A inteligência artificial (IA) está evoluindo em um ritmo mais acelerado do que as receitas que consegue gerar — uma defasagem que já começa a influenciar decisões estratégicas em diversos setores, incluindo o iGaming. De acordo com a perspectiva da Moody’s para 2026, crescem as preocupações com uma possível bolha de investimentos em IA, à medida que os gastos com capacidade computacional e infraestrutura avançam muito mais rápido do que a receita gerada pelas aplicações baseadas nessa tecnologia. A agência de classificação de risco alertou que, embora a adoção esteja se ampliando, a captura de valor tende a se tornar cada vez mais desigual.
Para os operadores de iGaming, o descompasso entre avanço técnico e monetização já é visível na prática. Em entrevista exclusiva à SiGMA News, Martins Lielbardis, fundador do iGaming Centre, afirmou que os retornos mais claros, neste momento, vêm de áreas intensivas em dados e com processos operacionais bem definidos.
“Na minha visão, os retornos reais estão na capacidade que os operadores têm de organizar grandes volumes de dados, reduzir riscos associados a fraudes e abusos e, também, no tempo necessário para transformar ideias em produtos concretos”, explicou.
Essa avaliação está alinhada à visão da Moody’s, segundo a qual a IA continua entregando benefícios relevantes em tarefas rotineiras, baseadas em documentos ou voltadas ao atendimento ao cliente, enquanto fluxos de trabalho mais complexos ainda enfrentam obstáculos. No iGaming, áreas como detecção de fraudes, pontuação de risco, automação do suporte ao cliente e testes de produtos se enquadram perfeitamente nesse perfil, permitindo que operadores implementem IA sem a necessidade de reestruturar toda a organização.
Ainda assim, Lielbardis faz um alerta: nem todo caso de uso justifica o investimento. “O hype pode ser parecido com o que vemos em outros setores, em que empresas correm atrás da IA mesmo quando ela não é realmente necessária”, afirmou. Essa percepção reflete a análise da Moody’s, que destacou que “os benefícios da IA têm se concentrado principalmente na automação de tarefas específicas, e não na geração de ganhos sistêmicos de eficiência em nível corporativo”.
Organizar dados ou correr atrás do hype
A diferença entre aplicações práticas e experimentações guiadas por marketing fica cada vez mais clara à medida que os modelos de IA se tornam mais sofisticados. A Moody’s observou que “as capacidades da IA estão avançando rapidamente, impulsionadas por um pequeno grupo de empresas dos EUA, cujos modelos mais recentes são multimodais e baseados em agentes, estabelecendo novos referenciais globais”. Ainda assim, a agência ressaltou que “integrar a IA às operações de uma empresa exige o redesenho completo de processos para gerar valor relevante”.
Para os operadores de iGaming, o desafio está em transformar o desempenho dos modelos em aplicações viáveis dentro de ambientes regulados e em operação real. Sistemas de prevenção a fraudes podem ser treinados com dados históricos de transações e ajustados dentro das estruturas de compliance existentes. Já a personalização voltada ao jogador costuma esbarrar em regras de jogo responsável, obrigações de proteção de dados e exigências ligadas às licenças regulatórias.
Como resultado, muitos operadores seguem adotando uma postura seletiva. A IA vem sendo usada para encurtar ciclos de desenvolvimento e automatizar decisões antes realizadas manualmente, mas ambições mais amplas — como marketing totalmente autônomo ou precificação dinâmica em larga escala — ainda enfrentam limitações. A expectativa da Moody’s de que os ganhos de produtividade aumentem gradualmente, mas permaneçam bastante desiguais entre setores e até dentro das próprias empresas, reflete bem essa abordagem cautelosa.
“Eu acredito que a velocidade geral de adoção da IA será o principal fator, mas as estratégias de engajamento do jogador provavelmente serão o maior motor dessa diferença, permitindo prever e compreender melhor o comportamento dos usuários.”
– Martins Lielbardis, fundador do iGaming Centre
Custos de computação e o aperto no mercado intermediário
O aumento dos custos de infraestrutura desponta como uma linha divisória cada vez mais clara entre grandes operadores e o restante do mercado. A Moody’s afirmou que “a infraestrutura de IA é um gargalo crítico”, alertando que “a demanda por poder computacional deve superar a oferta, dando poder de precificação aos proprietários dessa infraestrutura”.
Lielbardis observa essa pressão de forma evidente no setor de iGaming. “Com mais capital, você tem mais capacidade e mais possibilidades de customização. Já é possível ver preços subindo até para hardware que antes era considerado de uso padrão, em alguns casos duas ou três vezes mais caros”, disse. Segundo ele, quando as empresas não conseguem investir diretamente em infraestrutura própria ou equipes especializadas, os compromissos se tornam inevitáveis. “Se uma empresa não pode arcar com seus próprios data centers ou especialistas, ela precisa terceirizar — e, nesse cenário, não consegue adaptar a solução exatamente às suas necessidades.”
A Moody’s reforçou essa preocupação em um contexto mais amplo, apontando que a consolidação de mercado entre poucos provedores de serviços em nuvem está elevando preços e ampliando a distância entre empresas bem capitalizadas e concorrentes com restrições orçamentárias. O acesso à computação de alto desempenho exige, cada vez mais, compromissos de longo prazo — um modelo que favorece grupos com balanços financeiros mais robustos.
Acesso desigual redesenha a concorrência
Em sua análise, a Moody’s previu que, em alguns setores, a IA poderá gerar um efeito de “vencedor leva a maior parte”, no qual escala e adoção precoce se reforçam mutuamente. Para Lielbardis, esse padrão tende a se repetir no iGaming, embora de forma desigual entre as diferentes áreas de operação.
“Acredito que a velocidade geral de adoção da IA será o fator determinante, mas as táticas de engajamento do jogador devem ser o principal elemento que amplia essa diferença, permitindo prever e entender melhor o comportamento do público”, explicou.
Ao avaliar impactos entre setores, a agência observou que os líderes estão incorporando a IA “em múltiplas etapas de suas atividades”, enquanto empresas menores enfrentam dificuldades para financiar programas de transformação. No setor financeiro, por exemplo, “os líderes usam a IA para proteger margens, oferecendo serviços a custos mais baixos ou operando processos-chave de forma mais eficiente”, enquanto outros ficam para trás.
“Estamos chegando a um ponto em que a tecnologia e as regras para a IA podem mudar em questão de um mês, e novas regulamentações podem surgir muito rapidamente.”
– Martins Lielbardis, fundador da iGaming Centre
Regulação e implementação fragmentada
Além dos custos e das capacidades técnicas, a fragmentação regulatória adiciona mais uma camada de complexidade à adoção da IA. A Moody’s destacou que regimes regulatórios divergentes — do AI Act da União Europeia ao modelo de licenciamento da China — tendem a elevar ainda mais os custos de compliance e dificultar a implementação global.
Lielbardis descreveu um ambiente de rápidas transformações, com pouca margem para previsibilidade no longo prazo. “Estamos chegando a níveis em que a tecnologia e as regras da IA podem mudar em um mês, e novas regulações podem surgir muito rápido”, afirmou.
O potencial do código aberto e os riscos operacionais
Um possível contrapeso ao aumento dos custos é a rápida evolução dos modelos de IA de código aberto. A Moody’s observou que “sistemas open source, que podem ser baixados e modificados gratuitamente por desenvolvedores, evoluíram rapidamente, com várias famílias de modelos reduzindo a distância em relação às soluções proprietárias líderes”.
À medida que a IA se torna mais integrada aos fluxos de trabalho, a agência também alertou para a ampliação dos riscos relacionados à cibersegurança e aos próprios modelos de IA, incluindo vulnerabilidades como prompt injection e envenenamento de modelos.
Embora o desempenho da IA continue avançando rapidamente, o caminho para retornos consistentes ainda é estreito. Como resumiu a Moody’s: “por enquanto, os gastos de capital superam amplamente a receita gerada pelas aplicações de IA”.
Faça parte da ação! Junte-se à maior comunidade global de iGaming com a contagem regressiva do Top 10 de notícias da SiGMA. Inscreva-se AQUI para receber atualizações semanais, análises exclusivas e ofertas especiais apenas para assinantes.




