Os padrões sempre estiveram nos bastidores da indústria de jogos, mas à medida que a regulamentação se torna mais rigorosa e as pilhas de tecnologia mais complexas, eles passam a ocupar posição central na forma como o setor opera e evolui. O desafio, no entanto, não é apenas criar padrões, mas conseguir que a indústria os adote de maneira efetiva.
A International Gaming Standards Association (IGSA), entidade sem fins lucrativos que desenvolve padrões e boas práticas para reguladores, operadoras e fornecedores, está no centro dessas discussões. Na primeira parte desta entrevista, o presidente da IGSA, Mark Pace, fala sobre os obstáculos que ainda atrasam a implementação, o papel que reguladores podem desempenhar na criação de demanda, as lacunas de padronização que ele identifica na Europa e o padrão fundamental que, em sua visão, poderia mais contribuir para a harmonização global.
Pergunta: Quando falamos de implementação, qual você considera o maior obstáculo atualmente: custo, sistemas legados, fragmentação regulatória ou prioridades comerciais concorrentes?
M. Pace: Acreditamos que o maior obstáculo à adoção é a demanda. Assim como em qualquer economia, você pode ter um ótimo produto e oferta disponível, mas sem demanda, mesmo o melhor produto ou serviço falhará. Quando falamos de Padrões e Boas Práticas, a demanda precisa vir das operadoras, que impulsionam mudanças por meio de suas decisões de compra, ou dos reguladores, que podem exigir que determinado padrão ou conjunto de boas práticas seja implementado.
Para ilustrar, vou usar um exemplo de cassino físico, onde, ao contrário do jogo online — orientado por software —, operadoras e fornecedores lidam também com hardware. Hoje, fornecedores de sistemas para cassinos físicos estão avançando no uso de IA para melhorar o marketing e aumentar receitas. A IA consome grandes volumes de dados, que precisam ser precisos e completos. Quanto mais acurado for o dado disponível, maior será o valor gerado pela aplicação.
Aqui está o problema: a maioria das máquinas de jogos eletrônicas (EGMs) em operação hoje é limitada quanto aos dados que pode transmitir, porque muitas ainda usam um protocolo de comunicação serial, ponto a ponto e não criptografado, desenvolvido em 1985! Esse protocolo não pode mais ser expandido, ou seja, não suporta novos dados de medição, de jogo ou qualquer outro tipo de informação que máquinas modernas controladas por computador podem gerar.
Então, por que a indústria ainda usa um protocolo de 40 anos atrás, quando existem protocolos modernos, criptografados, prontos para rede e extensíveis, compatíveis com padrões da indústria de TI? A resposta é simples: demanda.
Quem toma decisões de compra de EGMs não se preocupa com protocolos de comunicação, segurança de TI ou dados de marketing. O foco deles é maximizar receita no piso do cassino, avaliando conteúdo, matemática e mecânica do jogo para escolher quais EGMs atendem melhor às necessidades do mercado. Os fornecedores, por sua vez, também se concentram nessas áreas, usando protocolos obsoletos, mas confiáveis — até que um operador ou regulador exija funcionalidades que os protocolos antigos não suportam.
Pergunta: Pode dar um exemplo em que uma necessidade operacional ou regulatória clara ajudou a impulsionar a adoção de um padrão IGSA?
M. Pace: Nos estados norte-americanos de Illinois e Oregon, os reguladores precisavam de funcionalidade para controlar quais conteúdos de jogo eram instalados em cada EGM.
Tradicionalmente, isso era feito enviando um agente regulador ao local, observando a atualização do software/jogo, verificando se a versão era aprovada e validando sua instalação correta.
Com a expansão do jogo nesses estados, com um pequeno número de EGMs sendo instalados em grande quantidade de bares, as autoridades regulatórias perceberam que não tinham agentes suficientes para acompanhar o volume de conversões de software. O tempo de espera e a frustração de distribuidores de EGM e operadores de bares — sem falar nos próprios agentes reguladores — aumentaram significativamente.
A solução foi mandatar o protocolo de comunicação Game to System (G2S) da IGSA, que, entre várias funcionalidades, permite configuração remota e download de software e firmware em EGMs. Agora, os reguladores podiam, de seus escritórios, aprovar pedidos de atualização de sistema operacional e conteúdo de jogos, verificar as versões a serem instaladas e validar a instalação correta. Nesse caso, a demanda surgiu como uma exigência regulatória, e a IGSA tinha a solução.
Portanto, a demanda — ou a falta dela — é o verdadeiro motor da adoção de padrões IGSA. Custo, tecnologia legada ou outros obstáculos podem ser superados se houver demanda clara.
Pergunta: Onde você ainda vê as maiores lacunas de padronização na Europa, especialmente no iGaming? E que progresso é realista alcançar em 2026?
M. Pace: Quando criamos a GSA Europe, o Grupo de Especialistas em Jogos da Comissão Europeia, então em operação, estudava se um padrão de reporte de dados de jogos online seria útil para operadores, reguladores e fornecedores.
A IGSA já havia identificado essa lacuna e trabalhava em um padrão chamado Regulatory Reporting Interface (RRI). Quando o CEN (Comitê Europeu de Padronização) assumiu o desafio, a GSA Europe doou o RRI para o CEN.
O diretor-gerente da GSA Europe tornou-se co-líder do grupo de trabalho do Comitê Técnico do CEN criado para desenvolver o padrão. O resultado foi o Online Gambling Reporting (OGR) Standard, que, na minha visão, é o primeiro e único padrão de jogos aprovado em toda a Europa.
Ter nomes, formatos e tamanhos de elementos de dados padronizados simplifica muito o reporte regulatório que operadores e fornecedores precisam fazer, além de facilitar o consumo desses dados pelos sistemas regulatórios.
Pergunta: Se a IGSA pudesse convencer a indústria e os reguladores a se unirem em torno de um único padrão fundamental como base para harmonização global, qual seria e por quê?
M. Pace: Essa é uma pergunta difícil de responder, pois cada Padrão da IGSA foi desenvolvido para resolver uma questão específica identificada pela indústria, e cada um agrega um valor significativo. No entanto, a integridade dos jogos que oferecemos aos jogadores e a confiança desses jogadores são de importância máxima. Portanto, se eu tivesse que escolher um Padrão para adoção global, seria o Game Authentication Terminal (GAT) e seu equivalente, o Networked GAT Interface (NGI).
O GAT é um padrão de software que utiliza hash criptográfico em nível de bit, validação e autenticação para máquinas de jogo eletrônicas (EGMs). O software host do GAT pode ser instalado em um laptop, que é então conectado à EGM por um cabo, e uma solicitação GAT é enviada do software para o sistema operacional da EGM.
O NGI é uma versão em rede do GAT e, por ser em rede, é aplicável tanto a jogos online quanto presenciais.
O NGI permite que os reguladores autentiquem o software e o firmware em execução nas EGMs diretamente de seus escritórios, sem precisar ir a cada máquina individualmente. Os resultados são enviados pelas EGMs através da rede para a autoridade reguladora, onde podem ser conferidos com os valores registrados em certificados de laboratórios regulatórios ou laboratórios de testes independentes.
Além disso, o NGI permite que os reguladores autentiquem e validem os componentes críticos de jogos online, plataformas de iGaming, plataformas de apostas esportivas e outros sistemas de jogos online que operam em servidores dentro de data centers, frequentemente localizados em regiões geográficas diferentes da autoridade reguladora. Por componentes críticos, entende-se o gerador de números aleatórios, a matemática do conteúdo dos jogos e os componentes do sistema/plataforma considerados mais importantes pelos reguladores, como funções de contabilidade e relatórios.
Como muitos sabem, o conteúdo online é transmitido pela internet e projetado para ser exibido em dispositivos eletrônicos de consumo comuns, utilizando sistemas operacionais e navegadores de nível consumidor. Isso significa que muitos componentes não críticos podem precisar ser alterados com frequência para manter compatibilidade e interoperabilidade. Com o NGI, os reguladores podem ter certeza de que os componentes críticos dos produtos disponibilizados aos jogadores são cópias idênticas daqueles que foram submetidos, testados, certificados e aprovados para uso em uma determinada jurisdição de jogos.
A primeira parte da conversa com Mark Pace deixa claro que a padronização não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão estratégica para toda a indústria. O verdadeiro teste está em transformar frameworks em ação, garantindo que reguladores, operadores e fornecedores atuem alinhados o suficiente para que esses padrões façam diferença. Na segunda parte, Pace abordará novas linhas de desafio do setor, incluindo Responsible Gaming, ciberresiliência, supervisão de IA e prioridades coletivas futuras.
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