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Especialista afirma que eSports na Índia passam “da incerteza à clareza”

Anchal Verma
Escrito por Anchal Verma
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

A indústria de eSports da Índia está entrando em uma fase decisiva, impulsionada pela clareza regulatória e pela rápida expansão do ecossistema. Após a aprovação da Promotion and Regulation of Online Gaming Act (PROGA) 2025, que separou formalmente os eSports dos jogos com dinheiro real (RMG), o setor vem registrando um renovado interesse de investidores e maior apoio institucional.

Essa mudança ocorre em meio ao forte crescimento da economia de games como um todo. De acordo com um relatório da PwC, o segmento de jogos online e eSports da Índia deve crescer a uma taxa composta anual (CAGR) de 19,2%, alcançando US$ 4,8 bilhões até 2028. Já dados da Statista estimam que o número de usuários no segmento de eSports deve chegar a cerca de 148 milhões até 2029.

À medida que formuladores de políticas, marcas e operadores globais intensificam o foco na Índia, o ecossistema de eSports passa de um cenário fragmentado para uma estrutura mais organizada. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Tapasya Shukla, fundadora e diretora-geral da Zutsu Media, organização de eSports, afirma que política pública, entrada de capital e desenvolvimento de talentos começam a se alinhar, sinalizando uma fase mais madura do setor. “Estamos finalmente passando da confusão para a clareza”, diz.

Mudança de dinâmica

SiGMA News: Como a relação entre eSports, games e iGaming deve evoluir nos próximos anos?

Tapasya Shukla, fundadora e diretora-geral da Zutsu Media: A relação está amadurecendo e deixando uma convergência difusa para se tornar um conjunto de verticais altamente distintas e especializadas. Por muito tempo, o mercado tratou eSports, jogos casuais e iGaming como se fossem a mesma coisa porque todos aconteciam em uma tela, mas esse período acabou.

Nos próximos três a cinco anos, esses ecossistemas vão se separar em seus modelos comerciais, mas continuarão colaborando em infraestrutura tecnológica compartilhada. Os eSports oferecem retenção e visibilidade incomparáveis, especialmente no segmento B2C. À medida que os games se consolidam como comportamento digital mainstream, o iGaming continuará refinando seu modelo transacional de alta receita média por usuário (ARPU).

Já os eSports estão construindo capital cultural e de marca de longo prazo por meio da fidelização de comunidades e de propriedades intelectuais (IPs) apoiadas por publishers. Com essa divergência, a forma como as marcas interagem com o setor precisa evoluir. Nos próximos anos, será necessário um padrão mais estruturado que permita colaborações fluidas entre atletas de eSports, plataformas e organizações.

Também estamos ultrapassando o estágio do targeting digital de nicho. Para refletir essa mudança, parcerias no eSports devem ocupar espaços tradicionais de mídia, como outdoors e mídia OOH. Levar o setor para esses ambientes de alta visibilidade vai aumentar o reconhecimento e ajudar o público em geral a entender a escala dos eSports, convidando-o a participar dessa evolução.

SiGMA News: A lei de jogos online da Índia em 2025 separa eSports dos jogos com dinheiro real. Isso vai acelerar o crescimento ou criar novos desafios para o ecossistema?

Shukla: Isso é uma correção, não uma contração. A PROGA representa um dos marcos estruturais mais importantes do setor. Por anos, a falta de entendimento generalizado, somada à presença dos RMG, fez com que os eSports fossem frequentemente mal interpretados. Os RMG traziam riscos significativos, especialmente relacionados a perdas financeiras e dependência, o que impactou muitos jovens usuários. Já os eSports são baseados em habilidade competitiva, e a Índia tem enorme talento espalhado por diferentes regiões que precisa ser desenvolvido, e não confundido com jogos de azar.

Agora que a incerteza regulatória e restrições arbitrárias estão diminuindo, essa separação legal é um grande avanço. A lei distingue explicitamente eSports como competição de habilidade, ao mesmo tempo em que restringe atividades de jogos com dinheiro, criando um ecossistema mais claro e estruturado. Essa clareza também gera uma mudança cultural importante: é preciso educar não apenas a Gen Alpha, Gen Z e Millennials, mas também gerações mais velhas. eSports não são apostas; são uma carreira legítima e aspiracional, na qual atletas competem globalmente, constroem marcas pessoais e se desenvolvem como criadores digitais.

(Fonte: EY, Mordor, Statista)

A trajetória de crescimento reflete essa mudança. Em 2021, o mercado indiano de eSports era avaliado em cerca de US$ 33,5 milhões. Em 2025, ultrapassou US$ 200 milhões, impulsionado pela adoção mobile-first, expansão do 5G e talentos emergindo de cidades de nível II e III. Com base no atual ritmo de crescimento, o mercado deve atingir entre US$ 640 milhões e mais de US$ 1 bilhão no início da década de 2030, crescendo cerca de 18% ao ano.

Essa clareza regulatória também reduz riscos para investidores institucionais. Com os RMG restringidos, orçamentos corporativos e capital de risco estão migrando cada vez mais para jogos competitivos, apoiados pelo aumento de torneios e pelo financiamento contínuo de operadores de eSports.

No fim, marcas e investidores agora podem atuar com mais confiança, já que o futuro dos eSports indianos está sendo construído sobre uma base sustentável e legalmente reconhecida de competição.

A regulação remodela o cenário

SiGMA News: Como o foco do orçamento da União no setor de Animation, Visual Effects, Gaming and Comics (AVGC) e na economia de criadores pode impactar os eSports na Índia?

Shukla: Trata-se de uma iniciativa profundamente estratégica. A economia de criadores atingiu uma escala que não pode mais ser ignorada e está cada vez mais moldando o funcionamento dos ecossistemas digitais.

Os eSports muitas vezes são mal interpretados como algo limitado aos jogadores. Na realidade, os jogadores representam apenas uma fração do ecossistema. O verdadeiro motor econômico está na camada mais ampla de produção: casters, editores, streamers, animadores e equipes técnicas que constroem experiências digitais imersivas.

A proposta de criar laboratórios de criadores em 15.000 escolas e 500 faculdades apoia diretamente esse ecossistema. Ela constrói a base de talentos necessária para sustentar os eSports em escala, além de posicionar a criação de conteúdo digital como uma carreira estruturada e viável.

À medida que as marcas migram para formatos de engajamento mais imersivos e contextuais, a demanda por talentos criativos de alta qualidade continuará crescendo. Essas iniciativas tendem a desempenhar um papel crucial nessa transição.

No fim das contas, isso funciona como um catalisador para todo o ecossistema de eSports, fortalecendo sua infraestrutura, base de talentos e sustentabilidade de longo prazo.

SiGMA News: Sediar eventos internacionais de eSports indica que a Índia está pronta para se tornar um hub global? O que ainda é necessário para sustentar esse crescimento?

Shukla: Sim, isso indica progresso claro, mas entender a maturidade da Índia exige olhar para sua abordagem estrutural mais ampla e compará-la com modelos globais.

Alguns mercados, como os Emirados Árabes Unidos, adotaram um modelo intensivo em capital, baseado em infraestrutura, investindo fortemente em arenas e grandes estruturas para atrair eventos globais. A abordagem da Índia é fundamentalmente diferente. Ela é guiada por um modelo de base, centrado em sua grande população gamer em crescimento orgânico.

A Índia já possui uma base massiva de jogadores, o que cria um público doméstico forte que mercados globais dificilmente conseguem replicar apenas com infraestrutura.

A estratégia atual foca na construção do ecossistema subjacente: desenvolvimento de talentos, fortalecimento de propriedade intelectual e integração dos eSports com indústrias digitais e criativas mais amplas. Iniciativas de políticas públicas e esforços institucionais estão alinhados para criar uma cadeia sustentável de desenvolvedores, criadores e profissionais de produção.

Como resultado, quando torneios globais chegam à Índia, eles não estão apenas entrando em um local, mas acessando uma economia digital em crescimento e autossustentável.

Para atrair e sustentar consistentemente eventos de nível mundial, o foco agora precisa estar na redução de atritos operacionais — como simplificar vistos para eSports e garantir estruturas tributárias claras para premiações internacionais — enquanto se continua fortalecendo o ecossistema doméstico. A Índia está deixando de ser apenas um mercado anfitrião e se posicionando como um contribuinte de longo prazo para a economia global de eSports.

Esta é a Parte 1 de uma entrevista em duas partes com Tapasya Shukla, fundadora e diretora-geral da Zutsu Media, focada na evolução do ecossistema de eSports da Índia, cobrindo regulação, estrutura de mercado, políticas públicas e posicionamento global. A Parte 2 vai analisar as dinâmicas de consumo e indústria que moldam o setor, incluindo estratégia de marcas, comportamento de audiência e sustentabilidade de carreira.

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