À medida que os mercados regulados de jogos na América Latina continuam evoluindo, as operadoras vêm direcionando cada vez mais atenção à localização de produtos, ao engajamento baseado em comunidades e à retenção de jogadores no longo prazo. Mercados como Brasil e Colômbia registraram aumento da concorrência após a expansão dos modelos regulados de jogos online, levando as empresas a repensarem a forma como adaptam seus produtos para os públicos locais. Observadores da indústria também apontam uma pressão crescente para equilibrar exigências regulatórias com experiências culturalmente relevantes para os jogadores, especialmente em um cenário de aumento dos custos de aquisição em toda a região.
Na primeira parte desta entrevista exclusiva da SiGMA News, Alejandro Revich, CEO da END 2 END, fornecedora de bingo multiplayer com operações em Buenos Aires e Miami, explicou como a regulamentação está remodelando o bingo multiplayer na América Latina, especialmente em temas ligados à liquidez compartilhada, compliance e retenção de jogadores.
Nesta segunda parte, Revich volta o foco para localização e comportamento dos usuários. Ele explica por que muitas operadoras enfrentam dificuldades ao entrar em mercados latino-americanos, por que localização vai muito além de idioma e métodos de pagamento, e como experiências de jogo impulsionadas pela comunidade continuam moldando o engajamento multiplayer na região. Revich também compartilha sua visão sobre os desafios da liquidez compartilhada, familiaridade cultural e a importância de adaptar produtos às expectativas locais, em vez de depender apenas de estratégias globais de jogos.
SiGMA World: O bingo multiplayer está atraindo novos perfis de jogadores na América Latina ou ainda atende majoritariamente ao público tradicional do bingo?
Alejandro Revich, CEO da END 2 END: É uma combinação dos dois, e isso faz parte do que torna essa vertical tão interessante. Os jogadores tradicionais cresceram frequentando salas de bingo como espaços sociais, onde as pessoas encontravam amigos e passavam tempo juntas. Muitos desses locais já não existem mais, mas o público que apreciava essa experiência continua presente e ainda busca formas semelhantes de entretenimento. O que estamos oferecendo é esse mesmo momento social, só que com tecnologia melhor e um produto mais atrativo.
Ao mesmo tempo, jogadores mais jovens também estão se envolvendo com o bingo multiplayer de maneiras diferentes. Alguns enxergam a modalidade como uma experiência de jogo mais casual e social, jogando com amigos e interagindo por meio de recursos comunitários, tanto online quanto em espaços físicos. Como resultado, a base de jogadores está se expandindo, e não apenas substituindo públicos mais antigos. O crescimento das tecnologias mobile e de streaming também está ajudando os formatos multiplayer a alcançarem um público mais amplo.
SiGMA World: Quando operadoras expandem para mercados como Brasil ou Colômbia, o que normalmente dá errado nos primeiros meses após o lançamento?
Revich: Um dos erros mais comuns cometidos por operadoras estrangeiras é subestimar a cultura local e o comportamento dos jogadores. Muitas ignoram aquilo com que os usuários já estão familiarizados, o que lhes transmite conforto e o que realmente gera engajamento na plataforma. Entender o jogador local antes do lançamento — e não depois — é uma parte essencial para entrar nesses mercados com sucesso.
Com o tempo, jogadores de diferentes mercados acabam consumindo muitos dos mesmos jogos globais, mas normalmente existe um período de adaptação nas fases iniciais. Durante esse processo, as operadoras precisam se ajustar às expectativas locais. O bingo é um bom exemplo. No Brasil, essa vertical teve grande relevância antes da proibição de 2005, e seu retorno ainda carrega forte familiaridade cultural para muitos jogadores. Além disso, o bingo pode gerar oportunidades relevantes de cross-selling, já que usuários que entram pela vertical podem posteriormente explorar outros segmentos, como slots, crash games ou pôquer. Por isso, acertar na experiência inicial impacta todo o portfólio.
SiGMA World: Além do idioma e dos pagamentos, o que realmente precisa mudar dentro do produto para que formatos multiplayer funcionem em diferentes mercados da América Latina?
Revich: Tratar localização apenas como tradução de idioma e adaptação de pagamentos é algo ingênuo. É preciso entender com quais jogos os jogadores cresceram, quais experiências lhes são familiares e quais hábitos culturais eles levam para dentro do ambiente de jogo. No bingo, isso pode envolver fatores como o número de bolas utilizadas, a quantidade de cartelas em jogo, o ritmo da partida ou, pelo menos, a oferta de opções alinhadas às preferências locais.
Um dos fatores mais importantes, porém, é a moderação. Os moderadores precisam entender a cultura local e o ambiente dos jogadores. Um moderador estrangeiro administrando um chat geralmente não consegue criar o mesmo nível de conexão. Moderadores locais sabem o que está acontecendo no país — desde grandes partidas de futebol até eventos regionais e assuntos populares do momento. Os jogadores criam relações genuínas com essas pessoas, e essa conexão passa a fazer parte da experiência e do engajamento de longo prazo. Isso não pode ser terceirizado.
SiGMA World: Do ponto de vista comercial, em quais mercados o bingo multiplayer apresenta melhor desempenho e onde ainda perde espaço para outros segmentos?
Revich: O bingo continua apresentando forte desempenho no Brasil, em toda a América Latina e também em mercados como Espanha e Reino Unido, onde existe uma familiaridade histórica com a vertical. Onde ele costuma perder força é em mercados nos quais slots e crash games concentraram a maior parte da atenção e dos investimentos das operadoras.
Muitas empresas passaram a focar em verticais com margens mais altas por sessão, e o bingo acabou recebendo menos atenção como consequência. Com o tempo, isso contribuiu para a redução da visibilidade e da participação de mercado da vertical. O que está mudando agora é um interesse renovado por elementos que o bingo tradicionalmente oferece, como interação social, retenção de jogadores, oportunidades de cross-selling e custos de aquisição relativamente menores. Os fornecedores também costumam priorizar investimentos com base no desempenho de GGR, o que pode criar um ciclo em que verticais menores recebem menos desenvolvimento e menos exposição ao longo do tempo.
SiGMA World: A regulamentação dificulta a expansão de produtos multiplayer entre diferentes países, especialmente quando os pools de jogadores não podem ser compartilhados livremente?
Revich: Sim, principalmente quando a regulamentação não leva totalmente em consideração como o bingo multiplayer funciona como produto. Pools compartilhados de jogadores entre operadoras e jurisdições são uma parte importante para criar uma experiência multiplayer forte, e muitos profissionais da indústria acreditam que isso ainda pode ser alcançado mantendo salvaguardas adequadas e proteção aos jogadores.
Em alguns casos, restrições regulatórias, como limites de RTP, também acabam limitando prêmios garantidos e estruturas promocionais que são centrais para o engajamento multiplayer. Embora a intenção seja proteger os jogadores, algumas dessas medidas podem reduzir o apelo geral do produto. O bingo opera de forma diferente de verticais mais aceleradas, como slots ou roleta. Normalmente, ele apresenta menor volatilidade, é mais social e focado em sessões mais longas. Recursos como pools compartilhados, bônus e prêmios garantidos frequentemente são partes centrais da experiência multiplayer — não apenas complementos. São esses elementos que definem o jogo. Regulamentá-lo da mesma forma que jogos rápidos ignora essa diferença.
SiGMA World: Nos próximos dois anos, o que vai separar as operadoras bem-sucedidas na América Latina daquelas que terão dificuldades? E qual será o papel do multiplayer nessa diferença?
Revich: A diferença provavelmente estará na combinação de dois fatores: tecnologia sólida e entendimento genuíno do jogador local. Historicamente, existe uma lacuna entre fornecedores europeus ou norte-americanos, que possuem tecnologia forte mas pouco entendimento cultural da região, e operadores locais, que conhecem melhor o público, mas têm tecnologia mais limitada. Nenhum dos dois lados consegue sucesso sozinho. As empresas que terão melhor desempenho serão aquelas capazes de unir essas duas competências.
É exatamente isso que estamos construindo há mais de 20 anos: tecnologia focada exclusivamente em bingo, apoiada por equipes que vêm de mercados onde essa vertical sempre foi forte. As operadoras também precisarão encontrar maneiras de manter os custos de aquisição sob controle enquanto oferecem aos jogadores algo além de jogos rápidos e de alta volatilidade. Entretenimento real e interação social se tornarão diferenciais cada vez mais relevantes, e os formatos multiplayer devem desempenhar um papel importante nesse cenário.
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