Kristof Szucs, cofundador da Kyborg.ai e veterano da indústria de iGaming com mais de trinta anos de experiência, analisa o que o crescimento acelerado dos mercados de previsão nos Estados Unidos representa para operadores da Europa Central e Oriental e da Ásia Central (CEECA), e explica por que o primeiro movimento nesse segmento não deve partir de uma marca de cassino.
Quando a receita de contratos baseados em eventos da Robinhood cresce 320% em relação ao ano anterior, impulsionada por um volume recorde de negociação de US$ 8,8 bilhões, o setor tende a se dividir em dois grupos: aqueles que enxergam o surgimento de uma nova classe legítima de produto e aqueles que veem uma bomba regulatória prestes a explodir. Para Szucs, ambos os lados estão certos — e é exatamente esse o ponto.
“US$ 8,8 bilhões em volume não caracterizam um mercado de hedge. É um mercado de apostas operando sob outro regulador”, afirma. Segundo ele, o arcabouço da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) permite que operadores de mercados de previsão atuem nos 50 estados americanos sem a necessidade de uma única licença estadual de jogos, o que representa “uma vantagem real de produto” que reguladores do setor de apostas, tanto em nível estadual quanto federal, ainda não sabem como enfrentar.
Pôquer antes da Black Friday
Para Szucs, o que acontece hoje com os mercados de previsão não é novidade. “Isso lembra o pôquer nos anos que antecederam a Black Friday: o produto era posicionado como um jogo de habilidade, e não como jogo de azar; os operadores criavam soluções alternativas para movimentar depósitos e pagamentos dentro do sistema bancário; e a indústria sustentava que se tratava de algo fundamentalmente diferente. Até deixar de ser.”
No contexto do pôquer online, a chamada Black Friday refere-se a 15 de abril de 2011, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou acusações que levaram à queda das maiores plataformas da época, como PokerStars, Full Tilt e UltimateBet, resultando no bloqueio de domínios, congelamento de pagamentos e uma retração significativa do mercado.
O paralelo mais relevante não está nos detalhes operacionais, mas na lógica estrutural: um produto com mecânica claramente baseada em apostas ganhando acesso ao mercado por meio de uma categoria regulatória que não foi criada para esse fim. Grandes organizações do setor de jogos já se posicionam contra a criação de um status regulatório separado para mercados de previsão. Szucs acredita que “mais cedo ou mais tarde, o mesmo desfecho acontecerá aqui”. A questão, segundo ele, é quanto tempo essa janela permanecerá aberta — e quem conseguirá se posicionar antes que ela se feche.
MiFID como porta de entrada na Europa
Para operadores europeus acompanhando o cenário americano, Szucs propõe uma abordagem diferente: a pergunta não é “se vão entrar no mercado de contratos baseados em eventos”, mas sim “se o modelo da Robinhood retornará à Europa por outro caminho”. Esse caminho, segundo ele, não passa por uma licença de jogos, mas pela Diretiva de Mercados de Instrumentos Financeiros (MiFID).
“Se um operador da CEECA quiser oferecer aos usuários europeus um produto no estilo da Robinhood, o caminho legal mais direto não é por meio de um regulador de jogos, mas sim pelo enquadramento de instrumentos financeiros. O custo é alto, os requisitos de conformidade são pouco familiares e os reguladores ainda não definiram limites claros. É justamente essa ambiguidade que cria a oportunidade.”
Operadores com capital e capacidade tecnológica para competir nesse espaço, como Superbet, Fortuna e marcas sob os grupos FDJ United e Banijay, atualmente não têm acesso direto ao mercado americano de contratos baseados em eventos. No entanto, Szucs aponta o que deve ser monitorado de perto: onde a CFTC estabelecerá seus limites, quais casos serão contestados por procuradores estaduais e como o lobby do setor de apostas irá se posicionar. Esse processo, segundo ele, determinará o formato do equivalente europeu.
“Os operadores que avançarem nesse segmento como produto regulamentado serão aqueles que já contam com equipes de compliance no nível do mercado financeiro. A maioria das empresas de iGaming da CEECA ainda não possui essa estrutura.”
Sua previsão é direta: “O primeiro player europeu a entrar nesse mercado não será uma marca de cassino, mas uma fintech que contrate um especialista em compliance do setor de iGaming.”
Fusões e aquisições como pano de fundo
Os mercados de previsão evoluem em paralelo a uma transformação estrutural já em curso na CEECA, independentemente do que acontece nos Estados Unidos. O acordo envolvendo a Banijay e a aquisição da Tipico — que reúne Betclic, Tipico e Admiral sob uma mesma estrutura — é, nas palavras de Szucs, “uma história de integração da Europa Ocidental”: três marcas, seis mercados regulados, €100 milhões em sinergias projetadas e €3 bilhões em dívida que precisam gerar retorno antes da integração total das plataformas. “A CEECA não é a prioridade atual da Banijay — mas será a próxima.”
Ainda assim, a movimentação de fusões e aquisições na região já começou sem a Banijay. Szucs aponta a compra da MaxBet, na Romênia, pela Super Technologies como um ponto de inflexão. Em sua análise, República Tcheca e Eslováquia são os próximos alvos: “operadores de médio porte, marcos regulatórios suficientemente maduros para permitir previsibilidade de preços e ausência de capital local forte o suficiente para manter a independência.”
A Hungria surge como um caso particular. Até 12 de abril de 2026, o mercado online do país era dominado por uma única empresa, cujo perfil financeiro apresentava “distribuição de dividendos entre 95% e 100%, com apenas 3% a 6% de reinvestimento” — estrutura que Szucs descreve como “voltada à extração de valor, e não ao crescimento, típica de um modelo sustentado por uma configuração política que já não existe.”
“Em algum lugar, nas salas de reunião da Super e da Fortuna, alguém já começou a analisar o mercado húngaro”, afirma. Se esse cenário se confirmar, a Hungria poderá se tornar “o primeiro mercado da CEECA a se abrir como resultado de mudanças políticas, e não de reformas regulatórias.”
A projeção de Szucs é clara: mais duas operações semelhantes à da Romênia devem ocorrer na região nos próximos dezoito meses — primeiro na República Tcheca, seguida pela Eslováquia. A expansão do modelo Banijay para o leste europeu, segundo ele, é uma questão para 2027, não para 2026.
O que isso significa para os operadores
Os dois movimentos — a consolidação via fusões e aquisições e o avanço dos mercados de previsão sob um enquadramento financeiro — ocorrem em paralelo e ainda não convergiram na CEECA. No entanto, Szucs identifica um fator comum: em ambos os casos, a vantagem competitiva estará com quem construir a infraestrutura de compliance adequada antes da abertura do mercado, e não depois. Sua visão detalhada sobre esse tema será publicada em breve, com exclusividade, na SiGMA News.
Para operadores de médio porte na República Tcheca e na Eslováquia, a recomendação é acompanhar de perto as movimentações de M&A dentro do modelo Banijay. Já para aqueles que consideram os contratos baseados em eventos como um possível novo produto, a questão central é avaliar se a empresa possui profissionais com experiência prática em regulação financeira. Caso contrário, a prioridade não deve ser o produto, mas sim a contratação de talentos qualificados.
Este artigo foi publicado originalmente em russo em 4 de maio de 2026.
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