Revista SiGMA: O setor de jogos pode liderar uma verdadeira mudança cultural rumo à responsabilidade?
Kevin O’Neill, Diretor-Geral da Responsible Gaming Foundation (RGF), é o destaque da edição 34 da revista SiGMA, lançada em setembro passado durante a SiGMA Euro-Med. Nesta entrevista, ele aborda as mudanças reais necessárias para conduzir o setor de jogos rumo a uma atuação mais responsável e os princípios que norteiam a RGF. A matéria completa a seguir detalha sua visão de liderança e a transformação de mentalidade essencial para consolidar uma cultura de responsabilidade no setor.
Ética acima da aparência
Para Kevin O’Neill, o Jogo Responsável é, antes de tudo, uma questão cultural. E transformar essa cultura, segundo ele, deve começar de dentro — com uma profunda mudança de mentalidade que “deixe de lado as ações meramente protocolares e adote uma postura genuína de cuidado com o bem-estar dos jogadores, pautada em princípios éticos sólidos”.
Essa transformação, afirma O’Neill, precisa vir da liderança. Quando líderes priorizam integridade e dignidade acima de lucros imediatos, enviam uma mensagem clara de que a proteção ao jogador é um valor essencial. Essa mentalidade, segundo ele, “inevitavelmente se espalha, criando um ambiente em que a proteção ao jogador deixa de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar um princípio fundamental”.
O ponto de partida, diz O’Neill, é uma visão ética incorporada ao DNA organizacional, expressa em declarações de missão, códigos de conduta e metas estratégicas. No entanto, ele ressalta que as ações falam mais alto que as palavras: “Líderes precisam ser exemplos de comportamento ético, demonstrando integridade, transparência e responsabilidade de forma consistente. Mudar uma cultura internamente exige coragem e compromisso com valores que vão muito além do lucro.”
A armadilha do checklist
Embora o setor tenha evoluído, “alguns operadores ainda encaram o cumprimento das diretrizes de Jogo Responsável como uma obrigação burocrática e cansativa”, comenta O’Neill.
Ele considera essa visão ultrapassada. À medida que as expectativas aumentam, adotar uma postura centrada no jogador se mostra cada vez mais vantajosa. “Encarar o Jogo Responsável não como uma exigência regulatória, mas como uma oportunidade estratégica oferece vantagens significativas — tanto comerciais quanto de posicionamento”, explica.
Estudos recentes mostram que jogadores bem amparados tendem a manter um envolvimento sustentável, o que gera receitas mais estáveis e previsíveis. Em vez de focar nos grandes gastadores, O’Neill incentiva a atenção aos “jogadores de alto valor que jogam de forma responsável e permanecem fiéis à marca ao longo do tempo”. Essa abordagem, diz ele, “fortalece a integridade da marca e contribui para a sustentabilidade financeira e operacional”.
Marketing com integridade
O’Neill aponta três desafios principais para os operadores: pressão comercial, complexidade regulatória e expectativas do consumidor. Segundo ele, “as maiores dificuldades surgem ao tentar equilibrar campanhas de marketing fortes e competitivas com práticas responsáveis”. Campanhas agressivas podem gerar ganhos imediatos, mas também comprometem a confiança do público. E, com as regulamentações globais mudando rapidamente, adaptar mensagens para cada mercado torna o cenário ainda mais desafiador.
Apesar disso, O’Neill acredita que o verdadeiro sucesso está em integrar a responsabilidade em todos os níveis da estratégia de marketing: “Os operadores mais bem-sucedidos são aqueles que incorporam a responsabilidade ao núcleo da sua identidade de marca. Ao priorizar a confiança de longo prazo e a proteção dos jogadores, conseguem crescer de forma sustentável e contribuir para um ambiente de jogo mais saudável.”
Apoio genuíno
Embora ferramentas como autoexclusão sejam essenciais, O’Neill as vê como apenas parte da solução. “Esses mecanismos funcionam como uma rede de segurança, mas o verdadeiro suporte ao bem-estar do jogador exige uma abordagem mais ampla e proativa.” Isso inclui sistemas de intervenção precoce, personalização e até design de jogos voltado à moderação.
Ele defende que as empresas coloquem o cuidado no centro de suas ações: “Os operadores devem promover uma cultura de cuidado que vá além da conformidade e realmente enxergue a pessoa por trás do jogador.”
Além disso, ele destaca a importância das parcerias com profissionais de saúde, ONGs e organizações locais para enfrentar os riscos do jogo em nível social. “Ao normalizar as conversas sobre os danos relacionados ao jogo e investir em educação e prevenção, o setor pode reduzir o estigma e capacitar os jogadores a tomarem decisões conscientes”, afirma.
Alinhando Jogo Responsável e ESG
Com os relatórios de ESG se tornando padrão em diversos setores, O’Neill considera o Jogo Responsável um componente natural dessa estrutura. “Acredito firmemente que o Jogo Responsável deve ser um pilar essencial em qualquer estratégia ESG, como expressão concreta de responsabilidade social e ética empresarial.”
Ele defende metas mensuráveis e comunicação transparente: “Os operadores precisam estabelecer objetivos claros e baseados em evidências — como reduzir danos relacionados ao jogo, aprimorar sistemas de detecção precoce e oferecer apoio a jogadores vulneráveis. Esses compromissos devem ser acompanhados e divulgados publicamente, da mesma forma que os relatórios de impacto ambiental.”
Para empresas menores que ainda não sabem por onde começar, o conselho é simples: comece pelos valores. “Resista à tentação de colocar o lucro acima dos jogadores. Garanta que os princípios do Jogo Responsável estejam incorporados ao DNA da organização — ofereça treinamentos regulares e acessíveis, mantenha mensagens claras e visíveis sobre responsabilidade e torne as ferramentas de RG fáceis de encontrar e usar. Mesmo medidas simples, quando aplicadas de forma consistente, podem gerar um impacto significativo.”
Acima de tudo, ele reforça: “No cenário atual, o verdadeiro sucesso não é medido apenas pelas margens de lucro, mas pela integridade e responsabilidade com que se conduz o negócio.”
Um futuro compartilhado
O’Neill acredita que o futuro do setor será impulsionado por dados mais precisos, mudanças sociais e maior colaboração entre os diferentes agentes do ecossistema. “Espero que, ao promovermos uma cultura mais compassiva e orientada por evidências, possamos fazer do Jogo Responsável uma parte natural e essencial da experiência de jogo.” Em última instância, ele conclui, a próxima era do setor não será definida pela regulamentação, mas pela responsabilidade — incorporada em cada decisão desde o princípio.
A edição 35 da revista SiGMA será lançada em conjunto com a SiGMA Europa Central 2025, que acontece em Roma, de 3 a 6 de novembro.




