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Mercados de previsão colocam Lula na frente em 2026, mas avanço da direita chama atenção 

Julia Moura
Escrito por Julia Moura

As pesquisas eleitorais ainda nem começaram oficialmente, mas um outro tipo de termômetro político já está movimentando milhões de dólares envolvendo a eleição presidencial brasileira de 2026. Plataformas como Polymarket e Kalshi transformaram a corrida presidencial em um ativo financeiro negociado em tempo real. Nelas, os usuários compram e vendem probabilidades sobre quem será o próximo presidente do Brasil, e os números atuais mostram um cenário curioso: Luiz Inácio Lula da Silva segue como favorito, mas a direita vem recuperando o seu espaço rapidamente. É importante lembrar que os nomes citados neste artigo são pré-candidatos, e que, apenas em agosto de 2026 é que serão anunciados oficialmente os candidatos à presidência do Brasil.

Nas duas plataformas Polymarket e Kalshi, Lula aparece liderando com 44 por cento e 46 por cento de chance de vitória, respectivamente. Já Flávio Bolsonaro varia perto dos 30 por cento, mesmo em um momento difícil politicamente envolvendo Jair Bolsonaro, o ex-presidente que governou o Brasil entre 2018 e 2022, e o próprio Flávio Bolsonaro, envolvido em investigações do maior caso de corrupção bancária da história do Brasil. O mais interessante, porém, não é apenas a liderança do atual presidente. É a trajetória dos gráficos.

Enquanto Lula começou o ciclo muito acima dos 50 por cento, os mercados passaram a reduzir gradualmente suas chances ao longo dos últimos meses. Em sentido oposto, os pré-candidatos associados à direita cresceram consistentemente nas apostas. Esse movimento já começou a chamar atenção fora do universo político tradicional, principalmente porque os mercados de previsão costumam reagir muito rápido a mudanças de narrativa, crises econômicas, escândalos e movimentações partidárias. 

O que exatamente são mercados de previsão? 

Diferente das pesquisas eleitorais tradicionais, os mercados de previsão funcionam como bolsas de apostas. Se um candidato possui 45 por cento de chance em uma plataforma, isso significa que traders estão negociando contratos que implicam aproximadamente essa probabilidade de vitória. 

Na prática, quanto maior a confiança em um candidato, maior o preço da sua “cota”. Se a percepção piora, o valor cai. Notícias, pesquisas, debates e crises políticas alteram os preços em tempo real, quase como acontece no mercado financeiro. 

Mas cuidado, os mercados de previsão não funcionam como pesquisas tradicionais. Eles medem a percepção financeira de chance, não intenção direta de voto. Isso significa que movimentos especulativos, apostas coordenadas e até brincadeiras podem alterar temporariamente as probabilidades exibidas. 

Os especialistas em análise política e financeira costumam alertar justamente para esse ponto. Apesar de serem úteis para medir sentimento político e expectativa de mercado, essas plataformas não devem ser interpretadas como previsão definitiva do resultado eleitoral. 

Lula ainda lidera, mas perdeu força 

Apesar de continuar favorito, Lula já não possui a mesma vantagem observada meses atrás. Em determinados momentos do ciclo eleitoral, o presidente chegou a superar a faixa dos 60 por cento de probabilidade em alguns mercados internacionais. Hoje, os números estão mais apertados e mostram um ambiente eleitoral bem mais competitivo. 

Essa mudança não significa necessariamente queda direta de popularidade, mas revela que os investidores passaram a enxergar mais riscos políticos na tentativa de reeleição. Questões relacionadas à economia, desgaste natural de governo, debates fiscais e aumento da polarização ajudam a explicar os motivos para esse movimento. Além disso, os mercados de previsão não analisam apenas a intenção de voto. Eles tentam antecipar cenários futuros. Por isso, muitas vezes reagem antes mesmo das pesquisas tradicionais captarem mudanças mais profundas no humor do eleitorado. 

Outro ponto importante é que Lula ainda aparece como o único nome da esquerda realmente consolidado nacionalmente. Mesmo Fernando Haddad surgindo em algumas plataformas, os percentuais continuam baixos e demonstram pouca confiança do mercado em uma substituição competitiva. 

Fonte: Polymarket.
Fonte: Kalshi.

O peso do bolsonarismo continua enorme 

Talvez o dado mais impressionante dessas plataformas seja a força da direita, mesmo com o estado atual do ex-presidente Jair Bolsonaro e as últimas atualizações de seu filho Flávio Bolsonaro. 

Ainda que Bolsonaro enfrente problemas relacionados à elegibilidade, o mercado continua atribuindo probabilidades extremamente altas ao campo bolsonarista. Isso mostra que os investidores internacionais acreditam que o eleitorado conservador segue altamente mobilizado e consolidado no Brasil. 

Mais do que apostar especificamente em Bolsonaro, muitos traders parecem apostar na permanência do bolsonarismo como principal força de oposição ao governo Lula e à esquerda. Nos últimos meses, os candidatos ligados ao grupo político de Bolsonaro cresceram gradualmente nos gráficos das plataformas. Em alguns momentos, a diferença para Lula chegou a cair de forma significativa, principalmente na Polymarket, onde o volume financeiro é muito maior. 

Esse movimento também reforça uma percepção importante: o mercado internacional parece acreditar que a eleição de 2026 será novamente marcada por forte polarização política. 

Outro detalhe que chama atenção nas plataformas é a enorme dificuldade de surgimento de uma terceira via competitiva. Nomes como Romeu Zema, Michelle Bolsonaro e Fernando Haddad aparecem muito atrás dos líderes, normalmente entre 2 por cento e 7 por cento. Mesmo candidatos com relevância política nacional ainda não conseguiram convencer os apostadores de que possuem chances reais de quebrar a polarização entre lulismo e bolsonarismo. 

A baixa confiança em nomes alternativos revela um problema da política brasileira atual: a dificuldade de construção de lideranças nacionais fora dos dois polos dominantes. 

Governo brasileiro passou a mirar essas plataformas 

O crescimento desse tipo de mercado também começou a gerar reação regulatória no Brasil. Recentemente, o governo brasileiro (atualmente governado por Lula) passou a discutir medidas contra plataformas como Polymarket e Kalshi, argumentando que elas operam sistemas de apostas sem autorização nacional. 

Mesmo assim, o volume financeiro continua crescendo rapidamente. Só o principal mercado do Polymarket sobre a eleição presidencial brasileira de 2026 já movimentou mais de $85 milhões em apostas internacionais. Esse crescimento mostra como as eleições passaram a ser tratadas globalmente não apenas como eventos políticos, mas também como ativos especulativos negociados em escala mundial, e isso se deu justamente por causa das plataformas de mercados de previsão. 

A popularização dessas plataformas cria um novo fenômeno interessante: a influência do mercado financeiro sobre a percepção política. Hoje, as oscilações nas probabilidades eleitorais já começam a ser usadas como indicador de humor político, expectativa econômica e confiança institucional. 

O que os gráficos realmente mostram 

Mais do que tentar prever quem vencerá em 2026, os gráficos revelam algo talvez ainda mais relevante: como os investidores e apostadores internacionais enxergam o cenário político brasileiro neste momento. Hoje, o mercado parece acreditar em quatro coisas principais: Lula ainda é favorito, a direita continua extremamente competitiva, não existe uma terceira via consolidada e a eleição deve novamente caminhar para um cenário de forte polarização. 

Ao mesmo tempo, as curvas mostram que o ambiente político brasileiro está longe de parecer estável. Lula perdeu parte da vantagem que possuía anteriormente, enquanto a direita ganhou força ao longo dos últimos meses. 

E talvez seja justamente isso que torna esses mercados tão observados atualmente. Eles não mostram apenas quem lidera. Eles mostram como o mundo está reagindo, em tempo real, às mudanças de humor da política brasileira. 

Mercados de previsão já influenciaram outras eleições ao redor do mundo 

Esse não é um caso exclusivo do Brasil. Nos últimos anos, os mercados de previsão começaram a ter muita relevância em eleições importantes ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos. Durante a corrida presidencial norte-americana de 2024, o principal contrato da Polymarket sobre quem venceria a eleição movimentou sozinho cerca de US$ 3,7 bilhões em apostas, transformando a disputa entre Donald Trump e Kamala Harris em um dos maiores eventos financeiros da história dessas plataformas. 

Em vários momentos, as oscilações nas odds passaram a influenciar diretamente a cobertura da imprensa, o comportamento de investidores e até a percepção pública sobre quem estava “ganhando” a disputa. Em alguns casos, os mercados chegaram a reagir mais rápido do que as próprias pesquisas tradicionais após debates, escândalos ou anúncios econômicos. 

Os defensores desse modelo argumentam que mercados de previsão conseguem agregar informação de forma mais eficiente porque envolvem dinheiro real. A lógica é a seguinte: quem aposta errado perde dinheiro, então os participantes teriam incentivo para analisar cenários políticos com mais racionalidade do que em pesquisas baseadas apenas em opinião. 

O cientista político Erik Snowberg afirma que mercados preditivos possuem características próximas da hipótese de mercados eficientes. Em estudos publicados pelo NBER e Brookings Institution, Snowberg e outros pesquisadores afirmam que essas plataformas “incorporam novas informações rapidamente” e frequentemente superam pesquisas tradicionais em determinados cenários eleitorais. 

Ao mesmo tempo, alguns críticos alertam que essas plataformas também podem criar distorções perigosas. Grandes investidores conseguem movimentar odds com apostas milionárias, enquanto campanhas políticas, influenciadores e grupos organizados podem usar as probabilidades como ferramenta de narrativa para transmitir sensação de força ou crescimento eleitoral. 

Mesmo assim, o impacto desses mercados continua crescendo globalmente. E agora, com mais de US$ 85 milhões movimentados apenas no principal contrato sobre a eleição brasileira de 2026, o Brasil começa a entrar definitivamente nesse novo mapa mundial dos mercados de previsão políticos. 

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