por que governos estão apostando em resorts integrados

O apelo econômico dos resorts integrados está na capacidade de combinar cassinos, hotéis, entretenimento, centros de convenções e outras infraestruturas turísticas em um único projeto. Defensores do modelo argumentam que a receita do jogo pode ajudar a financiar essas atrações e estruturas mais amplas.

Weerakoon descreve as operações de cassino como o “inquilino âncora financeiro” do empreendimento.

“As margens de lucro excepcionalmente altas do espaço de cassino funcionam como um inquilino âncora financeiro. Essas margens acabam subsidiando os componentes de alto custo e sem geração direta de receita, como grandes praças públicas, centros de convenções de grande capacidade, teatros de artes performáticas e conexões de transporte urbano que, de outra forma, seriam financeiramente inviáveis”, afirma.

Essa lógica sustenta políticas de resorts integrados em diversas jurisdições. Em sua tese de doutorado Integrated Resorts: Singapore’s Answer to Destination Competitiveness?, Lee D.C.H. (2016) observa que Singapura introduziu os IRs não apenas para legalizar cassinos, mas para fortalecer a competitividade turística do país e atrair novos segmentos de visitantes por meio de infraestrutura de entretenimento, convenções e lazer em larga escala.

Da mesma forma, o estudo de Leu e Ko (2012), A Policy Innovation for Social and Economic Development: The Case of Integrated Resorts in Singapore, argumenta que os IRs foram concebidos como ferramentas de geração de empregos, expansão do turismo e desenvolvimento econômico mais amplo, e não como empreendimentos de jogo isolados.

O conceito se espalhou muito além de Singapura. O framework de jogos emergente dos Emirados Árabes Unidos, os complexos de entretenimento propostos pela Tailândia e as ambições de Sri Lanka para seus resorts integrados refletem uma crença crescente de que o jogo regulado pode atuar como catalisador de atividade econômica mais ampla.

O modelo de Singapura e a lição de Macau

Singapura e Macau seguiram caminhos distintos no desenvolvimento de suas indústrias de resorts integrados, oferecendo lições valiosas para mercados emergentes. Segundo o Dr. Weerakoon, Macau alcançou uma rápida acumulação de capital e se consolidou como um dos principais destinos de jogos do mundo. No entanto, ele argumenta que a forte dependência de um único segmento de mercado, especialmente o jogo VIP de alto valor, deixou a economia vulnerável a mudanças de políticas externas, controles cambiais e transformações geopolíticas.

De acordo com o Dr. Weerakoon, a dependência excessiva de Macau em relação ao segmento VIP e ao sistema de promotores de jogo (junkets) tornou o território particularmente suscetível a alterações regulatórias externas, restrições cambiais e mudanças no cenário geopolítico.

Ele descreve essa experiência como “os perigos da monocultura econômica”, observando que o território acabou sendo obrigado a realizar um processo complexo e reativo de diversificação quando seu modelo de negócios tradicional passou a enfrentar dificuldades.

Pesquisas acadêmicas recentes reforçam essa preocupação. No estudo Targeted Tax Incentives for Diversification and Resilience in Macau’s Gaming Economy: A Greater Bay Area Study (2025), Chun Cheong Fong constatou que a atividade de jogos responde por mais de 70% da arrecadação governamental de Macau e por cerca de metade do seu Produto Interno Bruto (PIB). A pandemia de COVID-19 evidenciou os riscos dessa concentração, quando a economia local sofreu uma forte contração em decorrência das restrições de viagem e da queda no fluxo de visitantes.

O mesmo estudo concluiu que a diversificação reduz a volatilidade econômica e fortalece a resiliência do mercado, especialmente quando os governos incentivam o crescimento de setores como MICE (reuniões, incentivos, conferências e exposições), turismo cultural e tecnologia.

Singapura seguiu uma trajetória diferente.

O Dr. Weerakoon descreve Singapura como o “padrão de excelência” do modelo de resort integrado, por ter conseguido combinar com sucesso operações de jogos com centros de convenções, varejo de luxo, atrações turísticas e sólidas medidas de proteção social.

O sucesso da cidade-estado, entretanto, não aconteceu por acaso.

“A conquista de Singapura está baseada em uma estrutura regulatória extremamente sofisticada e altamente adaptável”, afirma ele, alertando que mercados emergentes não podem simplesmente reproduzir esse modelo sem antes desenvolver a capacidade institucional necessária para sustentá-lo.

O imperativo da diversificação

O argumento pela diversificação torna-se cada vez mais difícil de ignorar. No estudo de 2025 Beyond the Tables: Measuring the Impact of Non-Gaming Diversification on Casino Profitability in Macau, Luo e Song constataram que uma maior participação de negócios não relacionados ao jogo melhora indicadores de rentabilidade, incluindo margem de lucro líquido e retorno sobre ativos.

As pesquisas sugerem que resorts integrados apresentam desempenho mais forte e sustentável quando as receitas são distribuídas entre hotéis, varejo, entretenimento, convenções e alimentação e bebidas, em vez de depender predominantemente do jogo.

Em conjunto, os estudos indicam que fluxos de receita diversificados podem aumentar o desempenho dos resorts e reduzir a dependência do jogo como principal motor de crescimento.

Para Weerakoon, isso significa integrar empresas locais ao ecossistema do resort. “Um IR verdadeiramente transformador não importa seu ecossistema de luxo de forma integral”, afirma. Em vez disso, deve contratar serviços arquitetônicos, agrícolas, tecnológicos e criativos de fornecedores domésticos, criando oportunidades para pequenas e médias empresas locais elevarem padrões, obterem certificações internacionais e expandirem suas capacidades.

O mesmo princípio se aplica ao emprego. Segundo ele, resorts integrados sustentáveis devem priorizar o desenvolvimento de habilidades avançadas, e não a criação de funções de baixa qualificação.

Ao investir em programas de treinamento em análise de dados, compliance regulatório, expertise culinária especializada e gestão de ativos em larga escala, os IRs podem contribuir para o desenvolvimento de capital humano de longo prazo.

Regulação segue como fator decisivo

Os resorts integrados têm potencial para impulsionar investimentos, turismo e emprego, mas seu sucesso está longe de ser garantido. Weerakoon acredita que uma regulação robusta é essencial para garantir que esses benefícios se sustentem ao longo do tempo.

“Um órgão regulador transparente e absolutamente independente é um pré-requisito fundamental”, afirma. Essas instituições precisam ter capacidades sofisticadas de prevenção à lavagem de dinheiro, combate ao financiamento do terrorismo e contabilidade forense, a fim de proteger a reputação da jurisdição e manter a confiança dos investidores.

Ele também defende modelos de tributação baseados em desempenho, que recompensem operadores que reinvistam lucros em infraestrutura não relacionada ao jogo, projetos de regeneração urbana e programas de desenvolvimento comunitário, em vez de depender apenas de impostos fixos sobre o jogo.

Outro fator crítico é a integração física. “O ativo físico nunca deve funcionar como um complexo fechado que isola a população local”, afirma. Em vez disso, os resorts devem ser integrados aos planos urbanos mais amplos, permitindo que o gasto dos visitantes e a atividade econômica se espalhem para as comunidades ao redor.

Mercados emergentes enfrentam um teste decisivo

Para novos entrantes como Sri Lanka, Tailândia e Emirados Árabes Unidos, o desafio não é atrair investimentos por meio dos resorts integrados, mas evitar repetir erros do passado.

Weerakoon cita a criação da General Commercial Gaming Regulatory Authority (GCGRA), nos Emirados Árabes Unidos, como exemplo de estruturas de governança sendo implementadas junto ao desenvolvimento dos IRs. Ele descreve a abordagem do país como uma forma de posicionar o jogo dentro de um arcabouço mais amplo que inclui turismo de luxo, logística global e finanças internacionais.

Para mercados em desenvolvimento, ele acredita que o timing da governança é crucial.

“Salvaguardas sociais robustas, incluindo critérios rígidos de entrada para locais, taxas de acesso para cidadãos, registros completos de autoexclusão e protocolos claros de combate à lavagem de dinheiro, devem estar totalmente desenhados, legislados e financiados antes que qualquer operador inicie as obras.”

A lição das jurisdições já estabelecidas é clara: a regulação não pode vir depois do desenvolvimento. Ela precisa vir antes.

Além do crescimento impulsionado pelo jogo

Críticos dos resorts integrados frequentemente alertam que governos podem se tornar dependentes da receita do jogo, de forma semelhante à dependência de commodities em países ricos em recursos naturais.

Weerakoon reconhece que esse risco é real, mas considera que pode ser administrado. Para evitá-lo, ele defende que governos deixem de ver os IRs como destinos econômicos em si e passem a enxergá-los como aceleradores de objetivos mais amplos de desenvolvimento.

“As receitas tributárias do jogo nunca devem ser usadas para cobrir despesas recorrentes do governo ou tapar déficits fiscais de curto prazo”, afirma. Em vez disso, esses recursos devem ser direcionados para fundos soberanos, infraestrutura de saúde, projetos de transformação digital e iniciativas de resiliência de longo prazo.

Ele também destaca a importância de garantir que os resorts integrados complementem, e não canibalizem, os negócios locais.

Ao conectar os resorts a atrações culturais, projetos de ecoturismo e empresas domésticas por meio de infraestrutura de transporte e iniciativas de marketing compartilhadas, os governos podem garantir que os benefícios sejam distribuídos de forma mais ampla pela economia.

No fim das contas, o futuro dos resorts integrados pode depender menos do piso de cassino e mais do que os governos escolhem construir ao seu redor.

À medida que jurisdições na Ásia, Oriente Médio e Caribe continuam adotando o modelo, as evidências sugerem cada vez mais que o jogo, por si só, não é suficiente. Os IRs mais bem-sucedidos são aqueles que transformam a receita do cassino em ecossistemas econômicos diversificados, instituições resilientes e desenvolvimento nacional de longo prazo.

O desafio para os formuladores de políticas, sugere Weerakoon, é garantir que a receita do jogo contribua para o desenvolvimento nacional de longo prazo. Quando isso acontece, os países têm a oportunidade de transformar “picos imediatos de turismo em riqueza duradoura e multigeracional”.

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