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Por que a proteção aos cassinos ainda é reativa no jogo moderno

Rajashree Seal
Escrito por Rajashree Seal
Traduzido por Thawanny de Carvalho Rodrigues

Apesar dos investimentos contínuos feitos por operadores de cassinos em sistemas de monitoramento, verificação de identidade e conformidade regulatória, a fraude e as trapaças organizadas seguem sendo grandes desafios no jogo presencial. Embora o uso de reconhecimento facial e câmeras digitais tenha aprimorado a vigilância, as perdas costumam ser identificadas apenas depois que o incidente já ocorreu, o que mostra que o setor ainda atua de forma majoritariamente reativa. Ao mesmo tempo, regulamentações mais rígidas e normas de proteção de dados transformaram a maneira como os operadores coletam, compartilham e utilizam informações sobre suspeitos, criando um conflito entre as exigências de compliance e as necessidades práticas de segurança no dia a dia.

Para aprofundar esses desafios, a SiGMA News conversou com John Connolly, especialista em proteção de cassinos e prevenção a fraudes e fundador da Finger, uma empresa de inteligência e consultoria em vigilância para cassinos. Ele compartilhou uma visão baseada nas operações presenciais, onde a presença física, a observação comportamental e equipes treinadas de vigilância continuam sendo pilares para preservar a integridade dos jogos, além de abordar temas como trapaças organizadas, lacunas de treinamento, verificação de identidade e as pressões regulatórias que hoje moldam a segurança dos cassinos.

Foco no jogo presencial em uma era híbrida

À medida que o setor passa a discutir cada vez mais ambientes híbridos de jogo, Connolly observa que sua especialidade permanece centrada nas operações físicas dos cassinos. Ele afirmou: “Não existe uma conexão clara entre a segurança no jogo presencial e no online. Um exige presença física, e eu prefiro não comentar sobre o online porque isso não faz parte do meu campo de atuação.”

Casino surveillance staff monitor live feeds from gaming tables
Equipes de vigilância monitoram transmissões ao vivo das mesas de jogo. (Fonte: IA)

A tecnologia ajuda, mas os trapaceiros continuam à frente

Connolly destaca que os métodos tradicionais de vigilância seguem relevantes, especialmente com o avanço da tecnologia: “Os métodos tradicionais se tornaram mais eficazes com o uso de tecnologias melhores, reconhecimento facial e câmeras digitais. No entanto, quando se trata de tecnologia, os trapaceiros são mais avançados e estão sempre um passo à frente.”

Apesar dos investimentos significativos em vigilância, ele acredita que ainda existem lacunas operacionais importantes: “O desconhecimento sobre os golpes mais recentes é uma falha evidente, assim como a falta de uso de um banco de dados comum com informações sobre trapaceiros já identificados. Sempre acreditei que é melhor saber quem são os trapaceiros do que tentar acompanhar métodos de trapaça que mudam constantemente.”

Ele acrescenta que muitas fraudes só são descobertas tarde demais: “Isso poderia economizar tempo, recursos e horas de trabalho gastas em investigações posteriores. A verdade é que a maioria das trapaças é detectada apenas na revisão dos fatos, depois que já ocorreram grandes prejuízos.”

Equipes organizadas e golpes de distração

Segundo Connolly, a trapaça em cassinos sempre foi uma atividade organizada: “Os trapaceiros sempre foram mais organizados e inventivos, e geralmente atuam em pequenas equipes usando métodos de distração e golpes de confiança.” Isso reforça a necessidade de treinamento contínuo e da presença de profissionais experientes no ambiente físico do cassino. 

A casino croupier dealing cards at a blackjack table, highlighting the human oversight central to land-based casino operations.
Um crupiê distribui cartas em uma mesa de blackjack, destacando a supervisão humana central nas operações presenciais. (Fonte: Wikimedia Commons)

O julgamento humano continua essencial

Ao falar sobre o papel da expertise humana, Connolly enfatizou que a tecnologia sozinha não substitui equipes treinadas: “Mais uma vez, tudo se resume a ensinar, treinar e contar com pessoal suficiente para lidar com métodos de trapaça em constante evolução. A leitura da linguagem corporal ainda é uma habilidade essencial que precisa ser ensinada, a menos que o operador tenha uma capacidade natural de perceber comportamentos e situações fora do padrão.”

Ele também destacou a importância da gestão da atenção e da capacidade da força de trabalho: “Concentração, conhecimento e habilidade de observação são fundamentais. A concentração cai após cerca de duas horas, por isso o número adequado de profissionais é um fator indispensável”, afirmou Connolly.

Para ele, o compartilhamento de conhecimento entre os profissionais do setor ainda precisa evoluir: “Grupos como o ‘Casino Surveillance and Security Society’ no LinkedIn são úteis, mas é necessário mais engajamento dos membros e maior troca de informações.”

Conflito entre regulação e segurança

Uma das críticas mais contundentes de Connolly é direcionada às barreiras regulatórias e de compliance. Ao ser questionado sobre os pontos de atrito entre a realidade operacional nos salões de jogo e as exigências impostas aos operadores, ele disse: “Regulamentações como as de proteção de dados e departamentos de compliance que preferem dizer não a qualquer nova ideia criam conflitos constantes entre esses setores e as áreas de segurança e vigilância.”

Ele acrescentou: “Na minha opinião, a proteção de dados acaba protegendo principalmente trapaceiros e criminosos. Celebridades, políticos conhecidos e membros da realeza são expostos à especulação da mídia, mas criminosos e trapaceiros não podem ser identificados, seus rostos são pixelados ou cobertos por máscaras. Como isso ajuda o reconhecimento facial de infratores?”

Documentos falsificados e novos riscos de identidade

Connolly afirma que a fraude de identidade continua sendo uma vulnerabilidade relevante: “Documentos falsificados ainda conseguem burlar os sistemas de segurança nas operações presenciais. Já a verificação online é mais rigorosa e eficiente.”

Ele acredita que os processos de KYC estão avançando, especialmente no ambiente digital: “De modo geral, o KYC — ‘Know Your Cheats’ — principalmente no online, está funcionando. Nos cassinos físicos, o reconhecimento facial que compara o documento apresentado com a pessoa presente é eficaz.”

Ainda assim, existem brechas: “Alterar apenas a imagem no documento pode evitar a detecção quando só se conhece o nome do indivíduo, e não seu rosto.””

Acesso remoto, VPNs e desafios de verificação

Connolly também alertou para o uso de ferramentas de acesso remoto e VPNs por fraudadores online para driblar sistemas de verificação: “Esses métodos de evasão ainda são eficazes para trapaceiros online e precisam ser superados. Aplicações de verificação como a SumSub são necessárias para um controle mais rigoroso.”

Abordagens globais para a segurança dos cassinos

Ao comentar sobre diferentes modelos regulatórios, Connolly destacou a Suíça como um exemplo sólido de práticas de segurança: “A Suíça possui um método muito rigoroso de proteção das operações, com uma lista nacional de pessoas autoexcluídas e excluídas compulsoriamente, que é compartilhada com países vizinhos com grande eficácia.”

Mesmo assim, ele reconhece que até sistemas robustos enfrentam desafios: “Ainda assim, isso pode ser contornado — e já está sendo — por meio de documentos falsificados. Ferramentas de reconhecimento facial precisam ser autorizadas para combater esse problema.”

Ele também ressaltou o valor da interação presencial: “A presença física diante do cliente nunca poderá ser substituída. Lições estão sendo aprendidas dos dois lados.”

Os riscos dos cassinos de acesso aberto

Ao projetar os próximos cinco anos, Connolly aponta o controle de acesso e o registro de visitantes como um dos maiores desafios de segurança: “Os sistemas europeus e de Singapura, que exigem o registro dos visitantes no local, precisam ser adaptados globalmente. Já foi comprovado que isso reduz os riscos.”

Em contraste, ele critica modelos mais permissivos adotados em outros mercados: “O sistema americano de acesso livre se mostrou perigoso e continua sendo. A lógica por trás disso é distorcida e precisa ser abandonada. O que preocupa ainda mais é a expansão desse modelo, especialmente no Reino Unido.”

Open-access casino floors remain central to debates on visitor registration and access control.
Salões de cassino com acesso aberto continuam no centro do debate sobre registro de visitantes e controle de entrada. (Fonte: Hard rock)

Um setor que ainda corre atrás do prejuízo

Para Connolly, o setor continua atuando de forma reativa: “Sem dúvida, ainda estamos atrás e seguimos tentando alcançar soluções depois que os problemas já aconteceram.”

Ele reforça a necessidade de acesso a dados e tecnologia: “Como indústria, só conseguiremos combater a criminalidade se tivermos as ferramentas necessárias para acessar dados e utilizar sistemas de reconhecimento facial. Na verdade, não precisamos coletar os dados, mas ter acesso a eles por meio de aplicações online como a ‘Finger’.”

O que os operadores devem priorizar

Encerrando a conversa, Connolly destacou a importância do controle de acesso e da adoção de tecnologias modernas. Sua mensagem final é direta: “O acesso livre de visitantes precisa ser eliminado, e o uso das tecnologias mais recentes para prevenção de crimes deve ser autorizado pelas autoridades reguladoras e governamentais.”

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