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“Feudalismo Tecnológico” estreia com o supermercado gratuito da Polymarket

Jillian Dingwall
Escrito por Jillian Dingwall
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Meu Deus do céu, gente. Chegou! Depois de um “lançamento suave” que durou décadas — no qual a população em geral foi afundando cada vez mais em uma pobreza inexplicável — o Feudalismo Tecnológico finalmente fez seu lançamento oficial na forma do supermercado gratuito da Polymarket. Joguem aquela tigela de macarrão sem molho no lixo, meus amigos: estamos salvos!

Ao rolar o LinkedIn esta semana, assisti com um misto de choque e distopia enquanto plataformas de mercados de previsão anunciavam doações a bancos de alimentos e a abertura de um supermercado gratuito, como senhores feudais medievais distribuindo grãos após uma colheita bem-sucedida. A diferença é que agora a colheita é liquidez — e o castelo é uma plataforma de negociação.

E nem é um supermercado online. É um supermercado físico, de verdade. A Polymarket assinou contrato de aluguel e tudo mais. As prateleiras estão abastecidas com alimentos 100% gratuitos como forma de retribuir à comunidade que ajudou a construir a empresa. Pelo que dá para entender, qualquer pessoa pode entrar, pegar suas compras e sair sem pagar nada.

Antes de continuar, é importante deixar claro que, neste contexto, não me importa se mercados de previsão são apostas disfarçadas de trading, embrulhadas em bancos de alimentos, envoltas em apostas novamente, com uma pitada de mercado financeiro. Agora isso não faz mais diferença.

Nada mais importa.

Bem-vindos à economia do Estado-Marcas

O romance de 2003 de Max Barry, Jennifer Government, descreve um mundo em que corporações substituem nações e as pessoas adotam nomes de empresas como sobrenomes. Na época, parecia uma sátira inteligente, uma piada sombria sobre o capitalismo em estágio avançado. Mas agora que empresas estão se envolvendo em projetos do mundo real que se parecem suspeitamente com serviços sociais, isso já não é mais ficção.

Então, se uma plataforma lucra com usuários especulando sobre eleições, esportes ou eventos econômicos e, em seguida, utiliza esses lucros para financiar iniciativas de segurança alimentar, o que exatamente ela é? Um ambiente de negociação. Uma casa de apostas. Uma instituição de caridade. Um departamento privado de assistência social. Todas as alternativas?

Bom… alguém precisava fazer alguma coisa

Plataformas que antes se posicionavam apenas como espaços para negociação agora estão ocupando territórios tradicionalmente reservados a governos ou organizações sem fins lucrativos. Mas o que realmente chama atenção aqui é que elas se encontram entre duas ideias completamente opostas.

De um lado, a analogia com o feudalismo é evidente. As plataformas concentram valor de enormes bases de usuários, acumulam poder e depois redistribuem seletivamente benefícios para a comunidade. Isso não é imposto. Não é democracia. É generosidade — ou pelo menos a encenação dela.

Do outro lado, alguém precisava agir. O governo está ocupado demais tentando anexar a Groenlândia para ter um lugar remoto o suficiente para enterrar todos os arquivos do Epstein. Eles não estão nem aí para o seu despejo iminente.

Então, no fim das contas, importa de onde vem a comida se ela é gratuita? Em um mundo onde a maioria das pessoas não recebe de volta o que entrega, não está na hora de uma empresa cheia de liquidez intervir para ajudar? Há algo nisso tudo que parece ir além de uma campanha de marketing cínica e convencional.

Talvez essa iniciativa fosse mais confortável se tivesse sido criada por uma empresa que não carrega a questão do vício em jogos orbitando ao seu redor. Afinal, o Jeff Bezos realmente precisa de tudo o que tem? Quem sabe ele não poderia trocar seu superiate por um com menos heliportos e usar esse capital para abrir uma loja de departamentos gratuita?

Isso poderia até criar um precedente — vocês sabem como esses fundadores são competitivos. Talvez, daqui a cinco anos, não precisemos mais pagar nenhum custo de vida, desde que sejamos assinantes do Amazon Prime e apostemos toda semana se a Taylor Swift vai estar grávida até o fim do ano.

A linha cada vez mais tênue entre software e sociedade

Os mercados de previsão não estão sozinhos ao experimentar iniciativas no mundo real, mas o simbolismo aqui é mais forte por causa da crise de identidade permanente desse setor. Essas plataformas ficam na interseção entre finanças, jogos, mídia e política. Elas moldam narrativas. Influenciam a atenção pública. Monetizam a incerteza.

Agora, estão borrando a fronteira entre software e sociedade. Governos oferecem assistência social por meio de impostos. Empresas oferecem benefícios por meio de orçamentos de marketing. Os mercados de previsão parecem estar testando um terceiro modelo, no qual a redistribuição passa a fazer parte da identidade da marca.

Isso é território novo. Território da lenta morte do capitalismo?

E tudo isso acontece em um momento em que a confiança pública nos sistemas tradicionais é praticamente inexistente. Quando uma empresa privada começa a alimentar pessoas, a questão não é apenas se isso é bom ou ruim — é o que isso revela sobre os sistemas que existiam antes.

Então… estamos salvos?

Claro que não. A vida sempre encontra uma maneira de nos ferrar.

Talvez este seja o começo de um novo tipo de cidadania corporativa. Ou talvez seja apenas marketing extremamente eficaz. Provavelmente, é as duas coisas ao mesmo tempo.

De qualquer forma, é insano. Um mercado de previsão que construiu sua reputação negociando probabilidades agora está distribuindo comida grátis para desconhecidos. Oito séculos atrás, era grão vindo de um castelo; hoje, é alimento vindo de um pool de liquidez.

Parece que, em algum ponto entre o senhor feudal e o fundador de fintech, o poder está procurando uma nova interface. Enquanto isso, vou dar um pulo no “The Polymarket” para pegar uma pipoca grátis e assistir a esse novo inferno corporativo se desenrolar.

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