O ecossistema de eSports na Índia evoluiu rapidamente de uma subcultura de nicho para uma indústria estruturada e de alto crescimento. De acordo com dados da Grand View Horizon, portal especializado em relatórios e estatísticas de mercado, o setor indiano deve atingir uma receita projetada de US$ 307,2 milhões até 2030, impulsionado principalmente por investimentos de marcas e patrocínios. A expectativa é de uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 28,4% entre 2025 e 2030.
Somente em 2024, os patrocínios representaram mais de 43% da receita total dos eSports na Índia, consolidando-se como a principal fonte de receita do setor.
Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Tapasya Shukla, fundadora e diretora executiva da Zutsu Media, organização de eSports, analisa por que as marcas estão entrando nesse universo, o que estão fazendo de certo e como o futuro do engajamento com o público está sendo redefinido.
Na Parte 1 desta série em duas etapas, exploramos como a indústria de eSports na Índia finalmente está migrando “da incerteza para a clareza”, em um movimento impulsionado por separação regulatória, evolução de políticas públicas e aumento da confiança institucional.
Marcas de consumo e os eSports
SiGMA News: Por que marcas de bens de consumo de alta rotatividade (FMCG) estão entrando nos eSports — e elas realmente entendem como se conectar com esse público?
Tapasya Shukla, fundadora e diretora executiva da Zutsu Media: A Índia conta com mais de 500 milhões de gamers e dezenas de milhões de espectadores de eSports, a maioria entre 16 e 30 anos — um público que a publicidade tradicional muitas vezes tem dificuldade em alcançar. As marcas de FMCG estão entrando nesse espaço principalmente por sua escala, alto nível de engajamento e acesso direto a consumidores jovens.
Empresas como Hindustan Unilever Limited (HUL) e Bisleri não estão se limitando à publicidade convencional; elas estão integrando seus produtos ao estilo de vida gamer. O Boost, da HUL, se conecta a temas como energia e desempenho, enquanto a Bisleri se encaixa naturalmente no contexto de hidratação durante as partidas. Isso reflete uma mudança mais ampla — de uma publicidade baseada em interrupção para uma integração contextual, alinhada ao estilo de vida do consumidor.
O foco dessa estratégia está em inserções sutis e naturais. Em vez de apostar em campanhas invasivas, as marcas integram seus produtos diretamente ao ambiente do consumidor. Sem apelos de venda explícitos, esse modelo permite uma incorporação orgânica ao cotidiano do público.
As marcas que executam bem essa estratégia demonstram um entendimento claro de como engajar de forma eficaz a audiência de eSports.
Mudança no engajamento da audiência gamer
SiGMA News: Do ponto de vista de parcerias com marcas, o que diferencia o público de gaming e eSports das audiências digitais tradicionais — e como as empresas de iGaming devem adaptar suas estratégias?
Shukla: O público digital tradicional está acostumado a publicidade baseada em interrupção — anúncios repetitivos, muitas vezes ignoráveis e pouco contextualizados. Esse modelo pode gerar alcance e lembrança de marca, mas frequentemente leva à perda de interesse e à fadiga publicitária, limitando um impacto mais profundo.
Já o público de gaming e eSports funciona de forma diferente. A tolerância a anúncios intrusivos é extremamente baixa, especialmente em momentos de alto engajamento, como durante partidas ao vivo. Nesse contexto, anúncios invasivos podem gerar percepção negativa da marca, em vez de reconhecimento.
Por outro lado, quando as marcas se integram de forma fluida ao ecossistema, passam a fazer parte da experiência — e não a interrompê-la.
Inserções sutis e contextualizadas, como patrocínios, integrações dentro dos jogos e ambientes personalizados com branding, são essenciais para o sucesso nesse cenário. Esses formatos permitem maior memorização de forma inconsciente e visibilidade orgânica, sem prejudicar a experiência do usuário.
Para empresas de iGaming, o foco deve sair da exposição forçada e migrar para uma presença imersiva. Construir associação de marca por meio de momentos e contextos relevantes é muito mais eficaz do que apostar em alta frequência de anúncios tradicionais. Nesse público, o impacto de longo prazo vem da integração — não da interrupção.
Construindo carreiras sustentáveis nos eSports
SiGMA News: Com cada vez mais jogadores indianos buscando carreira nos eSports, ainda existem preocupações sobre estabilidade financeira, contratos e segurança no longo prazo. Quais mudanças estruturais são necessárias para tornar os eSports uma profissão sustentável na Índia?
Shukla: A infraestrutura de eSports na Índia está evoluindo gradualmente, com aumento de investimentos e maior potencial de ganhos para atletas de alto nível. Ainda assim, a estabilidade financeira no longo prazo e a segurança de carreira continuam sendo desafios importantes.
A principal necessidade estrutural está na educação, aplicada em três frentes.
Primeiro, as organizações de eSports precisam adotar mais transparência e responsabilidade nos contratos. Regulamentações padronizadas, apoiadas por uma entidade reconhecida, podem garantir contratos mais justos, padrões mínimos de remuneração e proteção aos jogadores.
Segundo, os atletas precisam de orientação estruturada sobre a duração de suas carreiras. Como o desempenho competitivo tende a atingir o pico cedo, é essencial que os jogadores se preparem para migrar para funções como gestão de equipes, produção de conteúdo ou parcerias comerciais, garantindo segurança financeira após o período competitivo.
Terceiro, é fundamental ampliar a conscientização na sociedade. Informar pais e stakeholders sobre a economia e as possibilidades de carreira nos eSports ajuda a reduzir incertezas e incentiva um apoio mais qualificado aos novos talentos.
Um ecossistema sustentável de eSports depende da combinação entre estrutura institucional e participação consciente de todos os envolvidos.
SiGMA News: Como organizações de eSports e marcas devem se conectar com a Geração Z na Índia?
Shukla: Engajar a Geração Z exige entender claramente seu comportamento de consumo de mídia. Trata-se de um público altamente seletivo, que processa informações rapidamente e valoriza autenticidade e experiências relevantes. A publicidade tradicional, baseada em interrupção, tende a ser ineficaz e frequentemente gera desinteresse.
Para se manterem relevantes, as marcas precisam migrar de uma comunicação impositiva para uma abordagem orientada pela demanda. O foco deve estar na criação de valor que atraia o público de forma orgânica, em vez de forçar visibilidade.
Entre as estratégias mais eficazes estão a criação de experiências gamificadas com incentivos digitais concretos, o uso de dados e inteligência artificial (IA) para engajamento contextual em tempo real e o desenvolvimento de conteúdos visualmente atraentes e fáceis de compartilhar nas redes sociais.
O mais importante é apostar em uma integração sutil, guiada pela experiência do usuário e alinhada às preferências dessa audiência. A relevância no longo prazo dependerá de autenticidade, execução fluida e uma abordagem centrada no consumidor — e não em promoção agressiva.
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